Deus na campanha
Não é de hoje, mas há muito tempo os Bolsonaro colocaram Deus na campanha eleitoral. O patriarca das milícias, Jair, ganhou as eleições de 2019 com as orações dos evangélicos ingênuos, dos pastores corruptos e dos ricos que acham que compram um pedaço do céu dando dinheiro para igrejas evangélicas, como fazem os seguidores das doutrinas pentecostais e neopentecostais. Estas, com suporte do Departamento de Estado, do Pentágono e da CIA, criaram a Teologia do Domínio, a fim de ocupar todos os cargos públicos possíveis para combater leis civis progressistas no mundo.
A Teologia do Domínio espalhou-se por vários países, inclusive no Brasil, sendo um dos eixos através dos quais a questão religiosa tornou-se um divisor de águas político. Estamos testemunhando isso na campanha presidencial de Flávio, que reflete a intenção de colocar Deus no centro da disputa eleitoral. É um acinte num País cuja Constituição separa explicitamente a Religião do Estado, desde a Proclamação da República. Manobrando conceitos religiosos subjetivos, é mais fácil convencer a imensa maioria pobre brasileira a aceitar a demagogia barata dos pastores bandidos.
O fato é que não é a questão política, mas a questão social, que separa evangélicos de católicos. Os pobres e marginalizados das favelas dominadas por evangélicos e seus pastores milionários tendem a aceitar os conceitos que associam sua vida miserável a uma predestinação divina, que só pode ser superada mediante a intervenção de Deus. O sucesso material de pastores como Edir Macedo (com sua banheira e seu sarcófago de ouro nos EUA e sua tevê Record no Brasil), ou de Malafaia (braço direito de Bolsonaro que convence seus seguidores a vender seus pertences para ficar com o dinheiro) são apresentados como prova de bênçãos divinas, e não como achaques.
De acordo com a Forbes, que levanta os montantes das fortunas dos milionários e bilionários em todo o mundo, no Brasil o pastor evangélico mais rico é Edir Macedo, fundador e dono da Igreja Universal do Reino de Deus, com patrimônio de US$ 950 milhões, ou de cerca de R$ 1,9 bilhão. Seguem-se Valdemiro Santiago, que, após ser expulso da Universal por Macedo, construiu uma fortuna de cerca de R$ 700 milhões; depois, Silas Malafaia, com R$ 440 milhões; RR Soares, com R$ 250 milhões; e Estevam Fernandes e sua esposa, Bispa Sônia, com patrimônio comum líquido de R$ 32 mihões.
Os métodos para tomar o dinheiro dos evangélicos mais ricos incluem, entre outros, uma contribuição pura e simples, a fim de ficar bem com Jesus, assim como vender a bíblia por mil reais. Quanto aos mais pobres, pagam até 50 a 100 reais pela compra de um tijolo, de um pedaço da gravata abençoado, de uma flor ou até de um lenço molhado com as lágrimas do pastor, com a propriedade de facilitar o milagre da construção de uma casa própria. O dinheiro recolhido dessa forma não raro se mistura com o do crime organizado para financiar políticos corruptos em épocas eleitorais.
É fato que, entre os católicos, que são maioria entre os religiosos do Brasil, também há proselitismo político. Porém, muito mais discreto, e em geral sem contribuição em dinheiro para candidatos. Além disso, não me consta que algum bispo católico tenha subido num carro de som para discursar em favor de um candidato, como faz Silas Malafaia abertamente. Também entre os católicos há a instituição do dízimo, porém sem imposição de que o crente destine 10% de sua renda para a igreja, dinheiro que pode cair em mãos de políticos ligados ao crime organizado.
Outra distinção importante entre pastores evangélicos e sacerdotes católicos é que não há bilionários entre estes. O dinheiro recolhido nas igrejas vai para um fundo comum que financia sua estrutura organizacional, doações institucionais e salários dos padres e seus auxiliares, sem privilégios indevidos. Com isso, mesmo que haja engajamento político de um padre em atividades políticas, isso ocorre mediante obediência a algum princípio moral ou objetivo social onde não entra dinheiro, e sim a pregação evangélica verdadeira.
Finalmente, a polarização política que reflete a polarização religiosa no Brasil traz um grande risco em termos de defesa dos direitos civis, ameaçados pela regressão a valores medievais ultrapassados. Assim, que os eleitores reflitam bem antes de votar. Examinem em sua consciência seus próprios valores, comparem-nos com os valores dos candidatos que estão à sua escolha, decidam a favor dos que consideram como os melhores e tenham certeza de que seu Deus não vai interferir no pleito. Ele respeita, antes de tudo, a liberdade humana, que é o legado maior que deixou à Humanidade.



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