Por que Flávio Bolsonaro não respondeu sobre Milei no debate da Band
Na semana passada, num jantar de gala em Washington, o irmão do candidato Flávio Bolsonaro, Eduardo, abraçou, efusivamente, o presidente argentino Javier Milei. “Vamos tirar a pontapés o comunista ditador do Brasil”, disse Milei, ao lado de Eduardo. Foi claramente um recado – mais um insulto – ao presidente Lula. Milei, como recordam nos bastidores do Itamaraty, é o único chefe de Estado com quem Lula não conversa, já que mantém diálogo, por exemplo, com Kast, do Chile, e Keiko Fujimori, do Peru, que são também da extrema-direita. A relação entre o Brasil e a Argentina foi ‘rebaixada’, como se diz na diplomacia, depois que Milei participou da convenção do PL em São Paulo que definiu a candidatura de Flávio Bolsonaro. As agressões de Milei contra o presidente do Brasil levaram, então, à decisão de retirada do embaixador Júlio Bitelli da embaixada em Buenos Aires. Dificilmente ele voltará. Desde então, Milei não parou de usar sua metralhadora verbal contra Lula. E comemorou o resultado da eleição no primeiro turno, que deu vantagem de 1,8% da votação para Flávio Bolsonaro, a quem chama de “amigo”, na comparação com Lula.
“Motosserra de Milei” – No debate, domingo, na Band, o presidenciável Flávio Bolsonaro não respondeu quando Lula o perguntou sobre Milei e seus planos de copiar a motosserra do argentino, caso seja eleito. “Vai pegar emprestada a motosserra do Milei?, questionou o presidente. “Você já viu quanto está a pobreza na Argentina?” No mês passado, a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou que usaria “um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei”.
Pobreza na Argentina e filas por emprego – Segundo dados oficiais, o índice de pobreza na Argentina subiu de 28% para 32,2% no primeiro semestre deste ano diante do último semestre de 2025. O índice de desemprego (7,1%) é o mais alto desde 2021 e são frequentes as imagens de filas quilométricas no interior do país de pessoas desempregadas que disputam uma oportunidade de trabalho. A economia argentina não decola. A economia caiu 0,6% no segundo trimestre na comparação com o trimestre anterior, neste ano, segundo dados oficiais. O FMI reduziu, na semana passada, a previsão de crescimento econômico do país. Antes previa expansão de 3,5% e agora de 2,1% neste ano. A situação econômica e social não mudaram o víeis da política interna e externa de Milei. Ele continua dizendo que vencerá a eleição presidencial que será realizada daqui a um ano, em outubro de 2027. A fragmentação da oposição não ajuda a canalizar a insatisfação popular a Milei que hoje tem cerca de 30% a 35%, dependendo da pesquisa de opinião.
Milei e Flávio – Com esta dura realidade, Milei parece não ser um bom exemplo a ser citado por Flávio Bolsonaro nesta reta final da campanha. Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas feitas pelo presidente Lula, durante o debate na Band quando faltam poucos dias para a definição, nas urnas, sobre o rumo do Brasil. Algumas das perguntas sem respostas: o voto de Bolsonaro contra a ampliação da licença-maternidade no Rio de Janeiro; sua postura negativa em relação ao rastreamento de munições; o assassinato de Marielle Franco; o destino dos R$ 134 milhões do ex-banqueiro e presidiário Daniel Vorcaro; a atuação de Flávio Bolsonaro como advogado de um policial acusado da morte de Ana Clara, de cinco anos de idade, em Niterói, no Rio de Janeiro, e a intenção de copiar o plano econômico do argentino Milei, caso seja eleito. Bolsonaro desconversou em cada uma das perguntas de Lula. Agora, a expectativa é para o debate na Globo, o último antes da eleição. Enquanto isso, Milei continua realizando postagens contra Lula em suas redes sociais. Nesta segunda-feira, um dia depois do debate, postou uma charge ao lado de Flávio Bolsonaro e Lula que a ele se dirige dizendo com dedo em riste: “Amigo do Milei”. Na imagem, Lula está junto de Claudia Scheibaum, do México, Gustavo Petro, da Colômbia, Cristina Kirchner, da Argentina, Ortega, da Nicarágua, e Diaz Canel, de Cuba. Mas Milei nada retrucou sobre a observação de Lula sobre o aumento da pobreza na Argentina. Seja como for, a pergunta de Lula, no debate da Band, foi um dos principais assuntos na imprensa argentina na noite de domingo e nesta segunda-feira.


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