Minha mãe ainda vai comigo às urnas
Por Iara Vidal – Hoje, 2 de outubro, faz 25 anos que minha mãe partiu. Ela tinha apenas 56 anos. Há uma conta estranha que o tempo nos obriga a fazer quando perdemos alguém cedo demais: eu já vivi mais tempo sem minha mãe do que com ela. É uma constatação quase matemática, mas que não diz absolutamente nada sobre a presença que ela continua tendo na minha vida.
Porque minha mãe nunca deixou de estar comigo. Ela está nas coisas que faço, nas escolhas que tomo, nas frases que repito sem perceber que eram dela. Está na maneira como penso o mundo, no que aceito e, talvez principalmente, no que me recuso a aceitar. E ela está sempre comigo quando vou às urnas.
Minha mãe era simplesmente apaixonada por Lula. Apaixonada mesmo. E acho que posso dizer que herdei isso dela. Ela morreu em 2001. Não chegou a ver Lula eleito presidente da República no ano seguinte. Não viu aquele metalúrgico, aquele trabalhador que conheceu a pobreza, a fábrica e o movimento sindical chegar à Presidência do Brasil. Às vezes penso nela assistindo à posse de 2003. Penso no que teria dito, se teria chorado. Provavelmente teria. Eu certamente teria chorado com ela.
E neste domingo, 4 de outubro, quando o Brasil volta às urnas, vou entrar mais uma vez numa cabine de votação pensando nela. Vou votar em Lula pensando na minha mãe, nos meus filhos e também nos filhos que meus filhos poderão ter um dia, se assim desejarem. É assim que eu vivo a política: não como uma abstração, mas como uma ponte entre gerações.
Para mim, votar nunca foi simplesmente apertar números numa urna. É dizer que país quero deixar para quem vem depois de mim. É olhar para trás, reconhecer quem me trouxe até aqui e, ao mesmo tempo, tentar enxergar quem ainda nem nasceu.
Talvez por isso eu tenha pensado tanto na minha mãe enquanto ouvia Lula falar no Flow Podcast. Eu me reconheço muito quando Lula fala de Dona Lindu, da importância da mãe e da memória de uma mulher que permanece dentro de um filho muito depois de sua ausência física.
Minha Lindu se chamava Joana. Mas também era Juju, Anita, “Dindinha Anita”. Minha mãe tinha muitos nomes porque ocupava muitos lugares. Era minha mãe, evidentemente, mas também era aquela voz que ficou dentro de mim e que, ainda hoje, às vezes aparece com uma nitidez impressionante.
Uma das frases dela, por exemplo, me deixava furiosa. Quando eu queria fazer alguma coisa e percebia que os argumentos estavam acabando, recorria àquele recurso universal da infância e da adolescência: “Mas todo mundo faz.” A resposta vinha seca: “Você não é todo mundo. Não e pronto.”
Eu odiava. Achava autoritário, injusto, um absurdo que o fato de “todo mundo” fazer alguma coisa não constituísse argumento suficiente para que eu também pudesse fazer. Demorei anos para entender que ela estava me dando uma das lições mais importantes da minha vida.
“Você não é todo mundo.” Hoje, essa frase significa muito mais do que significava naquela sala, naquela casa, diante daquela mãe que simplesmente encerrava a discussão. Significa que não preciso desejar alguma coisa apenas porque todos desejam. Não preciso ter porque todos têm. Não preciso concordar porque todos concordam. Não preciso me calar porque todos se calam. E, sobretudo, não preciso negociar meus valores para caber em lugar algum.
Talvez seja essa uma das heranças mais profundas que minha mãe me deixou: a ideia de que princípios só são realmente princípios quando têm algum custo. É muito fácil sustentar aquilo em que acreditamos quando nada está em jogo. Difícil é permanecer quando discordar nos deixa sozinhos, quando escolher um caminho significa abrir mão de outro, quando dizer “não” seria muito mais simples se disséssemos “sim”.
Minha mãe me ensinou, muito antes de eu ter palavras sofisticadas para explicar isso, que existe uma espécie de dignidade em saber onde estão os nossos limites. E talvez seja também por isso que política, para mim, nunca tenha sido apenas política. Ela fala de valores, de memória, de pertencimento, de quem acreditamos que merece ser visto, de quem acreditamos que merece comer, estudar, sonhar. Fala, em última instância, de que vidas consideramos dignas de proteção.
É nesse sentido profundamente pessoal que faço minhas escolhas. Para mim, neste momento da história brasileira, há uma fronteira muito nítida entre o país que desejo e aquilo que considero sua negação. E minha mãe está inevitavelmente desse lado da fronteira comigo.
Hoje escrevo isso da China. Estou do outro lado do mundo, a cerca de 17 mil quilômetros daquele universo onde aprendi a ser filha, mãe, mulher, jornalista, cidadã. Há algo quase absurdo nessa distância. Estou em um país que minha mãe jamais conheceu, vivendo uma vida que ela provavelmente jamais imaginou para mim.
Às vezes penso no que ela diria se pudesse me ver andando pelas ruas de Beijing. Provavelmente mandaria colocar um casaco. Mãe tem dessas coisas. Não importa se a filha atravessou o planeta, continua existindo em algum lugar do universo uma mãe convencida de que o problema fundamental é você não estar suficientemente agasalhada.
Aqui, na China, todos os dias eu rezo para Nossa Senhora Aparecida e converso com minha mãe. Não em voz alta. Converso naquele lugar difícil de explicar onde memória, amor e saudade deixam de ser coisas diferentes. Conto coisas, faço perguntas, reclamo e, às vezes, imagino respostas.
Não sei o que existe depois da morte. Não tenho nenhuma certeza metafísica para oferecer a ninguém. Mas sei que existem pessoas que continuam moldando nossas escolhas muito depois de terem partido.
Minha mãe morreu há 25 anos e ainda me ensina, ainda me repreende, ainda me acompanha. Ainda vai comigo às urnas.
Domingo, quando eu estiver diante da urna, 25 anos e dois dias depois de sua partida, haverá muitas razões para o meu voto. Algumas são políticas, outras são históricas, outras têm a ver com o futuro. Mas uma delas terá 56 anos para sempre e se chamará Dona Joana.
Domingo eu voto 13. Lula presidente!



Eu voto em político democrata para fazer política
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