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A terceira força e a persistência das ideologias: Esquerda, Direita e Bolsonarismo na crise da representação política

10.10.2026 11 min read

A ideia de que a política brasileira passou a se organizar em torno de três campos distintos, a Esquerda, a Direita e o Bolsonarismo, tornou-se recorrente nas análises da conjuntura eleitoral pré 2º turno. A formulação parece responder a uma transformação efetiva na dinâmica política do país: o Bolsonarismo adquiriu identidade própria, mobiliza uma base social relativamente estável e estabelece formas de pertencimento que não se esgotam na filiação partidária ou na adesão circunstancial a um candidato.

Sua capacidade de organizar discursos, valores e antagonismos permite reconhecê-lo como um fenômeno político específico, cuja compreensão exige mais do que sua identificação com a trajetória individual de Jair Bolsonaro. Resta saber, entretanto, se essa especificidade autoriza falar na constituição de um terceiro campo ideológico, situado ao lado da Esquerda e da Direita, ou se estamos diante de uma transformação no interior do próprio campo da Direita, com implicações que ultrapassam seus limites tradicionais.

A distinção não é meramente terminológica. Classificar o Bolsonarismo como um terceiro campo político pode ser útil para descrever a configuração das disputas eleitorais e a formação de identidades coletivas, mas se torna conceitualmente problemático quando a descrição é convertida em uma afirmação sobre a estrutura das ideologias. Afinal, Esquerda e Direita são categorias amplas, historicamente constituídas, que comportam tradições intelectuais, projetos de sociedade e correntes políticas diversas.

O Bolsonarismo, por sua vez, apresenta características próprias de organização, mobilização e identificação, mas reúne elementos ideológicos que o situam predominantemente no universo da Direita radical contemporânea. A emergência de uma identidade política diferenciada não implica, necessariamente, a criação de uma terceira ideologia equivalente às duas categorias que historicamente estruturam a disputa política moderna.

É nesse ponto que a reflexão de Norberto Bobbio oferece uma referência analítica particularmente fecunda. Ao questionar a tese do fim das ideologias, o filósofo italiano observa que seu suposto desaparecimento não decorre da superação dos conflitos políticos, mas frequentemente da dificuldade de reconhecê-los em suas novas configurações. A queda do Muro de Berlim, o desmembramento da União Soviética e a crise do socialismo real alimentaram a interpretação de que a oposição entre Esquerda e Direita teria perdido sua razão de ser.

Entretanto, o esgotamento de uma experiência histórica específica não significou o desaparecimento dos valores, dos interesses e dos projetos de sociedade que constituem o conteúdo das disputas ideológicas. Como afirma Bobbio, “as ideologias não deixaram de existir e estão, ao contrário, mais vivas do que nunca. A árvore das ideologias está sempre verde”. A observação conserva sua força justamente porque permite distinguir a transformação das ideologias de seu desaparecimento.

A crise de uma tradição política não equivale à crise de todas as tradições, assim como o enfraquecimento de determinadas organizações partidárias não elimina os conflitos sociais que lhes conferiam sentido. Para Bobbio, não existe uma única Esquerda, assim como não existe uma única Direita. Ambas abrigam correntes distintas, por vezes contraditórias, que disputam a definição de seus próprios projetos e de suas estratégias de atuação.

A diversidade interna desses campos não constitui uma anomalia a ser corrigida por novas classificações, mas uma característica da própria dinâmica política. O problema começa quando a multiplicação das correntes, a mudança das alianças e a emergência de novas identidades são interpretadas como evidências de que as categorias ideológicas perderam sua capacidade explicativa. A afirmação de que a política contemporânea já não se organiza pela oposição entre Esquerda e Direita pode, inclusive, produzir um efeito paradoxal.

Ao apresentar os partidos como organizações supostamente desprovidas de orientação ideológica, cujas posições seriam definidas exclusivamente pelas exigências eleitorais, essa interpretação tende a obscurecer os projetos de sociedade que continuam orientando suas decisões. A política passa a ser descrita como uma disputa entre lideranças, estratégias de comunicação e interesses eleitorais, enquanto as diferenças substantivas entre os projetos concorrentes são relegadas a um segundo plano.

A ideologia, nesse enquadramento, deixa de ser reconhecida como dimensão constitutiva da ação política e passa a ser tratada como um resíduo de épocas anteriores, quando os partidos ainda se apresentavam como representantes de classes, grupos sociais ou concepções relativamente definidas de sociedade. Bobbio oferece uma objeção direta a essa perspectiva ao afirmar que os posicionamentos de Esquerda e Direita “indicam programas contrapostos com relação a diversos problemas cuja solução pertence habitualmente à ação política”.

Não se trata apenas de diferenças abstratas de pensamento, mas de divergências relativas a interesses, valores e orientações para o futuro da sociedade. As disputas sobre a distribuição de recursos, o papel do Estado, os direitos sociais, as relações de trabalho, a igualdade, a segurança pública e os limites da autoridade política não desaparecem porque os partidos deixam de apresentá-las em termos ideológicos. Tampouco deixam de produzir consequências materiais para a vida coletiva.

A negação da ideologia não elimina essas escolhas: apenas dificulta a identificação dos pressupostos que as orientam e dos interesses que podem ser favorecidos por elas. Essa constatação é importante para compreender o Bolsonarismo sem reduzir sua singularidade nem lhe atribuir uma autonomia ideológica que precisa ser demonstrada. O fenômeno não se explica apenas pela adesão a uma agenda conservadora, assim como não pode ser compreendido exclusivamente como manifestação de antipetismo ou como prolongamento do conservadorismo político tradicional.

Sua formação articulou diferentes correntes, entre elas o conservadorismo moral, o liberalismo econômico, o anticomunismo, o militarismo e a contestação de instituições e consensos associados à ordem democrática. A combinação desses elementos, sua articulação em torno de uma liderança e a construção de uma identidade política marcada por antagonismos específicos contribuíram para conferir ao movimento uma configuração própria.

Diferentes interpretações presentes no debate político e acadêmico contemporâneo têm procurado compreender o Bolsonarismo como uma força política dotada de identidade própria, cuja composição reúne diferentes correntes do pensamento conservador e da Direita radical. Essa perspectiva permite reconhecer sua singularidade histórica, sua capacidade de mobilização e suas formas particulares de organização sem necessariamente classificá-lo como uma terceira posição ideológica, exterior à Esquerda e à Direita. Essa interpretação distingue a identidade própria do Bolsonarismo de um novo campo ideológico, reconhecendo seu papel na reconfiguração da Direita brasileira.

A comparação com o movimento MAGA, nos Estados Unidos, contribui para aprofundar essa discussão. Em ambos os casos, a identidade política ultrapassa os limites das organizações partidárias e se estrutura em torno de uma liderança, de narrativas de recuperação nacional e de uma oposição apresentada como confronto entre grupos que reivindicam representar o povo e adversários percebidos como ameaças à ordem social desejada.

A identificação com o líder passa a operar como referência de pertencimento, enquanto a oposição política adquire frequentemente um caráter moral e identitário, que não se restringe às divergências sobre programas de governo. Essas semelhanças permitem reconhecer uma família de fenômenos políticos contemporâneos sem pressupor que suas trajetórias, bases sociais ou configurações institucionais sejam idênticas. O MAGA e o Bolsonarismo não são cópias um do outro, mas expressões nacionais de processos nos quais identidades políticas organizadas em torno de lideranças e antagonismos podem adquirir relativa autonomia em relação aos partidos tradicionais.

A questão central, portanto, talvez não seja saber se o Bolsonarismo constitui uma terceira ideologia, mas compreender como uma corrente específica da Direita conseguiu construir uma identidade política capaz de reorganizar o próprio campo conservador. Essa diferença é decisiva. Quando se afirma que existem três campos, corre-se o risco de colocar no mesmo plano categorias que operam em níveis analíticos distintos: Esquerda e Direita, como referências abrangentes de orientação ideológica, e Bolsonarismo, como movimento político dotado de características particulares, mas situado predominantemente à Direita do espectro político.

O reconhecimento de sua autonomia relativa não exige ignorar essa localização. Ao contrário, permite investigar como o movimento redefine as fronteiras internas da Direita, disputa sua representação e pressiona outras correntes conservadoras a rever suas estratégias, seus discursos e suas alianças. Essa transformação também ajuda a compreender por que o Bolsonarismo não pode ser tratado apenas como um fenômeno eleitoral.

Sua capacidade de mobilização depende da produção contínua de uma identidade coletiva, da delimitação de adversários e da circulação de interpretações sobre a sociedade que conferem sentido à experiência política de seus apoiadores. A identidade não é apenas uma consequência da adesão a determinadas ideias; ela também constitui uma condição para a maneira como essas ideias são interpretadas, compartilhadas e transformadas em ação.

Nesse sentido, a observação de Bobbio de que o alinhamento político atende à necessidade de identificação, à formação de um “nós”, conserva especial relevância. O pertencimento a um campo político não se estabelece exclusivamente pela concordância com um programa, mas também pela construção de uma fronteira simbólica entre aqueles que se reconhecem como parte de uma comunidade e aqueles que passam a representar o seu exterior.

A produção dessa fronteira não é exclusiva do Bolsonarismo. A Esquerda também reúne identidades, tradições e experiências de pertencimento, assim como as diferentes correntes da Direita. O que merece atenção é a maneira pela qual determinadas formas de identificação passam a se sobrepor às mediações partidárias e a organizar a interpretação de acontecimentos, instituições e conflitos sociais. Quando a lealdade a uma liderança ou a um movimento se torna o principal critério de reconhecimento político, as divergências programáticas podem perder importância diante da necessidade de preservar a unidade do grupo.

A política passa, então, a ser vivida não apenas como disputa entre projetos, mas como afirmação de identidades que delimitam quem pode falar em nome do coletivo, quais instituições merecem confiança e quais adversários são considerados legítimos. Esse processo se relaciona à crise da representação política, mas não deve ser confundido com ela. A dificuldade dos partidos em representar interesses sociais heterogêneos, a fragilização de vínculos históricos entre organizações e suas bases e a crescente centralidade das lideranças pessoais podem abrir espaço para formas de mobilização que prometem uma relação mais direta entre representantes e representados.

Ao mesmo tempo, a judicialização da política e os conflitos em torno da legitimidade das instituições alimentam discursos que apresentam a política institucional como um espaço necessariamente corrompido ou incapaz de responder às demandas sociais. A combinação desses fatores favorece a difusão de narrativas antissistema, mesmo quando os movimentos que as mobilizam participam ativamente das instituições e disputam seus recursos e posições de poder. A contradição merece ser examinada com cuidado.

A negação da política institucional não significa necessariamente a recusa da disputa pelo poder, assim como o discurso contra os partidos não impede a construção de organizações, alianças e estratégias eleitorais. Frequentemente, o que se contesta não é a política como disputa de interesses e projetos, mas a legitimidade dos adversários e das mediações institucionais existentes. A promessa de superar a velha política pode, assim, coexistir com a reprodução de práticas tradicionais de negociação e ocupação do Estado.

No entanto a multiplicação de identidades políticas e a instabilidade das alianças não devem ser tomadas como provas de uma sociedade que teria deixado para trás as ideologias. Elas podem indicar, ao contrário, que os conflitos ideológicos estão sendo reorganizados em novas bases, com mudanças nos atores que os expressam, nos repertórios utilizados para mobilizar apoiadores e nos mecanismos de construção da legitimidade política.

O crescimento de uma força como o Bolsonarismo não torna necessariamente obsoleta a oposição entre Esquerda e Direita. Ele exige investigar de que maneira essa oposição se transforma, quais correntes conquistam maior capacidade de representação dentro de cada campo e como novas identidades alteram o equilíbrio entre elas. Talvez seja esse o ponto em que a reflexão de Bobbio adquire sua maior atualidade. Se a árvore das ideologias permanece verde, sua vitalidade não significa que os ramos permaneçam imóveis ou que as fronteiras entre eles sejam definitivas.

As categorias políticas precisam ser capazes de apreender as transformações históricas sem perder a capacidade de distinguir fenômenos diferentes. A Esquerda e a Direita não são blocos homogêneos, muito menos organizações dotadas de fronteiras permanentes. São campos de disputa que abrigam projetos concorrentes, se reorganizam diante de novas circunstâncias e procuram estabelecer vínculos com grupos sociais cujos interesses e valores também se transformam. O desafio, portanto, é evitar tanto a rigidez de classificações que ignoram a emergência de novos fenômenos quanto a fluidez conceitual que transforma toda identidade política em uma categoria independente.

Reconhecer o Bolsonarismo como uma força política específica é necessário para compreender a configuração contemporânea da disputa brasileira. Transformá-lo, porém, em uma terceira ideologia equivalente à Esquerda e à Direita exige uma demonstração que não pode ser substituída pela simples constatação de sua força eleitoral ou de sua identidade própria. Sua singularidade talvez seja mais bem compreendida como expressão de uma reorganização da Direita, com capacidade para redefinir suas fronteiras e disputar a hegemonia dentro desse campo.

A crise contemporânea da política não seria, assim, a crise terminal das ideologias, mas a crise das formas pelas quais elas se organizavam, eram reconhecidas e encontravam expressão institucional. A resistência dos partidos em explicitar suas orientações, a personalização da representação e a transformação das identidades políticas não eliminam os conflitos de valores e interesses. Ao contrário, podem torná-los menos transparentes, dificultando a compreensão dos projetos em disputa e de suas consequências para a sociedade.

Quando as diferenças ideológicas deixam de ser nomeadas, não desaparecem: tornam-se mais difíceis de identificar e de submeter ao debate público. A questão que permanece não é, portanto, quantos campos políticos existem, como se a realidade pudesse ser apreendida pela simples multiplicação de categorias. É compreender quais projetos de sociedade estão em disputa, como se articulam as identidades que lhes dão sustentação e de que maneira essas identidades transformam as instituições e as formas de representação.

A democracia não exige que os conflitos sejam dissolvidos em um consenso abstrato, mas que possam ser reconhecidos, explicitados e disputados em condições que preservem a legitimidade do pluralismo político. Nesse sentido, a afirmação de que as ideologias chegaram ao fim pode ser menos uma descrição da realidade do que uma maneira de ocultar aquilo que continua a mover a política: a disputa, sempre renovada, sobre os rumos da vida coletiva.

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

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