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Para onde foi o consumo na China

07.11.2026 6 min read

Em um shopping center de Xiamen, no sudeste da China, uma loja de eletrodomésticos anuncia um desconto de 15% para quem entregar sua televisão velha e comprar uma nova. A poucos metros dali, uma agência de viagens apresenta pacotes para observação de aves migratórias no estuário do rio Amarelo e também oferece ingressos para shows que se esgotam em minutos. Os dois estabelecimentos convivem, mas contam histórias diferentes. Um depende de um programa governamental que ajuda as pessoas a renovarem seus bens de consumo. O outro vende novas experiências que, a princípio, ninguém precisa subsidiar.

A cena resume a atual redefinição do consumo na China, onde as vendas no varejo de serviços cresceram 4,9% em termos anuais nos primeiros oito meses de 2026, enquanto as de bens cresceram apenas 1%. A defasagem, de quase cinco vezes, confirmou uma realidade econômica que já havia sido alertada pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS) ao reformular a maneira de medir os cada vez mais variados gastos das famílias chinesas.

Se observarmos apenas o consumo de bens, que não decola muito, a China está com problemas, como argumenta o Ocidente. Se observarmos o conjunto das variadas formas de gastar, o país é testemunha da transformação de sua economia doméstica, como defende o Ministério do Comércio. A diferença entre ambas as visões também está no que é considerado consumo e em como ele é medido. A expansão dos serviços não significa necessariamente que as famílias tenham deixado de comprar bens para substituí-los por viagens, espetáculos ou experiências, mas sim que essas novas formas de gasto são incorporadas a um mercado interno que não pode mais ser analisado exclusivamente a partir das compras tradicionais.

As pessoas não deixaram de consumir, deixaram de comprar certas coisas, insiste o NBS.

O economista Yu Chunhai, da Universidade Renmin, explica que o consumo das famílias representou cerca de 40% do PIB em 2025, cerca de 1,5 ponto a mais do que há uma década, mas ainda longe dos 70% das economias mais desenvolvidas. Em outras palavras: a mudança nos hábitos de consumo é uma realidade, mas a mudança recém está carregando seus primeiros móveis.

Wang Yiming, ex-vice-presidente do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado, explica que, quando o PIB per capita se aproxima de 15.000 dólares, os serviços começam a ganhar terreno nas decisões de consumo, embora sem necessariamente deslocar a compra de bens. A China estaria nessa fase, ainda que com alguns desajustes típicos de tamanha transformação: a oferta de serviços cresce, mas não necessariamente onde está a demanda; e a demanda de alguns bens cai, porque prioriza outros consumos.

Uma visão muito mais crítica é oferecida pelos analistas americanos Dinny McMahon e Andrew Polk, do Center for Strategic and International Studies (CSIS). Em um relatório sobre a transição econômica chinesa, eles advertem que as famílias recebem uma parcela relativamente pequena dos benefícios gerados pelo crescimento do país. A isso soma-se, na opinião deles, uma proteção social que consideram insuficiente, o que levaria muitas famílias a reservar dinheiro para enfrentar gastos futuros em vez de destiná-lo ao consumo.

Novas formas de gastar

Durante a semana de férias pelo recente Dia Nacional, as viagens turísticas internas totalizaram 826 milhões, 6,3% a mais na média diária em relação ao ano anterior, e o gasto total atingiu 738,375 bilhões de yuans, um aumento de 4,3% na mesma comparação. Enquanto no porto de cruzeiros de Xiamen as chegadas de embarcações cresceram 33% no primeiro semestre, cerca de 400.000 pessoas visitam por ano os locais de observação de aves no estuário do rio Amarelo.

“Os consumidores passaram de comprar produtos a comprar tranquilidade, e de um consumo funcional a outro experiencial, com o qual buscam experiências imersivas, interativas e gratificantes a nível emocional”, resume Zhang Weihua, vice-diretor do Departamento de Cultura e Turismo de Shandong, em um relatório da agência Xinhua.

Essas experiências mobilizam centenas de milhões de pessoas e têm um efeito multiplicador sobre o consumo de produtos associados. Os óculos inteligentes são um bom exemplo dessa combinação. Suas vendas aumentaram 120% em termos anuais nos primeiros oito meses de 2026, graças ao interesse despertado por sua tecnologia e, não menos importante, ao subsídio de 15% sobre o preço oferecido por um programa de estímulo à compra de produtos digitais e inteligentes.

Com efeito, o Programa de Renovação de Bens de Consumo, que desde o início de 2026 apoiou 250 milhões de compras, existe precisamente porque a demanda por bens nem sempre decola por si só. Como todos sabem, na China confia-se mais no planejamento do que nessa história de forças do mercado. Cada yuan investido pelo Estado gera mais de dez yuans em vendas, de acordo com um coeficiente de aproveitamento desses fundos, que passou de 1:7,8 para 1:10,3, detalhou Lin Jian, da Academia de Comércio Internacional.

Pois bem, nem tudo o que cai é crise, nem tudo o que sobe é milagre. Os consumos vinculados ao petróleo diminuíram 6,1% em termos anuais, impulsionados pelo avanço dos Veículos de Nova Energia (NEV), que já representam mais da metade das vendas de carros novos na China. A transição energética e a do consumo seguem por caminhos separados, é verdade. Que essas mudanças modifiquem o mapa do que as famílias chinesas compram, também é.

Por trás dessas transformações, há uma estratégia estatal que busca orientar o consumo para novas prioridades e, ao mesmo tempo, sustentar a demanda interna.

A China rejeita a fórmula do “dinheiro jogado de helicópteros” (de Milton Friedman) que infla temporariamente os dados de consumo, mas provoca graves sequelas inflacionárias a longo prazo e uma deterioração das finanças públicas, segundo escreveu o comentarista Bi Jianlu em um artigo publicado no site Foreign Policy in Focus. Em seu lugar, o país asiático apresentou seu primeiro plano quinquenal dedicado à expansão do consumo, com capítulos sobre emprego, renda, previdência social e serviços públicos.

“O objetivo é construir uma estrutura na qual a população se sinta segura para gastar hoje e, acima de tudo, também amanhã”, destacou Liao Min, vice-ministro das Finanças, ao explicar a estratégia oficial de acelerar o consumo de serviços daqui até 2030.

Nesse contexto, uma das questões pendentes do governo é como equilibrar o consumo em nível nacional. Embora as vendas no varejo de bens em áreas rurais tenham tido este ano um crescimento percentual maior do que nas cidades, a realidade é que partiram de uma base muito menor. Outra questão é que nem todas as famílias urbanas participam igualmente da expansão dos novos consumos. A observação de aves, os shows esgotados e os cruzeiros mostram uma parte da transformação, mas não necessariamente a experiência cotidiana das famílias de baixa renda ou que vivem em regiões com menos oportunidades.

Pequim sustenta que seu mercado interno não parou, mas sim que aprendeu a se mover em outras direções. Defende que, entre o impulso dos subsídios oficiais e a busca por novas prioridades, a economia doméstica responde a um mapa de decisões muito mais diversificado do que no passado. Trocar uma televisão velha continua tendo o seu lugar, mas já não é o suficiente para contar para onde foi parar o consumo na China.

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