Só ele é chamado de miliciano
Todos os presidentes da América do Sul, com exceção do brasileiro e do uruguaio e mais a interina venezuelana, são de direita. A maioria é de extrema direita. Mas nenhum chegou ao poder por vínculos provados com grupos de extermínio e milicianos.
Pois um sujeito que Lula diz ser miliciano quer governar o Brasil. A definição, já usada no debate na Bandeirantes, foi uma resposta, no confronto na Globo, a um ‘erro’ cometido por Flávio. Como não há mais o que procurar como defeito em Lula, o candidato lembrou que ele não tem um dedo. Chamou o presidente de ‘nove dedos’.
É o que fazem desde a ditadura e o que diziam os justiceiros de Curitiba em troca de mensagens na Lava-Jato. Lula devolveu com o defeito do adversário, que não é pequeno: “Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”.
É algo único para um extremista sul-americano. Todos os presidentes de direita da região são farsantes como liberais. Mas vejamos seus históricos. O argentino Javier Milei é economista, trabalhou para bancos e envolveu-se num golpe com criptomoeda.
O equatoriano Daniel Noboa é herdeiro de um império empresarial. O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Pereira, é de uma família com tradição na política. José Antonio Kast, do Chile, é advogado e empresário com militância política construída no movimento estudantil.
Abelardo de la Espriella, presidente da Colômbia, é um empresário rico e advogado com trajetória controversa e se elegeu como uma mistura de Bolsonaro e de Nayib Bukele, de El Salvador. É mais um antissistema.
O Paraguai é presidido pelo economista Santiago Peña, que tem formação em boas escolas americanas e foi funcionário do FMI. O Peru está sob o comando de Keiko Fujimori, formada em administração na Universidade de Columbia. Keiko lutou durante mais de duas décadas, com ativismo político desde a adolescência, para ser a herdeira do pai.
Uma síntese possível, que englobe a maioria deles, pode resumi-los como ajudantes da onda trumpista. Desde que não se cometa o erro de não vê-los como parte de elites da direita – ou econômica, ou política, ou por formação como ultraconservadores, até com bons lastros acadêmicos.
Alguns são assumidamente fascistas. Outros, como Milei, também são vigaristas. A maioria, se pudesse, tentaria fazer o que Jair Bolsonaro tentou no Brasil. Mas nenhum deles ouviria um adversário dizer: você é um miliciano. Não com vínculos com milicianos, mas um miliciano.
Flávio Bolsonaro quer chegar onde eles chegaram, mesmo sendo o que Lula disse que ele é. Flávio é o currículo fora da curva no grupo de amigos extremistas da região. Todos estão no topo do poder pela construção de trajetórias como expressões das forças da direita em seus países, mesmo que alguns não tivessem tradição como políticos profissionais.
São de uma elite, como eram os líderes da direita brasileira na ditadura. Donald Trump, o inspirador e chefe de todos eles, é um bilionário que virou celebridade e político para comandar o neofascismo mundial.
Pois o candidato da extrema direita brasileira, cuja família tem vínculos com as estruturas da criminalidade carioca e agora com um banqueiro mafioso, enfrenta um líder cujos maiores defeitos seriam a falta de um dedo e o fato de que chega aos 81 anos ouvindo mal.
Relembremos a fala final de Lula: “Eu queria agradecer e pedir o voto de vocês no domingo, porque ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando este país, dentro do Palácio do Planalto, o que não é bom pra ninguém”.
Nenhum adversário diria isso de Kast, Noboa, Milei, Keiko, Rodrigo Paz, Espriella ou Peña. Nenhum teria seu nome associado a esquadrões da morte e a máfias urbanas, com as peculiaridades de seus países, que dominam territórios disseminando violência e medo. As definições seriam outras, todas depreciativas, mas nenhum deles seria denunciado publicamente como miliciano.


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