Meninos, eu vi
Meninos, eu vi. Eu vi o dia virar noite. Vi as notícias e fotos com políticos pré-1964 sumirem das revistas que eu folheava ajoelhada na cadeira da sala e com os cotovelos espetados em suas páginas, porque era tão pequena que não as podia sustentar. Vi no lugar daqueles rostos, surgirem fotos de homens fardados, carrancudos, que não davam mais festas com senhoras de vestidos fluidos e mãos enluvadas.
Vi surgir na TV, antes de cada programa, um documento com tarja verde e amarela, na diagonal, dizendo que aquela exibição teve a aprovação de uma tal de D. Censura.
Vi saírem de cartaz, no cinema, os filmes de Glauber Rocha, para darem lugar a comédias insossas e faroestes macarrônicos, tendo um tal de “Ringo” como astro. Depois, já maiorzinha, notei que os cartazes traziam mulheres seminuas, em profusão. Tudo era proibido, menos desviar a atenção do distinto público para as coisas desimportantes.
Enquanto crescia, as mudanças iam acontecendo. A valorização excessiva ao futebol, os desfiles cívicos como atração, as notícias sobre as proibições no teatro, os livros retirados de circulação.
Vi morrer os festivais da canção. Vi as músicas ficarem cada vez mais tristes.
Vi proibirem o samba animado com o qual a minha tia estava me ensinando a dançar. Era um verão especial. Estava de férias pela primeira vez sem a família, curtindo a praia e experimentando os primeiros passos do samba ao som de “Apesar de você”, que dali a uma semana foi recolhido e silenciado.
Paguei pra ver o dia surgir apesar deles. Vi o sol clarear, e a censura sumir. E, lhes digo, nada melhor do que ouvir Rita Lee poder cantar suas letras despudoradas. Nada mais feliz do que colocar um voto na urna, como há muito não se praticava.
Meninos, eu vi a cara da censura e o descortinar de um novo Brasil. Por favor, não queiram conhecê-la. D. Censura não é amigável. Vocês não iriam gostar dela depois de terem o direito de ir e vir. Vocês iriam odiar seus ditames, suas rabugices, seus “pode e não pode”. Não saiam das ruas. Lutem. Virem esse jogo. Amanhã há de ser outro dia.



Combater as bets é possível
Ainda estamos aqui. E não vamos esquecer
Feminismo não, feminicídio, pode ser!
Hoje o Senado vai ter que decidir de que lado está