Como livrar metade do Brasil do veneno do bolsonarismo
247 – O manifesto golpista e as fotos ao lado do irmão Eduardo e de Alexandre Ramagem, todos sorridentes, mostram Flávio Bolsonaro mergulhado em um mundo imaginário dois dias depois da eleição. Esse mundo não é só dele. Brasileiros que se engajaram ao projeto da extrema direita continuam ao seu lado, vivendo no país paralelo do qual não querem sair.
O ambiente ilusório dos derrotados torna mais complexo o desafio posto pelas vozes mais representativas do que chamam de campo democrático. A urgência hoje seria o acionamento de mecanismos de proteção da democracia, para que a extrema direita seja neutralizada e isolada.
Isso significa desqualificar Flávio como pretendente a líder da resistência e da rearticulação da direita derrotada e fragilizar suas bases não só no Congresso. Líderes do bolsonarismo teriam que ser contidos pela operação de salvamento da velha direita que vinha sendo comida pelo fascismo. O plano de emergência começa pelo salvamento dessa direita não bolsonarista.
A salvação, que precisa ser combinada com os russos, empurraria o bolsonarismo para um canto do teatro da política, por ações articuladas do governo, das esquerdas e da direita que deseja se livrar dos Bolsonaros.
Mas também o Brasil paralelo, da realidade que os eleitores de Flávio imaginavam diante da certeza da vitória, terá de ser desfeito por esse esforço político. A realidade fora de Brasília é bem mais complexa do que as das estruturas de poder da política.
A ressaca da derrota é desta vez mais devastadora do que em 2022. Porque lá no primeiro confronto com Lula, ele era o franco favorito e acabou vencendo por detalhe. Bolsonaro era o azarão, segundo as pesquisas. Desta vez, não. Flávio Bolsonaro arrancou como favorito no primeiro turno e chegou ao segundo, mesmo que sem a mesma força, à frente de Lula.
A ilusão da vitória, criada por institutos que não enxergaram a reação pró-Lula, coloriu a realidade paralela que eleitores de Flávio não conseguem desfazer. O Brasil precisa neutralizar o fascismo articulado por seus líderes e, ao mesmo tempo, devolver o eleitor inconformado à realidade.
As listas de caçadores de ‘comunistas’, os apelos para que as empresas demitam funcionários petistas e o aviso de que gente do dinheiro deixará de ajudar os pobres – tudo isso está no combo da face mais cruel dessa realidade paralela. Não são ameaças pontuais. O Brasil do interior, que as capitais não conseguem ver, está tomado da ameaça de represálias fascistas.
É possível dizer hoje, sem que se erre muito, que será mais fácil gerir a crise da direita acalmando seus líderes do que tratar das sequelas das bases sociais e eleitorais, desses seus eleitores ainda em fúria e em transe.
Os líderes estão em busca da livração, para que finalmente escapem da escravidão política imposta pelos Bolsonaros. Mas as bases iludidas não têm esse discernimento. As bases ficaram sem ter onde se agarrar e continuarão curtindo o delírio que lhes interessa.
É sofrimento e é também um vício. A porção bolsonarista, que o cientista político André Singer recalcula em apenas 15%, não sofre sozinha. Essa porção vive o bolsonarismo da manhã à noite, assim como boa parte da velha direita de gente do centrão e agregados.
É uma força eleitoral que envolve desde 2018 metade do Brasil. Tirando-se os 15% da base raiz, a maior parte dos 35% restantes do eleitorado poderia ser resgatada do cativeiro bolsonarista.
Os movimentos para neutralizar e isolar a extrema direita, que começam pelo topo, podem ter alguns efeitos imediatos no jogo do poder, envolvendo as relações de governo, Congresso e Supremo. Mas serão insuficientes para obter resultados de curto prazo nas bases abaladas e em muitos casos alucinadas pelo veneno do bolsonarismo.
Essas bases podem não ser numericamente expressivas no conjunto de toda a direita, mas são poderosas pelo poder do ativismo, nas redes e na vida cotidiana do interiorzão. Quem mora em cidades pequenas e médias sabe bem. Os viciados em ódio e crueldades extremistas continuam fumando, comendo e cheirando bolsonarismo.



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