A banalidade do bem
Quando Hannah Arendt foi cobrir o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém em 1961, ela que já estudava o totalitarismo (e inclusive já tinha publicado seu livro “Origens do totalitarismo”), deparou-se não com um monstro, mas com um homem comum, burocrático, que participou do extermínio de judeus e que aparentemente não tinha nenhum tipo de arrependimento pela gravidade dos crimes cometidos por ele.
Afinal, ele alegava cumprir ordens, mas isso não era o problema em si, e sim a sua incapacidade de pensar criticamente sobre as ordens que recebia, sem qualquer julgamento moral. A isso ela deu o nome de banalidade do mal.
Tenho a audácia de dizer que no Brasil tivemos o contrário, a banalidade do bem, na qual pessoas comuns (insisto no termo), “armadas” de consciência crítica, decidiram cumprir “ordens” sem questionar. Elas optaram por participar de uma ação e cumprir ordens, pois tinham em comum o mesmo objetivo. Não se trata de uma obediência cega, e sim voluntária apoiada na convicção de que se nada fosse feito o pior estaria por vir.
Pessoas em casa, no trabalho, no ônibus, no metrô, em restaurantes, usaram seus celulares, compartilharam publicações, divulgaram mensagens, subiram hashtags e convidaram mais pessoas para participar. De repente, 1 milhão! Gente, urgente! 5 milhões! Explodam! 10 milhões! Em ações cotidianas, aparentemente banais, impulsionaram uma grande ação coletiva.
Apesar do nome Exército do Lula, o canal de WhatsApp, criado por uma iniciativa liderada por André Janones, não tinha qualquer relação com uma hierarquia militar organizada. Pessoas comuns receberam orientações e realizaram tarefas coletivamente e junto com outras iniciativas construíram o caminho nas redes sociais para a reeleição do presidente Lula.
Não busco contrariar o que Arendt constatou. Ouso dizer que a lição que fica depois do período conturbado das eleições de 2026 é que o mal pode ser praticado por todo tipo de pessoa comum que renuncia ao julgamento moral, mas o bem também pode ser praticado e reproduzido por estas mesmas pessoas comuns que exercem um julgamento moral e decidem trabalhar juntas para o bem do coletivo.



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