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Cultura da magreza extrema avança e casos de anorexia e bulimia sobem 71% no mundo

31.10.2026 9 min read

247 – O padrão inalcançável de magreza disseminado na internet tem levado mulheres a desenvolverem uma visão profundamente distorcida de seus próprios corpos, cenário que acompanha uma alta de 71% nos diagnósticos globais de anorexia e bulimia desde 1990, informa o G1.

A nutricionista Carol Alves, de 36 anos, vivenciou esse fenômeno na pele. Mesmo mantendo exames de rotina dentro da normalidade, percentual de gordura saudável, rotina constante de exercícios e vestindo manequim 40, a profissional virou alvo de ataques virtuais após publicar um vídeo questionando a ideia de que esses tamanhos não seriam mais considerados magros. Diversas usuárias a classificaram como gorda, e alguns comentários chegaram a atribuir a ela obesidade de grau um.

Especialista em comportamento alimentar, transtornos alimentares e estudante de psicologia, Carol utiliza suas plataformas digitais para produzir análises críticas sobre os padrões de beleza impostos às mulheres. Ao notar uma tendência no TikTok afirmando que o tamanho 38 ou 40 — comum no biotipo brasileiro — representaria “corpo médio” ou excesso de peso, gravou um questionamento sobre a origem desse pensamento, lembrando que números como 34 e 36 cabem apenas em biotipos naturalmente pequenos. Na mesma publicação, a profissional mencionou a moda recente de adultas celebrarem a compra de vestuário na seção infantil.

Embora soubesse do potencial de repercussão negativa por parte de internautas, as reações ultrapassaram a crítica simples. Diversos usuários afirmaram que ela deveria “aceitar” que estava acima do peso ideal, com percentual de gordura elevado. Diante disso, a nutricionista ressalta as diferenças conceituais entre os termos: a palavra gorda refere-se a uma característica física, enquanto a obesidade constitui uma condição clínica, diagnóstico inteiramente inaplicável a indivíduos na faixa de peso saudável. Para Carol, o fato de o público atribuir obesidade a quem possui peso normal evidencia uma distorção grave do olhar social, incapaz de reconhecer uma estrutura física saudável.

Se para a profissional os ataques não causaram abalo direto devido ao conhecimento técnico de seu próprio corpo, o impacto nas espectadoras revelou-se alarmante. Amigas, pacientes e seguidoras expressaram aflição, questionando a própria imagem e chegando a se ofender na área de comentários. “Se fizeram isso com uma mulher lida como magra, que treina e tem a barriga definida, o que será que essas mulheres passaram a pensar de si mesmas?”, indaga a nutricionista. No cotidiano do consultório, o reflexo é o ressurgimento agressivo de quadros de bulimia, anorexia e compulsão alimentar, com pacientes já magras buscando um emagrecimento ainda mais severo.

Essa insatisfação corporal contínua é classificada como um dos principais fatores de risco para os transtornos alimentares, patologias psiquiátricas nas quais a preocupação com balança e comida passa a reger a rotina e a deteriorar a saúde. A alteração na percepção visual da própria imagem, quando a pessoa se enxerga maior do que é, costuma integrar os quadros anoréxicos e também pode aparecer na bulimia.

Dados do projeto Carga Global de Doenças (Global Burden of Disease), publicados recentemente e abrangendo 204 países entre os anos de 1990 e 2023, mostram que 3,9 milhões de indivíduos viviam com anorexia e 14,2 milhões com bulimia em 2023. Do total de afetados, mais de 40% tinham idade entre 10 e 24 anos, e quase 70% pertenciam ao sexo feminino. A prevalência máxima da anorexia ocorre entre 15 e 19 anos, enquanto a bulimia atinge o pico entre 30 e 34 anos.

Mesmo isolando o crescimento e o envelhecimento populacional, a taxa de prevalência dessas doenças subiu aproximadamente 21% desde 1990. Os maiores índices continuam concentrados em países de renda alta — como Austrália, Nova Zelândia e nações da Europa Ocidental —, mas o aumento relativo mais expressivo ocorreu no Leste, Sul e Sudeste da Ásia, processo relacionado por pesquisadores às rápidas transformações econômicas e sociais naquelas regiões. Os autores ponderam, contudo, que o levantamento não contabilizou a compulsão alimentar — o que indica uma subestimativa do problema real — e que é complexo mensurar quanto da alta decorre de aumento efetivo de casos, aprimoramento no diagnóstico ou mudança nos critérios médicos.

A psiquiatra Ana Clara Floresi, do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pondera que, apesar das alterações nos critérios ao longo do tempo, o avanço continuado dos diagnósticos desde os anos 2000 está amplamente documentado. A especialista aponta ainda que as redes sociais representam um vetor decisivo para explicar a escalada das estatísticas, embora não tenham sido medidas diretamente na pesquisa.

A pressão estética por corpos reduzidos opera em ciclos históricos. Na década de 1950, o padrão valorizava silhuetas curvilíneas; a partir dos anos 1960, a magreza extrema ganhou força, culminando nos anos 1990 com a exibição de modelos com aparência enfraquecida no meio da moda e da publicidade. O alerta da comunidade médica abriu espaço para iniciativas de inclusão e diversidade de corpos, movimento conhecido como body positive. No entanto, segundo Floresi, essa fase inclusiva perdeu fôlego a partir de 2021 ou 2022, resultando no encolhimento novamente drástico da presença de corpos maiores nos desfiles de moda.

O mecanismo de propagação também se transformou. Se em décadas anteriores a busca por conteúdos estimulantes da anorexia e bulimia dependia da proatividade em fóruns específicos na internet, hoje os algoritmos detectam o interesse do usuário e passam a entregar espontaneamente publicações cada vez mais extremas. Trata-se de uma enxurrada de imagens modificadas por filtros digitais e procedimentos estéticos, raramente identificados como artificiais pelo público. “O ideal de magreza extrema não é novidade. A diferença é que ele agora chega sem que a pessoa precise procurá-lo”, destaca a psiquiatra.

Apesar de as plataformas removerem termos e etiquetas que fazem apologia a esses transtornos, os códigos e símbolos utilizados pelos usuários mudam constantemente. Nesses espaços digitais, em vez de apoio, os jovens encontram dinâmicas de comparação destrutiva, incentivo a comportamentos nocivos e desafios para perda acelerada de peso. Em audiência promovida no Senado no ano de 2024, a representante da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, Maria Edna de Melo, denunciou que as redes sociais criaram um ambiente que glamouriza corpos extremamente magros e expõe crianças e adolescentes a métodos alimentares de altíssimo risco.

Paralelamente, a faixa etária de início das patologias diminuiu. Anteriormente, o surgimento da anorexia costumava ocorrer por volta dos 16 anos e o da bulimia perto dos 20 anos. Levantamentos recentes registram pacientes com 10 e 12 anos, havendo relatos na literatura médica de casos diagnosticados em crianças de apenas 5 anos. Em razão desse cenário, Floresi orienta que pais mantenham crianças afastadas das redes sociais até os 16 anos e, após essa idade, realizem o monitoramento do conteúdo consumido.

A médica adverte para o abismo existente entre o padrão cobrado e o corpo da imensa maioria da população. A magreza constitucional — presente em quem mantém baixo peso de forma natural e sem alterar a relação com a comida — é uma condição rara. Quando transformada em exigência universal, a magreza extrema passa a ser alcançada por meio do adoecimento físico ou psíquico, tornando-se um símbolo distorcido de sucesso, beleza e controle. Como a cobrança recai prioritariamente sobre o público feminino, o estigma de “doença de mulher” faz com que homens — responsáveis por cerca de 31% dos casos identificados no estudo — demorem a reconhecer os sintomas e a buscar auxílio médico.

A instalação do transtorno provoca alterações severas no processamento cognitivo sobre o próprio corpo. Não se trata de uma simples ilusão de ótica, explica Floresi: a privação alimentar severa somada à rigidez mental progressiva modifica fisicamente a percepção de si, fazendo com que o indivíduo se enxergue maior do que realmente é — alteração que pode persistir mesmo após a recuperação do peso corporal.

A reabilitação nutricional adequada é a ferramenta essencial para recondicionar gradualmente esse desconforto visual. Para o diagnóstico formal de anorexia, os critérios vigentes exigem a restrição alimentar que resulte em baixo peso corporal, o medo intenso de engordar e uma autoavaliação excessivamente pautada na forma e no peso do corpo; a distorção da imagem é frequente, embora não seja item obrigatório.

A recente popularização dos medicamentos injetáveis voltados ao emagrecimento introduziu um fator de risco adicional. Embora sejam considerados seguros do ponto de vista psiquiátrico quando prescritos para o tratamento da obesidade, essas medicações vêm sendo utilizadas indevidamente por pessoas sem indicação clínica que buscam perda rápida de peso, levando usuárias a permanecerem dias sem ingerir alimentos.

Na anorexia, não existe qualquer indicação para o uso dessas substâncias, e sua utilização caracteriza conduta de elevado risco. Na bulimia, a segurança dessas canetas não foi testada e, quando associada à obesidade, exige acompanhamento rigoroso de especialistas, pois o fármaco pode simular os comportamentos de restrição e purga característicos da doença. Floresi lembra que a revisão mais recente das diretrizes diagnósticas voltou a incluir os medicamentos para emagrecimento na lista de práticas compensatórias nocivas, a exemplo do que ocorria no passado com as anfetaminas. “Antes, essas mulheres chegavam a pesos cada vez menores com práticas alimentares nocivas. Agora, os remédios encurtam esse caminho”, ressalta.

A identificação dos sinais de alerta geralmente ocorre primeiro por familiares e amigos. A psiquiatra exemplifica comportamentos suspeitos: invenção constante de desculpas para não realizar refeições em conjunto, esquiva de eventos sociais vinculados à alimentação, prática compulsiva de exercícios físicos, idas imediatas ao banheiro após comer, presença de cartelas de medicamentos incomuns, embalagens vazias escondidas no lixo, estoques secretos de comida, somados a quadros de irritabilidade e isolamento social.

A busca por atendimento não deve aguardar a manifestação completa de todos os sintomas. Caso a relação com a comida ou com o próprio corpo gere sofrimento psicológico ou limitação na rotina, a intervenção profissional já se faz necessária. O protocolo terapêutico exige a combinação de reestruturação alimentar e psicoterapia — com abordagem familiar no caso de adolescentes —, devendo o acompanhamento nutricional ser conduzido exclusivamente por profissionais especializados em transtornos alimentares, e não por nutricionistas convencionais.

O acesso ao tratamento especializado, contudo, é um gargalo no país. Durante audiência no Senado em 2024, o psiquiatra Táki Cordás, do Hospital das Clínicas, revelou que o Brasil possui apenas 15 centros públicos estruturados para esse tipo de atendimento e somente uma enfermaria com internação dedicada em toda a América Latina — localizada no próprio hospital paulista, operando com fila de espera para apenas dez leitos disponíveis. O médico projetou que cerca de 5% dos brasileiros — aproximadamente 11 milhões de pessoas — apresentam condutas alimentares desordenadas, dado que considera subnotificado.

As projeções do estudo apontam para a marca de 21,8 milhões de pessoas convivendo com anorexia e bulimia no mundo até o ano de 2050. Os pesquisadores concluem que o avanço contínuo não decorre puramente do crescimento demográfico e cobram a inclusão urgente do combate aos transtornos alimentares nos planos nacionais de saúde pública. As propostas incluem triagens estruturadas no ambiente escolar e na atenção básica de saúde, capacitação contínua de equipes médicas e vigilância epidemiológica constante dos casos.

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