O Tablado celebra 75 anos de história e ganha estátua de fundadora
247 – Com a inauguração de uma escultura em tamanho real de sua idealizadora, a dramaturga Maria Clara Machado, O Tablado iniciou a celebração de seus 75 anos de fundação. O evento ocorreu na terça-feira (27), na praça localizada em frente ao espaço cultural, no bairro do Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro, e contou com um coquetel para estudantes e convidados.
A obra homenageando a fundadora carrega a assinatura do artista plástico Edgar Duvivier, criador também do monumento em memória de Marielle Franco. A produção das peças contou com viabilização financeira obtida no início do ano, quando 50 réplicas em miniatura, numeradas e com certificado de autenticidade, foram colocadas à venda.
A trajetória da instituição começou em 28 de outubro de 1951, quando uma companhia de teatro amador deu início ao projeto que se consolidou como referência nacional no ensino das artes cênicas e no desenvolvimento de atores. Por suas salas de aula passaram profissionais consagrados como Marieta Severo, Fernanda Torres, Camila Pitanga, Ângela Vieira, Drica Moraes, Débora Lamm, Maria Clara Gueiros, Gregório Duvivier e Enrique Diaz. Desde 1964, quando implementou os cursos de improvisação, a escola fortaleceu um modelo pedagógico focado em aspectos que vão além da atuação técnica.
A diretora Cacá Mourthé, sobrinha da fundadora e criada nos bastidores do teatro, assumiu a liderança da casa mantendo o foco nas conexões interpessoais. Para a gestora, a maior contribuição da instituição permanece inalterada mesmo perante as transformações sociais: o valor do convívio presencial e dos vínculos afetivos, aspecto evidente nas montagens voltadas ao público infantil. “No Tablado é costume ver três gerações assistindo juntas a uma peça: a avó que levou a mãe e agora leva o neto junto com a filha. É emocionante ver a ligação afetiva que o teatro infantil proporciona”, relata.
Como parte das comemorações de três quartos de século, o palco recebe uma nova versão de “A Bruxinha que Era Boa”, clássico escrito por Maria Clara Machado que ganhou direção de Cacá. O espetáculo fica em cartaz até novembro, com apresentações aos sábados e domingos, às 17h. O elenco é formado por jovens talentos vindos da própria escola: Luísa Kosovski, Samuel Valadares, Helena Alpino, Grila Grimaldi, Maria Repeto, Bruna Zordan, Rodrigo Soares e Bia Linhales — atriz que no ano anterior encenou o papel principal de Pluft, o Fantasminha.
A vivência artística da diretora antecede sua gestão no Tablado. Sua infância foi moldada pelo contato frequente com intelectuais e criadores na residência familiar: “costumo dizer que minha universidade foi a minha família, os almoços recheados de histórias e de pessoas ilustres como Carlos Drummond, Aníbal Machado, Eneida, Vinicius de Moraes e tantos outros”.
Aos cinco anos de idade, Cacá fez sua estreia na atuação interpretando Gretl, a caçula dos Von Trapp na montagem de “A Noviça Rebelde”, ocasião em que travou diante da plateia em um momento marcante: “era muita gente e eu paralisei. Depois de um bom tempo, em vez de dizer ‘não sei por que me sinto tão só’, falei ‘não sei por que me sinto tão mal’. A plateia veio abaixo de tanto rir”.
Ao se referir à tia, a diretora guarda uma lembrança afetiva e bem-humorada: “era sempre a mesma: uma palhaça que gostava de disciplina. Bem contraditória!”.
Cacá observa peculiaridades no perfil dos estudantes que chegam atualmente à escola de teatro: “é uma geração mais sagaz e menos disciplinada, que acredita em mágica e não no trabalho. Querem resultado e é por isso que, mais do que nunca, o teatro é fundamental para a formação do indivíduo, independentemente da futura profissão”.
A manutenção da proposta pedagógica exige empenho constante. Apesar de reconhecer que poderia ter realizado mais projetos profissionais fora da instituição, a gestora encara o trabalho continuado no local como uma missão de vida: “existe uma enorme dedicação minha ao Tablado. Manter um teatro infantil no Rio de Janeiro não é fácil, não”.
Preservado como patrimônio cultural e afetivo do Jardim Botânico ao atingir 75 anos de existência, o espaço projeta sua continuidade com o desejo de sua diretora: “vida longa ao Tablado! Que cada vez mais ele possa formar indivíduos melhores, mais criativos e responsáveis”.



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