Lula é gigante, Lula somos todos nós
Minha mãe não se reconhecia como petista. Apresentava-se, orgulhosa, como uma “lulista”, mas qual seria o significado disso.
É comum dizerem que o conceito de lulismo teria sido cunhado pelo cientista político André Singer (porta-voz do governo Lula e professor da USP) e desenvolvido principalmente em sua obra Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador, publicada em 2012. O conceito foi aprofundado em outra obra, O lulismo em crise, de 2018, contudo, antes de 2012, minha mãe já usava o termo.
Mas o que seria o lulismo?
Seria um fenômeno político e eleitoral inaugurado no final do primeiro mandato de Lula e consolidado em sua reeleição, em 2006? Há quem defenda que sim e que se caracterizaria pelo apoio popular à figura de Lula, superando a tradicional adesão ao Partido dos Trabalhadores.
Mas por que no final do primeiro mandato? Porque até 2006 o PT e Lula representavam as aspirações da classe média urbana, escolarizada e do mundo universitário, após 2006 Lula tornou-se muito maior que o PT ou qualquer partido, à esquerda ou à direita e, segundo André Singer, ocorreu uma conversão das camadas mais pobres da população ao lulismo – especialmente do subproletariado e dos eleitores de baixa renda, com destaque para a região Nordeste -, que passaram a votar em Lula.
Os mais jovens não sabem, e os mais velhos, convenientemente, se esquecem, mas o Nordeste era governado por oligarquias, por coronéis desprezíveis, até que o lulismo deu às pessoas o mínimo de dignidade, ganhando o apreço da população sofrida do Nordeste. Em contrapartida, após o mensalão setores importantes da classe média urbana afastou-se do PT e de Lula.
Singer argumenta que o eleitorado nordestino é, por natureza, conservador (no sentido de prezar pela estabilidade e temer perdas materiais bruscas), mas reconheceu a melhora substancial de suas vidas após 2003.
Ao contrário do que os incautos e os vis vocalizam, o lulismo não representa uma ruptura revolucionária ou socialista, mas, sim, uma reforma gradual combinada a um pacto conservador.
Os governos Lula procuraram conciliar programas de transferência de renda (como o Bolsa Família), valorização do salário-mínimo, expansão do crédito consignado e geração de empregos formais com a manutenção da macroeconomia liberal (superávit primário, metas de inflação, câmbio flutuante e altas taxas de juros), sem ameaçar os interesses do mercado financeiro.
Até as manifestações de junho de 2013, o conflito político tradicional entre esquerda e direita foi parcialmente deslocado para uma clivagem entre ricos e pobres.
No livro O lulismo em crise (2018), Singer analisa o período dos governos de Dilma Rousseff e os fatores que levaram à derrocada do arranjo institucional até então vigente. Teria ocorrido o “rompimento das vigas estruturantes”, pois o governo Dilma tentou empreender um “ensaio desenvolvimentista” e republicano que acabou afastando duas bases fundamentais do arranjo lulista original: (i) o capital financeiro e (ii) o chamado “partido do interior”, representado historicamente pelo PMDB e por alianças pragmáticas no Congresso.
Dilma também foi punida por uma crise que não causou. Na perspectiva dos conspiradores, liderados por Temer, Cunha e Aécio, ele cometeu erros, contudo, apesar da recessão, o desemprego e a queda de renda no segundo mandato de Dilma Rousseff, a base popular – o subproletariado que aderira ao lulismo – retirou seu apoio e “puniu” o projeto nas urnas e nas ruas, culminando no impeachment de 2016, não havia necessidade de afastá-la.
Evidentemente, a vileza de Temer, Aécio Neves, Cunha, de parte importante da classe política e da imprensa foi determinante para a derrocada de Dilma. Não havia razão honesta alguma para o impedimento da presidente, mas ele aconteceu desonestamente.
Voltando ao tema. Se o lulismo não é revolucionário e se ele fez e tenta manter um pacto conservador, o que ele é? O lulismo poderia ser reconhecido, no máximo, como social-democrata, mas creio que os governos lulistas foram, em verdade, de natureza social-liberal.
E em que momento o lulismo transcendeu seu papel em nosso país e Lula se torna uma figura de dimensão mundial?
Na realidade, Lula, ao fundar o PT, a CUT e mais tarde, já presidente, incluir os mais pobres no orçamento, tornou-se uma figura de respeitabilidade mundial, contudo, foi sua jornada de herói que deu a Lula e ao Lulismo outro significado.
A Jornada do Herói de Lula contém as doze etapas previstas por Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces (1949), que descreve a trajetória transformadora de um protagonista.
A vida de Lula não poderia ser mais comum em seu ambiente habitual, nascido muito pobre, num nordeste abandonado pelo governo nacional e explorado pelos coronéis, Lula é chamado à Aventura por Don Lindu, sai de Pernambuco de pau-de-arara, um desafio que rompe sua paz e o convida a mudar; não tenho dúvida que essa primeira jornada gerou medo ou hesitação no menino que em abandonou compulsoriamente sua zona de conforto.
Lula teve, a meu sentir, dois mentores: Dona Lindu, sua mãe e Frei Chico, seu irmão, que ofereceram conselhos fundamentais e garantiram que sua partida definitiva para o mundo desconhecido ocorresse com virtudes e princípios bem estabelecidos. No novo ambiente, o mundo sindical, teve início a formação de vínculos e primeiros combates, que culminaram na fundação do PT e depois na sua eleição à presidência da república.
Na presidência Lula viveu o maior desafio e o ponto central da jornada, obtendo inegável sucesso, deixou a presidência com mais 85% de aprovação e elegeu sua sucessora.
Mas o impensável ocorreu: Lula viu-se, anos após deixar a presidência, envolvido numa trama, me refiro à Operação Lava-Jata, que hoje sabemos foi a maior fraude do Poder Judiciário e que, ao lado os movimentos de junho de 2013, representou a batalha de maior risco.
Lula venceu a injustiça representada pela Lava-Jato e foi recompensado: os processos foram anulados e ele elegeu-se para um terceiro mandato.
Lula hoje, após vencer mais uma vez e aos 81 anos, faz o caminho de volta, início do retorno rumo ao mundo de origem, o que representa a ressurreição e a transcendência, um último teste transformador que sela a mudança definitiva do nosso herói.
Lula volta mais sábio, cônscio do seu papel no Brasil e no mundo, e fala em fim da guerra e em paz e sua voz alcança não apenas o nosso Brasil, mas o mundo todo.
Ao sair de uma prisão injusta, ter os processos anulados e, posteriormente, declaradas as prescrições; ao enfrentar a extrema-direita no Brasil e eleger-se presidente, vencendo o então presidente Jair Bolsonaro; ao reconstruir a institucionalidade e a imagem do Brasil no exterior e, principalmente, ao enfrentar os excessos de Trump com altivez, respeito e dignidade — fez com que, ao vencer pela quarta vez as eleições presidenciais, deixasse de ser apenas nosso para se tornar de todo o mundo.
Lula não é do PT é de todos os partidos, é de todo o mundo; o lulismo somos todos nós que acreditamos em revoluções pacíficas, no progresso nacional, que atenda os interesses da nação e do seu povo.
Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas, escreveu: “como de mim a de partir uma alma, de mim partiu meu primeiro verso, Campinas adorada amada minha, deixei de ser eu, para ser nós”, Lula é isso, é significado, é mensagem, Lula vive em todos nós. Isso é o lulismo hoje.
Lula somos sós.


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