Depois de tirar o Brasil do Mapa da Fome, governo Lula tem dieta saudável como próximo desafio
247 – O governo Lula (PT) alcançou o marco histórico de retirar o Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), cumprindo a promessa central do seu mandato, e agora avança para superar o desafio de garantir o acesso de toda a população a uma alimentação saudável. Segundo dados do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)”, da FAO, cerca de 44,8 milhões de brasileiros — aproximadamente um quinto da população — ainda enfrentam dificuldades para custear uma dieta equilibrada e completa, composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína, informa o G1.
A publicação da agência da ONU aponta uma evolução expressiva nos indicadores sociais do país. O número de pessoas em insegurança alimentar moderada ou grave despencou de 39,7 milhões, no período entre 2021 e 2023, para 20,3 milhões no triênio de 2023 a 2025. A conquista consolida a trajetória de recuperação social iniciada em 2023, revertendo o retrocesso observado em 2022, quando o país havia retornado ao Mapa da Fome com 61,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar e 8,6 milhões (4,1% da população) em situação de subnutrição. Em julho de 2025, o relatório ratificou que a subnutrição no Brasil recuou para menos de 2,5%, confirmando formalmente a saída do indicador global.
O avanço histórico foi impulsionado por políticas públicas de fortalecimento da renda e de incentivo à produção de alimentos. Entre as medidas decisivas estão o retorno da política de valorização do salário mínimo com reajustes acima da inflação e a restruturação de programas fundamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O PAA fortalece a agricultura familiar ao comprar a produção do campo e destiná-la a feiras, redes assistenciais, escolas e hospitais, gerando renda no meio rural e garantindo comida na mesa de quem mais precisa.
Especialistas ressaltam a necessidade de consolidar esses avanços e expandir o alcance das políticas sociais. “Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida”, destaca José Graziano, ex-diretor-geral da FAO e idealizador do programa Fome Zero. O analista também aponta a concentração da vulnerabilidade: “onde estão essas pessoas? Nos domicílios chefiados por mulheres. No recorte racial, nos chefiados por mulheres negras. No regional, no Norte e no Nordeste”.
A precarização do mercado de trabalho e a instabilidade de renda são fatores centrais apontados para a continuidade das ações estatais. “A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan. Zimmermann lembra ainda que, em maio de 2026, o Brasil propôs à Organização Mundial da Saúde (OMS) a criação de diretrizes globais para regular a venda e a publicidade de ultraprocessados, focando na proteção de crianças e adolescentes, com previsão de votação do tema em 2027.
Para assegurar que o atendimento chegue de forma contínua às famílias em extrema vulnerabilidade, o governo federal vem estruturando o Protocolo Brasil Sem Fome, conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS). A iniciativa integra as redes públicas de saúde, assistência social e segurança alimentar nos municípios com piores indicadores, utilizando a busca ativa em conjunto com o Cadastro Único para localizar e acompanhar as famílias.
“Uma pessoa em situação de rua, por exemplo, chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘fique aqui, você não precisa só de um curativo’”, pontua Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
No debate sobre o custo da nutrição, a ONU conceitua a alimentação saudável como uma cesta com 11 itens divididos em seis grupos essenciais (cereais e raízes; carnes, ovos e laticínios; leguminosas e sementes; óleos; frutas; e verduras), capazes de fornecer 2.330 calorias diárias. No Brasil, o custo médio diário dessa cesta atingiu 4,89 dólares internacionais por pessoa em 2025. Graziano calcula que o valor mensal por pessoa oscila entre R$ 240 e R$ 250: “para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”.
A variação de preços entre itens frescos e industrializados também impõe desafios logísticos e agrícolas. “A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final”, observa Graziano, acrescentando que os investimentos em pesquisa de hortaliças e grãos básicos como arroz e feijão precisam continuar crescendo. Zimmermann complementa que matérias-primas de grande escala barateiam os ultraprocessados: “se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes”.
Outra frente de trabalho envolve o encurtamento das cadeias de abastecimento para reduzir custos de frete e refrigeração, além de mitigar a presença de desertos alimentares — que afetavam 25 milhões de pessoas entre 2023 e 2024 — e pântanos alimentares, onde vivem 15 milhões de brasileiros. Elisabetta Recine defende o estímulo à produção local e o incentivo a feiras livres para baratear o produto final: “não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração”.



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