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Lula vitorioso promete participação popular e crescimento voltado ao futuro

28.10.2026 7 min read

Escrevendo para o Monitor Mercantil, em 25 de outubro de 2026, Andrea Penna descreve “O sucesso da governança na China e suas inspirações”, a partir da frase de Xi Jinping: “Por maior que seja uma conquista, dividida por 1,4 bilhão, torna-se muito pequena; por menor que seja um problema, multiplicado por 1,4 bilhão, torna-se muito grande.”

O Brasil tem população 6,59 vezes menor do que a República Popular da China (China). Somos levados a crer que medidas adotadas pela China, que a levaram a segunda maior economia do mundo, seriam facilmente aplicadas ao Brasil. Ledo engano.

Se a população chinesa é tão maior, a homogeneidade desta população é notável; 91,1% pertencem à etnia “Han”. Enquanto o Brasil se caracteriza por imensa diversidade em sua população miscigenada. Aqui, os primitivos habitantes receberam os europeus, africanos e asiáticos constituindo um país verdadeiramente único em tipos humanos e culturas.

Uma solução que facilmente seria adotada pelos chineses necessitaria verdadeira tradução para ser aplicada na Amazônia, ao norte, e nos Pampas, ao sul. E considerando apenas a variedade de biomas, o que se dirá pelas culturas que se formaram por todo um território, bem próximo da China.

No artigo de Andrea Penna, tomamos conhecimento da palestra proferida pelo professor e diretor-geral do Instituto de Estudos Latino-americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, Fan Jianxin, para o auditório lotado da Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sobre o planejamento e a democracia envolvendo toda a população chinesa para sua execução.

Lula, em seu discurso da vitória, afirmou desejar neste quarto governo contar com a participação de todo o povo na formulação das metas e na sua execução e fiscalização. A questão que se coloca de início é: o povo brasileiro está preparado para participar? Já desenvolvemos o sentido de responsabilidade cidadã que se coloca a frente do interesse mesquinho e imediatista do ganho?

A China tem milênios de convívio com o pensamento de Confúcio para quem o ensino é, por natureza, engajado, centrado num ideal prático, que a filósofa francesa Anne Cheng resume em ser “exclusivamente político”, e escreve que o número de parágrafos consagrados à arte de governar é bastante para nos convencer.

Lula também fez referência à Escola de Tempo Integral (ETI), como os Cieps, criados no Rio de Janeiro por Darcy Ribeiro, no governo de Leonel Brizola. Mas nos 44 anos que separam os Cieps destas ETIs, a tecnologia da informação teve um desenvolvimento extraordinário. Quem imaginaria na década de 1980 ter um aparelho celular com os recursos que todos atualmente dispõem?

A questão do ensino também conheceu desenvolvimento notável. O ensino fundamental não se restringe ao que era denominado primário, ginásio e segundo grau ou colegial. Hoje não trata apenas dos aspectos cognitivos mas à formação da personalidade, da moral e da cidadania. Aquele que participará do planejamento, da execução, da fiscalização das ações do Estado necessitará desta formação que denominaremos cidadã.

Na efetividade, a ETI cuidará da criança do nascer até sua diplomação de cidadã, materializada pelo Título de Eleitor, que receberá aos 19 anos, como conclusão do Curso Fundamental com um ano de serviço à Pátria. E, assim preparada, pode então colaborar com os governos.

Características da Escola de Tempo Integral (ETI)

Sem descrevermos a atuação de um futuro Ministério da Instrução Pública, vejamos algumas das características da Escola de Tempo Integral (ETI), que deverá contar com ao menos uma unidade em cada distrito do Brasil.

Primeiramente, a escola deverá contemplar a diversidade geográfica e cultural do país. A própria língua portuguesa, embora compreendida em todo o território nacional, apresenta expressões próprias em cada região, que permitem distinguir um potiguar de um paulista da capital ou de um habitante do Pampa gaúcho.

A ETI também deverá considerar as diferentes necessidades de cada faixa etária. Do nascimento aos três anos, período em que as sensações de acolhimento, carinho e afeto são fundamentais para o desenvolvimento infantil, a criança receberá cuidados próprios da educação maternal. Em seguida, dos três aos seis anos, no jardim de infância, aprenderá a conviver com as diferenças. Nessa fase, o afeto dará lugar, progressivamente, também à sensação de pertencimento e à formação social da criança.

Ao final desses seis primeiros anos, a criança terá recebido cuidados voltados à sua formação emocional e moral, em um processo de integração à cidadania. Dos seis aos dez anos, terá início o processo de desenvolvimento cognitivo, artístico e esportivo, com atividades voltadas ao conhecimento e ao uso do corpo. A criança aprenderá a ler, escrever e contar, além de executar um instrumento musical — que pode ser a própria voz — e praticar exercícios físicos ou esportes.

Dos 11 aos 18 anos, o adolescente dará continuidade à educação artística e à prática esportiva, ampliando seus conhecimentos com conteúdos que lhe permitam adquirir uma profissão, incluindo o aprendizado de outro idioma.

Aos 19 anos, prestará serviço à Pátria, em atividades nos serviços públicos civis e militares. Ao término desse período, receberá seu diploma de cidadão, materializado pelo Título de Eleitor. Creio, caro leitor, que eleitores formados dessa maneira evitarão a eleição de candidatos mentirosos, desonestos, egoístas e impatrióticos, como os que verificamos nestas últimas eleições, alguns dos quais merecedores até de pena de prisão.

A criação desse Ministério será uma das tarefas mais árduas do governo Lula, mas também poderá ser uma das que mais frutos darão ao futuro do povo brasileiro. Afinal, o Brasil só perde para a África do Sul no tempo de permanência diante da televisão, assistindo a programas e propagandas: são 9 horas e 24 minutos naquele país e 9 horas e 13 minutos no Brasil.

Esse Ministério não substituirá o Ministério da Educação, que continuará responsável pelos cursos de idiomas, pelos conhecimentos gerais e por outros bens culturais, além da produção de materiais educacionais.

O desenvolvimento da Nação

Toda discussão sobre o desenvolvimento nacional cai na esparrela do equilíbrio fiscal. Na verdade, o que significa equilíbrio fiscal? Que o mais importante para o país é a gestão financeira. O que está acontecendo após quase meio século de domínio do neoliberalismo financeiro pelo mundo ocidental? Guerras, miséria, desemprego, greves, doenças e desalento generalizado.

Isso ocorre sobretudo na Europa que aprendeu a viver do trabalho alheio e nos Estados Unidos da América (EUA), onde os moradores em automóveis e nas ruas superam os que podem pagar as prestações de uma casa ou um aluguel residencial. E não são apenas as estatísticas que nos informam desta situação; é o permanente ambiente de revolta que se vê na Europa e nos EUA.

Colocar a moeda acima do interesse das pessoas é uma inversão perversa de objetivos do Estado que só se explica quando se coloca o privado acima do público, como faz o neoliberalismo. Mas não é só. Ele também é falso, porque cria uma dívida inexistente devida tão somente pela circulação da moeda pelos bancos.

O Banco Central foi criado pelo governo militar de Castelo Branco, em 31/12/1964, dando mais autonomia a uma incumbência até então atribuída ao Banco do Brasil. Mas a partir de 2021 (Lei Complementar 179), do governo de Jair Bolsonaro, ele passou a defender a estabilidade dos preços, considerada indispensável para eficiência do sistema financeiro e uma “ferramenta do pleno emprego” (sic).

A filósofa estadunidense Nancy Fraser publicou, em 2023, o livro que na tradução para o português tomou o título Capitalismo Canibal. Lê-se nesta obra, a respeito do capitalismo: “Muitas vezes promete democracia no campo político. No entanto, essa promessa é sistematicamente solapada pela desigualdade social, de um lado, e pelo poder de classe, do outro lado. Assim, o ambiente de trabalho capitalista está isento de qualquer pretensão de autogovernança democrática”.

E deste capitalismo canibal resulta “a consolidação de uma variedade de injustiças, que incluem a opressão racial, o imperialismo, a despossessão indígena e o genocídio”.

Mas tudo isso fica ofuscado pela mídia, cujo controle está nas mãos de cinco famílias (Murdoch, Roberts, Ellison, Bloomberg e Elon Musk) e meia dúzia de gestores de ativos: BlackRock, Vanguard, State Street, Fidelity, JP Morgan e Goldman Sachs.

Lula terá um imenso trabalho se realmente quiser fazer do Brasil um país soberano que não seja quintal de ninguém. E começará em casa, enfrentando as mesmas forças que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, à deposição de João Goulart e a criação de uma Nova República neoliberal financeira.

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