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Lula deve se preocupar mais com a “esquerda radical” do que com o centro responsável

31.10.2026 7 min read

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato graças a uma ampla mobilização democrática, que ultrapassou as fronteiras tradicionais da esquerda e reuniu brasileiros preocupados com o futuro do país. Agora, diante do desafio de governar até 2030, Lula precisa compreender que seu maior problema político talvez não esteja no centro responsável, que se oferece para contribuir com a estabilidade, mas em setores de uma esquerda radicalizada, que parecem dispostos a transformar qualquer iniciativa de equilíbrio fiscal em uma batalha ideológica.

O contraste é evidente. Enquanto lideranças de centro, como Gilberto Kassab, presidente do PSD, sinalizam disposição para aprofundar a relação com o governo, desde que haja responsabilidade econômica, uma parcela da esquerda prefere promover uma gritaria nas redes sociais contra qualquer medida que possa ser interpretada como ajuste. Para esses setores, basta mencionar equilíbrio das contas públicas para que surjam acusações de neoliberalismo, traição programática ou submissão ao mercado financeiro.

Essa postura não apenas empobrece o debate econômico. Ela pode comprometer as condições políticas necessárias para o sucesso do governo Lula 4.

Uma das teses mais equivocadas difundidas por essa esquerda é a de que os brasileiros teriam ido às ruas, durante a campanha eleitoral, para rejeitar o equilíbrio fiscal. Trata-se de uma interpretação sem fundamento, que procura transformar uma mobilização democrática ampla e plural em uma espécie de plebiscito sobre a política econômica.

Os brasileiros foram às ruas, sobretudo, porque tinham medo da volta do bolsonarismo. Medo de cortes em programas sociais, evidentemente, mas também do avanço do feminicídio, da violência contra a população LGBT, do fortalecimento das milícias, da normalização do autoritarismo e da submissão da soberania nacional a interesses estrangeiros. Havia o receio de que o Brasil voltasse a ser governado por uma família política que fez do confronto permanente com as instituições uma de suas principais marcas.

Reduzir essa mobilização histórica a uma suposta rejeição popular ao equilíbrio fiscal significa desrespeitar a complexidade das motivações que levaram milhões de brasileiros a defender a democracia e a reeleição de Lula.

O povo brasileiro não votou pela irresponsabilidade econômica. Votou pela preservação de direitos, pela estabilidade democrática e pela esperança de um futuro melhor. E esse futuro depende, necessariamente, de uma economia organizada, capaz de crescer, gerar empregos, reduzir os juros e financiar políticas públicas.

É nesse contexto que a discussão sobre o próximo ministro da Fazenda adquire importância decisiva.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, surgiu como um dos nomes mais promissores para comandar a política econômica. Jovem, preparado, com experiência administrativa e boa interlocução com o setor produtivo, Fonteles representa uma geração do PT que compreende que responsabilidade fiscal e justiça social não são objetivos incompatíveis.

Mas já surgem setores dispostos a carimbá-lo como “neoliberal”, simplesmente porque seu nome é bem recebido pelo mercado financeiro. É uma lógica absurda. A capacidade de dialogar com investidores e empresários deveria ser considerada um ativo para um ministro da Fazenda, e não uma desqualificação.

O mesmo vale para qualquer outro nome que Lula venha a escolher. O presidente foi eleito para governar, não para submeter cada decisão econômica à aprovação de grupos que confundem radicalismo retórico com compromisso social.

A melhor receita para o fracasso do Lula 4 seria justamente a formação de uma oposição interna, empenhada em deslegitimar antecipadamente o próximo ministro da Fazenda e sabotar qualquer tentativa de reorganização das contas públicas.

Há ainda um componente histórico preocupante. Alguns desses setores parecem conservar uma visão romantizada das chamadas jornadas de junho de 2013, manifestações que começaram com reivindicações legítimas, mas foram posteriormente apropriadas por forças conservadoras e ajudaram a criar o ambiente político que desembocou no golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, em 2016.

A experiência deveria ter ensinado que a desestabilização de governos progressistas nem sempre começa pela direita. Muitas vezes, ela encontra combustível em setores que se apresentam como mais autênticos, mais puros e mais comprometidos com as causas populares, mas que acabam contribuindo para enfraquecer as próprias forças políticas que dizem defender.

Não há razão para repetir esse erro histórico.

Durante a campanha eleitoral, Lula ampliou despesas e abriu mão de receitas para atender demandas sociais e enfrentar uma disputa extremamente difícil. Essas decisões fizeram parte de uma conjuntura excepcional, marcada pela necessidade de preservar conquistas e construir uma maioria eleitoral.

É natural, portanto, que, encerrada a eleição, o governo examine medidas pontuais para recuperar o equilíbrio das contas públicas. Isso não representa qualquer traição ao eleitorado. Representa o exercício responsável do poder.

Ajustar prioridades, rever despesas menos eficientes, recuperar receitas e construir uma trajetória sustentável para a dívida pública são tarefas normais de qualquer administração comprometida com o interesse nacional.

A alternativa não é uma espécie de paraíso social sem restrições orçamentárias. A alternativa pode ser uma crise econômica que termine por atingir justamente os trabalhadores e as famílias de menor renda.

Os sinais de alerta já estão presentes. Na semana posterior à reeleição de Lula, o Ibovespa acumulou uma queda de 18,12%, seu pior desempenho semanal desde março de 2020. O dólar disparou 9,15% e encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,4460, maior valor registrado em 2026.

É evidente que parte desse movimento decorre da desmontagem de apostas financeiras equivocadas sobre o resultado eleitoral. O mercado também erra, especula e frequentemente reage de maneira exagerada aos acontecimentos políticos.

Mas reconhecer os excessos do mercado não significa ignorar que as expectativas econômicas produzem consequências concretas.

Brigar infantilmente com investidores, alimentar incertezas sobre a dívida pública ou transformar o equilíbrio fiscal em uma questão ideológica pode pressionar ainda mais o dólar e os juros futuros. Isso encarece o crédito, dificulta os investimentos, aumenta o custo da dívida e compromete a capacidade do governo de financiar suas prioridades.

O resultado seria especialmente perverso para o Banco Central, que tem a missão urgente de criar condições para a redução da taxa Selic. Com o câmbio pressionado e as expectativas de inflação desancoradas, a autoridade monetária encontra menos espaço para baixar os juros.

Em outras palavras, uma esquerda que se apresenta como defensora dos trabalhadores pode, por irresponsabilidade política, acabar contribuindo para a manutenção de juros elevados, o enfraquecimento do crescimento e a redução das oportunidades de emprego.

Nada disso significa que Lula deva aceitar passivamente todas as exigências do mercado financeiro. O presidente precisa preservar sua autonomia, defender a capacidade de investimento do Estado e garantir que o ajuste das contas públicas não recaia desproporcionalmente sobre os mais pobres.

Mas existe uma diferença fundamental entre negociar com firmeza e transformar o conflito em método de governo. A primeira atitude produz resultados. A segunda pode produzir apenas turbulência.

Lula conhece essa diferença melhor do que ninguém.

Em seus primeiros mandatos, demonstrou que é possível combinar responsabilidade fiscal, crescimento econômico, valorização do salário mínimo, expansão das políticas sociais e redução das desigualdades. Foi essa capacidade de construir sínteses, e não de alimentar antagonismos artificiais, que fez dele o mais importante líder popular da história contemporânea brasileira.

O Lula que o Brasil precisa agora é justamente esse: um presidente responsável, capaz de dialogar com o centro político, construir maiorias parlamentares, transmitir confiança à sociedade e redirecionar as prioridades orçamentárias para garantir conquistas progressivas à classe trabalhadora.

A responsabilidade fiscal não é uma concessão à direita. É um instrumento para preservar a capacidade de ação de um governo progressista. Sem estabilidade econômica, os avanços sociais tornam-se mais difíceis, mais caros e mais vulneráveis às crises.

O presidente não precisa escolher entre o mercado e o povo. Precisa governar para o povo, compreendendo que a estabilidade macroeconômica é uma das condições para ampliar o bem-estar coletivo.

Também não precisa aceitar que setores minoritários da esquerda reivindiquem o monopólio da interpretação do resultado eleitoral. A vitória de Lula pertence a uma coalizão democrática muito mais ampla, que inclui trabalhadores, movimentos sociais, empresários, intelectuais, lideranças de centro e milhões de cidadãos sem identificação partidária.

O quarto mandato oferece ao presidente uma oportunidade histórica de consolidar conquistas, fortalecer as instituições e preparar uma nova geração de lideranças progressistas para o futuro.

Desperdiçar essa oportunidade em disputas ideológicas estéreis seria um erro imperdoável.

Lula deve ser o que sempre foi em seus melhores momentos: um estadista pragmático, comprometido com a justiça social, a soberania nacional e a responsabilidade econômica.

O Brasil não precisa de uma nova temporada de radicalização. Precisa de crescimento, estabilidade, juros menores e conquistas concretas para os trabalhadores.

E, para isso, o presidente fará bem em ouvir mais o centro responsável e menos os que confundem gritaria com transformação social.

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