Aos 98 anos, um dos chorões mais antigos do Brasil será homenageado no Clube do Choro de Brasília
Aos 98 anos, Altamiro Francisco de Jesus continua fazendo aquilo que aprendeu ainda jovem e que se transformou em uma das grandes paixões de sua vida: tocar música. Possivelmente um dos chorões mais antigos em atividade no Brasil, seu Altamiro, como é carinhosamente conhecido, será homenageado nesta quarta-feira (14/10) pela Choro Popular Orquestra, no Clube do Choro de Brasília, em uma apresentação que celebra não apenas sua longevidade, mas também a riqueza da música popular brasileira.
Natural de Santa Maria da Vitória, no interior da Bahia, seu Altamiro é mais do que um músico. É uma testemunha viva da história de sua cidade, onde atravessou quase um século enfrentando dificuldades, preconceitos e barreiras sociais, sem jamais abandonar a música.
Filho de dona Maria do Beco, chamada carinhosamente de Iaiá pelos netos, nasceu em uma família humilde e cresceu ouvindo os conselhos da mãe. Um deles se transformou em orientação para toda a vida:
“Evite vícios e utilize o dom que Deus lhe deu para se aproximar, se inserir e ser respeitado pelas pessoas importantes da sociedade.”
Seu Altamiro seguiu o conselho. Negro e de origem popular, conquistou respeito e reconhecimento em uma sociedade marcada pelas desigualdades de raça e classe.
Para sustentar a família, trabalhou como pedreiro e mestre de obras. Participou da construção de edifícios importantes de Santa Maria da Vitória, entre eles o mercado municipal e a igreja matriz, obras que integram a memória arquitetônica e afetiva da cidade.
Também dedicou mais de quatro décadas ao serviço público, trabalhando como carcereiro na Polícia Civil da Bahia. Recentemente, recebeu uma homenagem da instituição pelo comportamento profissional, marcado pelo respeito às normas e aos direitos das pessoas privadas de liberdade e de seus familiares.
Mas foi na música que encontrou uma forma especial de expressão e de integração social.
Multi-instrumentista e autodidata, seu Altamiro desenvolveu uma relação profunda com o choro, gênero musical que nasceu no Brasil no século XIX e se transformou em uma das expressões mais sofisticadas e populares da cultura nacional.
Mesmo próximo dos 100 anos, continua tocando com habilidade surpreendente.
O maestro Fabiano Medeiros, regente da Choro Popular Orquestra, impressionou-se ao assistir a um vídeo em que seu Altamiro interpretava ao violão uma composição de sua autoria, o choro Natal.
Segundo Medeiros, o músico demonstra uma capacidade extraordinária de execução, memória e coordenação motora para sua idade.
A descoberta inspirou uma homenagem especial.
Com arranjo de Julião Barbosa, Natal ganhará uma versão para orquestra de choro, permitindo que a composição de seu Altamiro alcance novos músicos e públicos.
A iniciativa, explica Fabiano Medeiros, faz parte de um compromisso com a preservação da memória musical brasileira.
“Em homenagem a seu Altamiro e cumprindo nosso compromisso com a pesquisa, difusão e memória dos nossos mestres da música brasileira”, afirma o maestro, que também dirige a Orquestra Popular Marafreboi.
A homenagem tem um significado que ultrapassa a celebração individual.
Em um país que tantas vezes esquece seus artistas populares, especialmente aqueles que vivem longe dos grandes centros culturais, reconhecer a obra de um músico de 98 anos é também um gesto de valorização da memória coletiva.
Seu Altamiro representa uma geração de brasileiros que ajudou a construir o país com as próprias mãos e encontrou na arte uma maneira de vencer barreiras sociais.
Brasil 247 convida músicos a participar da homenagem
Para ampliar o alcance da iniciativa, o Brasil 247 se associa à celebração e disponibiliza a partitura de Natal, convidando instrumentistas de todo o país a interpretar a composição.
A proposta é criar uma mobilização nas redes sociais com o tema “Seu Altamiro: um chorão a caminho do centenário”.
Músicos profissionais, estudantes e admiradores do choro poderão gravar vídeos executando a composição, compartilhá-los nas redes sociais.
A ideia é fazer com que a música de seu Altamiro circule pelo Brasil, aproximando gerações e levando o nome desse artista baiano a públicos que ainda não conhecem sua história.
É também uma oportunidade de mostrar um Brasil que resiste pela cultura, pela criatividade e pela capacidade de transformar dificuldades em beleza.
Afinal, seu Altamiro não é apenas um músico a caminho dos 100 anos. É parte viva da história brasileira, um homem que ajudou a erguer os prédios de sua cidade e, com as notas de seu violão, continua construindo pontes entre pessoas e gerações.
x.x.x.x.
Segue a partitura do choro Naral, obra memorável do seu Altamiro.
Serviço
Espetáculo: Homenagem a Altamiro Francisco de Jesus, com a Choro Popular Orquestra
Local: Clube do Choro de Brasília
Data: 14 de outubro de 2026
Horário: 19h30
A entrada é franca, mas é aconselhável que se reserve o ingresso na Bilheteria Digial.
Neste vídeo, um pouco da obra do seu Altamiro, como participante da Philarmônica 6 de Outubro, de Santa Maria da Vitória, orquestra que tem quase 120 anos, dos quais cerca de 50 com sua participação:


A destruição de crianças e adolescentes
Fim da escala 6×1: veja 5 mudanças no trabalho e saiba como se preparar
Caso Vorcaro: Huck e Kachar, os personagens da Globo que ficaram fora do PowerPoint
O deslumbramento do colunista da Globo com escritório do Vorcaro: “estonteante”