Ministros descartam armistício no STF e crise deve atravessar eleições
247 – A crise interna no Supremo Tribunal Federal (STF) deve permanecer aberta ao menos até o encerramento das eleições de 2026, segundo a avaliação de quatro ministros da Corte ouvidos pelo jornal O Globo. Nos bastidores, magistrados consideram que a sucessão de acusações, manifestações públicas e novas revelações envolvendo integrantes do tribunal reduziu o espaço para uma trégua no curto prazo.
De acordo com a coluna de Bela Megale, no O Globo, ministros avaliam que os grupos identificados com Alexandre de Moraes e André Mendonça não demonstram disposição para encerrar o confronto. A proximidade das eleições também é apontada como um elemento capaz de prolongar a tensão, diante da incorporação da crise do Supremo ao discurso de candidatos.
O ambiente se deteriorou ainda mais após a divulgação de informações que relacionam outros integrantes da Corte, familiares de ministros e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master. Para magistrados ouvidos pelo jornal, o surgimento desses novos episódios ampliou o alcance da crise, antes concentrada principalmente no embate entre Moraes e Mendonça.
Novas revelações aumentam tensão no STF
Entre os episódios recentes está a divulgação de mensagens entre Vorcaro e Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux. Segundo o relato publicado pelo O Globo, o ex-banqueiro teria procurado Rodrigo para pedir auxílio em uma tentativa de destravar uma ação relacionada a pagamentos bilionários no setor sucroalcooleiro.
O filho de Fux não teria atendido ao pedido. A troca de mensagens, porém, passou a integrar o conjunto de revelações que alimenta o desgaste institucional em torno do Supremo.
Também vieram a público informações envolvendo um filho do ministro Kassio Nunes Marques e pagamentos ligados ao Banco Master. Separadamente, reportagem do Metrópoles, citada pelo O Globo, afirmou que dados da Polícia Federal apontariam Nunes Marques como beneficiário do uso de uma mansão alugada por Vorcaro durante o Carnaval de 2025.
As informações aparecem em meio a uma crise mais ampla provocada pela circulação de dados extraídos de investigações envolvendo Vorcaro e pelo confronto sobre a forma como esse material passou a ser utilizado dentro do próprio Supremo.
Gilmar Mendes também apareceu em relatos sobre Vorcaro
Outra informação que ampliou a repercussão do caso foi publicada pela Folha de S.Paulo. Segundo o jornal, Gilmar Mendes se encontrou com Daniel Vorcaro em 2024, quando o então banqueiro buscava apoio em uma discussão judicial envolvendo créditos do setor sucroalcooleiro.
A sucessão de episódios fez com que a crise deixasse de envolver apenas as acusações trocadas entre Moraes e Mendonça. Na avaliação relatada por ministros ao O Globo, a inclusão de outros integrantes da Corte no noticiário torna mais difícil uma solução rápida para o conflito.
O Supremo já vinha enfrentando desgaste institucional relacionado ao caso Master. No início de 2026, Edson Fachin afirmou que momentos de adversidade exigiam responsabilidade institucional e defendeu mecanismos de autocorreção da Corte. À época, ministros também relatavam divergências sobre medidas destinadas a ampliar regras de conduta e transparência no tribunal.
Eleições dificultam redução da temperatura
O calendário eleitoral é apontado como outro fator de pressão. A crise no Supremo passou a integrar diretamente o discurso de candidatos, sobretudo entre nomes ligados ao bolsonarismo.
Propostas de impeachment de ministros do STF, com destaque para Alexandre de Moraes, voltaram a aparecer entre candidaturas ao Senado. Flávio Bolsonaro também passou a explorar politicamente as mensagens atribuídas a Vorcaro e a associar Moraes ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para ministros ouvidos pelo O Globo, esse uso eleitoral das disputas internas do tribunal diminui a possibilidade de que as diferentes alas da Corte cheguem a um armistício antes da conclusão do pleito.
Fachin cancela sessões em meio ao confronto
O presidente do STF, Edson Fachin, adotou nesta semana medidas para evitar uma nova escalada pública da disputa.
Na quinta-feira (17), dois dias depois de uma sessão marcada por acusações e ofensas entre integrantes da Corte, Fachin cancelou uma nova reunião do plenário. Segundo o relato publicado pelo O Globo, havia receio de que o encontro produzisse outro confronto envolvendo Gilmar Mendes, André Mendonça e Luiz Fux.
Fachin também cancelou a sessão extraordinária que estava prevista para quarta-feira (23). A reunião trataria de acusações contra Mendonça apresentadas por Moraes a partir de relatórios da Polícia Federal.
A disputa em torno de Mendonça já havia provocado outros desdobramentos institucionais. Informações divulgadas nos últimos dias indicam que questionamentos sobre a atuação do ministro na condução de investigações relacionadas ao Master e ao INSS chegaram formalmente à Presidência do Supremo e a outros integrantes da Corte.
Com os conflitos ainda em aberto, novas informações sobre as relações mantidas por Vorcaro e a crescente utilização eleitoral do episódio, ministros do STF ouvidos reservadamente não enxergam, neste momento, condições para que a crise perca intensidade antes do fim das eleições.



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