Sancho Janones e Dom Lula, a dupla sintonizada com o povo
Quem começou a semana indo à janela sem se dar conta de que novos ventos sopravam sobre o país, não percebeu que algo de muito forte aconteceu no Brasil.
Fizemos uma revolução: pacífica, colorida, alegre, compacta e sólida. E para os que dela participaram, a vida não seguirá mais igual.
As pressões de fora não terão a mesma força sobre o governo e os movimentos de Lula se darão de outro modo que só foi entendido pelos que se deram ao trabalho de assistir à “live da vitória”, sob o comando do general André Janones.
Lula mudou. E deixou isso muito claro na live.
Sentados informalmente atrás de uma mesa, com dois microfones, o principal ingrediente ali foi a simplicidade e a emoção.
A conversa sem rodeios, recheada das lembranças recentes da campanha, que iam desfilando diante dos olhos dos internautas sob a forma de vídeos e memes, teve como sonoplastia as risadas.
Por vezes se deixavam banhar de lágrimas, que brotavam sem freio dos olhos de Janones ou do próprio presidente.
Eram uma dupla sintonizada, que acabava de viver uma grande epopeia e, tal como Sancho Pança e Dom Quixote de la Mancha, relaxados à beira dos caminhos, expunham para o grande público, maravilhado, os melhores e piores momentos e as apreensões até a vitória.
Talvez o ponto alto tenha sido quando o presidente Lula descreveu a sua ideia de cantar o Hino à Independência na Paulista.
Ali, disse, foi tomado da força do povo, que se não sabia a letra cantava o estribilho, e se não acertava, levantava os braços, como a tocar com as mãos a vitória de um país inteiro.
Lula também deixou claro que daqui por diante quer falar direto com o povo.
A mídia, desnorteada, ainda mede em que espaço irá se encaixar nesta nova maneira de governar do presidente Lula.
Ele não é de excluir ninguém, e saberá se equilibrar entre o que esperam dele e o que ele está disposto a entregar, dentro do compromisso que se estabeleceu entre seu governo e as ruas.
Talvez uma boa maneira de buscar o que será um novo governo Lula, tendo ao seu lado o reforço do exército de Janones, seja trazer um dos episódios do romance de Cervantes, quando aconselha ao recém-empossado Sancho, no cargo de governador.
Quando pelas mãos do marido da condessa de Rodríguez, Sancho Pança, o fiel escudeiro do cavaleiro andante, Dom Quixote de La Mancha, foi alçado à condição de governador da Ilha de Baratária, escreveu ao seu amo e o consultou sobre como deveria governar.
Dom Quixote o respondeu. Sancho pediu que o seu secretário lesse a carta em voz alta, caso não contivesse nenhum segredo.
Constatando que se tratava de uma carta a um amigo, pôs-se a Lê-la com os seus conselhos ao recém-empossado:
“Dizem-me que governas como se fosse homem, e que és homem como se fosses bruto, pela humildade com que te tratas; adverte, Sancho, que muitas vezes convém, por autoridade do ofício, ir contra o que pede a singeleza do coração, porque o bom adorno da pessoa que está em altos cargos deve ser conforme ao que eles pedem, e não à medida daquilo a que a sua humilde condição o inclina.
Veste-se bem, que um pau enfeitado já não parece um pau; não digo que tragas dixes nem galas, nem que, sendo juiz, te vistas como soldado, mas que te adornes com o fato que o teu ofício requer, contanto que seja limpo e bem composto.
Para ganhar as vontades do povo que governas, entre outras coisas, duas hás de fazer: a primeira ser bem-criado com todos, e isso já eu to recomendei; a outra, procurar que haja abundância de mantimentos, porque não há coisa que mais fatigue o coração dos pobres do que a fome e a carestia”.
O texto de Cervantes parece inspirado no presidente Lula.
Ele está ciente desses princípios e os cita sempre, em nome de D. Lindu.
“Não é o que o sistema financeiro quer, mas pobre não pagará a conta”, repetiu, diante de economistas, com quem se reuniu.
Ao lado de Sancho Janones, Dom Lula agora fala à sua gente.



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