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Feminismo não, feminicídio, pode ser!

14.10.2026 6 min read

A extrema direita quer suspender o pacto social e civilizatório sempre que ele ameaça seus privilégios. A igualdade incomoda, os direitos viram excessos, a diferença se transforma em inimiga e a justiça passa a ser tolerada apenas quando serve aos próprios interesses. O que está em disputa não é um detalhe ideológico. É o direito de reconhecer o outro como alguém que não precisa se submeter à nossa vontade para merecer respeito. E, quando o assunto são as mulheres, essa disputa ganha contornos particularmente perversos.

A deputada estadual eleita Eduarda Campopiano, do PL de São Paulo, declarou: “Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”. A frase foi publicada em reportagem da Folha de S.Paulo, em 4 de outubro de 2026. Ao questionar a tipificação do crime, a parlamentar argumentou que, se os homens matassem mulheres simplesmente por serem mulheres, suas mães e irmãs também seriam vítimas. A conclusão não se sustenta. O feminicídio não pressupõe que um homem queira matar indiscriminadamente todas as mulheres, inclusive as de sua família. A legislação brasileira reconhece essa forma de crime quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Não é uma invenção retórica das feministas. É uma categoria jurídica destinada a reconhecer uma realidade que não desaparece porque alguém se recusa a nomeá-la.

Eis o absurdo: uma mulher que ocupa um lugar na política — espaço cuja abertura também é resultado das lutas feministas — escolhe combater o movimento que contribuiu para ampliar os direitos e a autonomia das mulheres. Evidentemente, ser mulher não obriga ninguém a ser feminista. Mas a liberdade de rejeitar o feminismo não transforma essa rejeição em argumento, muito menos apaga a história das conquistas que permitiram às mulheres ocupar espaços antes reservados aos homens. A contradição merece ser exposta: chegar ao poder não significa compreender as lutas que tornaram esse acesso possível.

O feminismo não reivindica privilégios para as mulheres. Reivindica que elas não sejam tratadas como propriedade, que possam decidir sobre a própria vida, o próprio corpo e o próprio destino. Reivindica o direito de dizer não sem que a recusa seja recebida como uma afronta, uma provocação ou uma autorização para a violência. É difícil compreender por que essa exigência provoca tanta hostilidade, a menos que se reconheça o que ela ameaça: uma cultura em que o poder masculino ainda pretende se confundir com um direito natural de mando.

E não adianta recorrer à velha desculpa da paixão. Ciúme não é amor, posse não é afeto e violência não é prova de intensidade emocional. Chamar de crime passional um assassinato cometido no contexto de uma relação íntima pode até descrever a justificativa sentimental apresentada pelo agressor, mas não pode servir para apagar as relações de poder que precisam ser investigadas. O amor não mata. Homens matam mulheres, e cabe à Justiça apurar cada crime, responsabilizar os autores e reconhecer, quando presentes os requisitos legais, a violência de gênero que o caracteriza.

O feminicídio não começou quando recebeu um nome jurídico. As mulheres já eram assassinadas muito antes de a lei reconhecer a especificidade dessa violência. Dar nome a um fenômeno não é fabricá-lo: é torná-lo identificável, investigável e passível de enfrentamento. A lei não condena alguém por pertencer ao sexo masculino; ela estabelece critérios para identificar uma modalidade específica de assassinato. Confundir essas coisas pode ser conveniente para a disputa ideológica, mas não esclarece o problema. Apenas desvia a discussão do que realmente importa.

A extrema direita não inventou o machismo, nem todo conservador é responsável pela violência contra as mulheres. Mas é preciso examinar o que acontece quando discursos políticos desqualificam o feminismo, ridicularizam as reivindicações de igualdade e tratam a emancipação feminina como ameaça à família ou à ordem social. Não é necessário que alguém ordene uma agressão para que suas palavras tenham consequências. Quando o direito de uma mulher à autonomia é apresentado como exagero, e a violência que se ergue contra essa autonomia é relativizada, cria-se um ambiente no qual a desigualdade pode ser defendida como tradição e a submissão, vendida como virtude.

Não pretendo fazer da esquerda um território de pureza moral. A esquerda também erra, também abriga contradições, interesses e incivilidades. Nenhuma filiação política torna alguém moralmente superior, e seria intelectualmente desonesto ignorar os malfeitos cometidos em nome de projetos que se apresentam como emancipadores. Mas reconhecer as contradições de um campo político não exige apagar as diferenças entre projetos. A tradição humanista de esquerda, em suas diversas correntes, sustenta a defesa da inclusão, da igualdade e do respeito à diferença. É nesse ponto que a alteridade se torna decisiva: o outro não precisa pensar como eu, viver como eu ou concordar comigo para ter reconhecida sua dignidade.

A extrema direita, por sua vez, frequentemente transforma o diferente em ameaça e os direitos alheios em privilégios indevidos. Quando mulheres reivindicam autonomia, pessoas negras denunciam o racismo ou pessoas LGBTQIA+ exigem reconhecimento, a resposta de setores desse campo é, muitas vezes, acusá-las de dividir a sociedade. Como se a desigualdade não a dividisse antes. Como se denunciar uma injustiça fosse mais grave do que praticá-la. Como se o silêncio dos que sofrem fosse condição para a paz dos que se beneficiam da ordem existente.

Desde Aristóteles, a reflexão sobre a justiça nos obriga a perguntar o que é devido a cada um e como se organiza a vida comum. Não precisamos transformar a esquerda em herdeira exclusiva dessa tradição para reconhecer que uma sociedade justa não pode depender da submissão de uma parte de seus integrantes. O pacto civilizatório existe justamente para impedir que a força, a posição social ou a vontade de quem domina se imponham como medida do direito. Quando a dignidade de alguém depende da concessão de outro, não há igualdade: há poder disfarçado de benevolência.

É por isso que o feminismo não é uma disputa menor, nem uma guerra de mulheres contra homens. É uma luta pela liberdade, pela igualdade perante a lei e pelo direito de viver sem violência. O feminismo não exige que os homens desapareçam. Exige que deixem de ser tratados como senhores do destino das mulheres. E isso deveria ser tão elementar que causa espanto precisar defendê-lo em pleno século XXI.

FEMINISMO NÃO, FEMINICÍDIO, PODE SER?

A pergunta é cínica porque expõe uma inversão moral: a reivindicação de direitos provoca indignação, enquanto a violência contra as mulheres ainda encontra quem a relativize, a justifique ou negue até mesmo a categoria que permite reconhecê-la. O feminismo tem nome, história e reivindicações concretas. O feminicídio também tem nome, definição legal e vítimas reais. Negar o segundo não anula o primeiro; apenas revela o quanto ainda há quem prefira combater a denúncia a enfrentar a violência.

Não é o feminismo que ameaça a civilização. É a ideia de que algumas vidas podem valer menos, de que a autonomia de certas pessoas pode ser tolerada apenas enquanto não incomoda e de que a violência se torna menos grave quando praticada contra quem ousou contrariar uma ordem. Se é a igualdade que provoca tanto desconforto, talvez seja hora de perguntar a quem interessa uma sociedade em que as mulheres precisam continuar lutando pelo direito elementar de viver.

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