Lula espera que Trump leve o Brasil a sério após eleições no Brasil e nos Estados Unidos
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera que o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos abra caminho para uma relação mais pragmática entre Brasília e Washington. Embora ainda não tenha se pronunciado oficialmente sobre a vitória dos democratas, que conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, Lula afirmou a interlocutores que “está na hora de Trump levar o Brasil a sério”. A informação é da jornalista Mônica Bergamo, em sua coluna na Folha de S.Paulo.
A avaliação do governo brasileiro é que o enfraquecimento político do presidente norte-americano, Donald Trump, pode criar condições mais favoráveis para a retomada das negociações comerciais. A principal prioridade é reduzir as tarifas impostas pelos Estados Unidos, que atualmente atingem 47,3% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Integrantes da diplomacia e da equipe econômica esperam que Trump passe a orientar seus negociadores a buscar soluções concretas, deixando de lado exigências políticas e ideológicas que têm dificultado o entendimento bilateral. A nova correlação de forças no Congresso norte-americano é vista como um fator capaz de ampliar a pressão por uma política comercial menos conflituosa.
Diplomacia brasileira aposta na retomada do diálogo
Um dos sinais considerados positivos pelo governo brasileiro foi a reunião realizada nesta semana, em Atlanta, entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
Os dois concordaram em realizar um novo encontro bilateral em dezembro, na Flórida, antes da cúpula do G20. A expectativa brasileira é que, até lá, Washington apresente propostas mais realistas para a redução das barreiras comerciais.
Apesar das conversas presenciais e telefônicas mantidas por Lula e Trump nos últimos dois anos, as negociações ainda não produziram resultados considerados satisfatórios por Brasília.
O primeiro documento oficial apresentado pelos Estados Unidos continha 21 exigências, a maioria rejeitada pelo governo brasileiro. Entre elas estavam demandas relacionadas ao funcionamento das instituições democráticas e do sistema judicial do Brasil.
Washington exigia garantias de que “dissidentes políticos” não fossem detidos, presos ou impedidos arbitrariamente de disputar a Presidência da República, além de cobrar eleições “justas e livres”.
O governo brasileiro interpretou essas condições como uma tentativa de interferência em assuntos internos, especialmente em decisões do Poder Judiciário, incluindo a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
A diplomacia brasileira também identificou informações falsas no documento norte-americano, considerado incompatível com uma negociação comercial entre países soberanos.
Em janeiro, Washington apresentou uma versão reduzida, com 14 exigências, mas o novo texto também foi classificado como inaceitável pelas autoridades brasileiras.
Tarifas continuam sendo o principal obstáculo
Enquanto as negociações permaneciam sem avanços significativos, os Estados Unidos ampliaram as restrições ao comércio bilateral.
Em julho, o governo Trump anunciou sobretaxas de até 37,5%, fundamentadas em investigações conduzidas sob a Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O dispositivo permite a adoção de medidas contra práticas estrangeiras consideradas desleais, discriminatórias ou prejudiciais aos interesses econômicos e tecnológicos dos Estados Unidos.
As medidas agravaram as dificuldades enfrentadas por exportadores brasileiros e ampliaram a tensão entre os dois governos.
Para Brasília, a questão central é separar as divergências políticas das relações econômicas. O governo Lula sustenta que o comércio bilateral deve ser conduzido com base em interesses recíprocos, sem condicionantes que comprometam a soberania nacional.
A expectativa agora é que o novo cenário político norte-americano, marcado pela perda de controle republicano sobre o Congresso, leve Trump a rever sua estratégia de confronto e abra espaço para um entendimento que permita reduzir as tarifas e normalizar as relações comerciais entre as duas maiores economias das Américas.



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