Delegada atribui R$ 1,8 milhão escondidos em puff a herança de tia
247 – A delegada da Polícia Civil de São Paulo Maria Corsato afirmou que aproximadamente R$ 1,8 milhão em dinheiro vivo, encontrados escondidos dentro de um puff entregue à sua irmã, são provenientes de uma herança familiar ainda não partilhada. A quantia, que inclui dólares e euros, foi apreendida após uma denúncia feita pela própria irmã da policial. O caso está sob investigação da Corregedoria-Geral da Polícia Civil, que apura a origem dos recursos e possíveis irregularidades administrativas e criminais.
Segundo reportagem do Metrópoles, a defesa de Maria Corsato sustenta que as cédulas foram encontradas na residência de uma tia em 2023. O advogado da delegada, Gerson Mendonça, afirmou que as duas irmãs tinham conhecimento da existência dos valores e discutiam como regularizar a situação patrimonial, mas o procedimento não teria sido concluído antes da denúncia.
De acordo com o defensor, Maria Corsato e a irmã estavam “pensando como iam fazer para regularizar o dinheiro”, mas “não houve tempo” para declarar a quantia. Ele atribuiu a decisão de acionar a polícia a um “surto” da denunciante.
A versão apresentada pela defesa será examinada pelas autoridades responsáveis pelo caso. Até o momento, não foram divulgados documentos que comprovem a origem hereditária dos recursos.
Irmã acionou a polícia após encontrar dinheiro escondido no móvel
O episódio teve início em 30 de setembro, quando Maria Corsato entregou um puff à irmã. Segundo o boletim de ocorrência, a delegada teria mencionado que estava “sendo procurada devido a uma suposta ordem de busca e apreensão”.
Quase um mês depois, no sábado (24), a irmã decidiu abrir o móvel com uma faca e encontrou cédulas de dinheiro e papéis com anotações em seu interior.
Diante da descoberta, ela acionou a Polícia Militar, que compareceu ao endereço e apreendeu os objetos.
Os agentes também tentaram localizar Maria Corsato em sua residência para obter esclarecimentos, mas foram informados pelo porteiro do edifício de que ela não estava no local.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou que a Corregedoria-Geral da Polícia Civil instaurou procedimentos para esclarecer a procedência dos valores e verificar a eventual responsabilidade da delegada.
“Os valores e as anotações encontrados foram apreendidos, e o dinheiro será encaminhado para depósito judicial. A apuração inclui a oitiva da denunciante e a realização das perícias cabíveis. Até o registro da ocorrência, a delegada não havia sido localizada para prestar esclarecimentos”, informou a SSP.
A ocorrência foi registrada com referências a lavagem de dinheiro, irregularidades funcionais e apreensão de bens. Essas classificações integram a investigação e não representam uma conclusão sobre a responsabilidade criminal da policial.
Dinheiro não consta na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral
A contagem realizada pelas autoridades apontou aproximadamente R$ 1,8 milhão em espécie, incluindo 120 mil dólares, equivalentes a cerca de R$ 595 mil na cotação utilizada pela reportagem original, e 12 mil euros, estimados em R$ 59,5 mil.
Além das cédulas, os policiais apreenderam 15 anotações que deverão ser examinadas durante as diligências.
O montante não aparece na declaração de patrimônio apresentada por Maria Corsato ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por ocasião de sua candidatura a deputada estadual nas eleições de 2026.
Nos documentos eleitorais, a delegada informou possuir um apartamento no Guarujá, avaliado em R$ 600 mil, e quatro imóveis em Santo André, com valores declarados de R$ 700 mil, R$ 500 mil, R$ 300 mil e R$ 200 mil.
Também consta uma aplicação bancária de R$ 500 mil.
A ausência dos recursos encontrados no puff entre os bens declarados passou a integrar os questionamentos sobre a situação patrimonial da policial. A defesa sustenta que o dinheiro ainda não havia sido formalmente partilhado nem regularizado.
O advogado Gerson Mendonça também argumentou que a simples manutenção de grandes quantias em espécie não constitui, por si só, uma infração penal. A investigação deverá verificar a procedência do montante e eventuais obrigações legais relacionadas à sua declaração.
Delegada atribui denúncia a desentendimento familiar
Maria Corsato se manifestou nas redes sociais e afirmou que a denúncia apresentada pela irmã ocorreu após uma série de conflitos familiares.
Segundo sua versão, o relacionamento entre as duas se deteriorou depois de um episódio envolvendo o marido da irmã, quando a delegada teria tomado partido do cunhado.
“O episódio ocorreu alguns dias após ela ter ido ao local de trabalho do meu cunhado e provocado um escândalo. Como fiquei ao lado dele, ela se desentendeu comigo”, escreveu.
A policial também mencionou um conflito ocorrido em 2008. De acordo com seu relato, a irmã teria registrado uma ocorrência na Corregedoria depois de ser informada de que Maria Corsato chegaria mais tarde do trabalho.
“Infelizmente, não é a primeira vez que ela age dessa maneira comigo quando está emocionalmente abalada ou é contrariada”, declarou.
Na manifestação, a delegada atribuiu à irmã problemas de alcoolismo e fragilidade emocional. Essas alegações correspondem à versão apresentada por Maria Corsato e não foram comprovadas pelas informações divulgadas.
A policial afirmou que seus representantes legais estão preparando os esclarecimentos solicitados pelas autoridades.
“Quanto aos fatos recentes, meus advogados já estão adotando as providências necessárias para prestar todos os esclarecimentos à Corregedoria, inclusive sobre a origem dos valores”, acrescentou.
Ao Metrópoles, Gerson Mendonça declarou que a denunciante já sabia da existência do dinheiro e decidiu chamar a polícia “justamente para prejudicar a delegada”.
O advogado também negou que existisse um mandado de busca e apreensão contra Maria Corsato, contrariando a informação que, segundo a irmã, teria sido mencionada pela policial quando entregou o móvel.
Maria Corsato atua há mais de 30 anos na Polícia Civil
Maria Corsato tem mais de três décadas de carreira policial e atua no 27º Distrito Policial, localizado no Campo Belo, zona sul da capital paulista.
Nas redes sociais, reúne mais de 360 mil seguidores e costuma publicar conteúdos relacionados à segurança pública, ao combate ao crime organizado, à chamada narcocultura e às casas de apostas, além de orientações sobre segurança digital.
A delegada também utiliza suas plataformas para manifestações políticas, incluindo críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e mensagens favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL).
Nas eleições de 2026, disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo União Brasil, mas não conseguiu se eleger, ficando na condição de suplente.
Ao longo de sua trajetória profissional, Maria Corsato já esteve envolvida em outras controvérsias. Uma delas diz respeito a uma investigação sobre suposto favorecimento ao empresário Thiago Brennand, preso desde abril de 2023 e investigado por crimes sexuais. A policial era responsável pela condução de um dos inquéritos que envolviam o empresário.
Seu nome também apareceu em um documento apresentado pela defesa da influenciadora Deolane Bezerra, que levantou suspeitas de possível abuso de autoridade por parte da delegada. Essas referências não estabelecem, por si só, a ocorrência de irregularidades.
No caso do dinheiro encontrado no puff, a Corregedoria deverá analisar os valores apreendidos, os documentos recolhidos e os depoimentos das pessoas envolvidas. A apuração também terá de esclarecer a alegação de que os recursos pertenciam a uma herança familiar descoberta em 2023 e ainda não regularizada.



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