O essencial permanece porque o amor supera a política
Hoje, milhões de brasileiros irão às urnas levando consigo suas esperanças, seus medos e suas convicções. Cada voto será uma escolha individual, livre e soberana. Alguns votarão em Lula, outros em Flávio Bolsonaro. Na segunda-feira, independentemente do resultado, continuaremos pertencendo ao mesmo país, às mesmas famílias e à mesma humanidade.
Tenho pensado naquilo que acontecerá depois da apuração. Conheço famílias em que irmãos deixaram de conversar, amigos antigos se tornaram estranhos e pessoas que cresceram juntas passaram a se tratar com uma hostilidade que jamais demonstrariam diante de um desconhecido. Tudo porque enxergam o Brasil por perspectivas políticas diferentes.
Que tristeza desperdiçar uma vida inteira de afeto por causa de uma eleição!
Presidentes chegam, governam e partem. Alguns deixam realizações, outros, decepções. Nenhum deles estará ao nosso lado quando precisarmos enfrentar uma enfermidade, sepultar alguém querido ou encontrar forças para continuar vivendo. Nessas horas, procuraremos nossos irmãos, nossos filhos, nossos amigos. E seria doloroso descobrir que os afastamos por causa de um político.
A vida já nos cobra despedidas suficientes. Por que antecipar outras por orgulho?
Aquilo que nos une é infinitamente maior, mais antigo e mais poderoso do que tudo aquilo que nos divide. Nenhuma ideologia, nenhum partido, nenhum presidente pode ocupar um lugar superior ao amor, à bondade, à solidariedade e à fraternidade.
ompartilhamos uma história que começou muito antes dessas disputas e que desejamos transmitir às próximas gerações. Há abraços, cuidados, sacrifícios silenciosos e lembranças que nenhuma urna consegue medir. Permitir que uma preferência partidária destrua essa riqueza seria uma derrota humana muito mais grave do que qualquer derrota eleitoral.
Penso especialmente em nossos pais. Construíram suas famílias com aquilo que tinham, enfrentando dificuldades que muitas vezes desconhecemos. Erraram, certamente, mas fizeram o melhor que puderam. Se permitirmos que a intolerância destrua nossa união, essa responsabilidade será inteiramente nossa. Seremos nós os autores de uma tristeza que eles jamais desejaram.
A partir da noite de domingo, proponho um compromisso simples: nada de provocações pelo WhatsApp, telefonemas humilhantes ou ironias destinadas a ferir quem votou diferente. Quem vencer terá motivos para comemorar. Quem perder precisará de serenidade. Ambos merecem respeito.
A maturidade começa quando compreendemos que amar alguém inclui aceitar que essa pessoa pense de maneira profundamente diferente de nós. A fraternidade exige paciência, escuta e, muitas vezes, a sabedoria de guardar uma palavra que apenas produziria sofrimento.
Não peço que ninguém renuncie às próprias convicções. Peço que ninguém renuncie às pessoas que ama.
Teremos outros presidentes, outros governos e novas eleições. O tempo, entretanto, seguirá levando nossos pais, envelhecendo nossos irmãos e encurtando os encontros que ainda podemos celebrar.
O Brasil acordará na segunda-feira com um presidente eleito. Que nenhuma família acorde com um irmão perdido, uma amizade destruída ou uma cadeira vazia à mesa.



O mundo olha para a eleição do Brasil (e já definiu seu voto)
Meu último voto no Lula
Dez milhões