Evitar a guerra é o melhor caminho
O Ocidente investiu tanto dinheiro e capital político na guerra contra a Rússia que não tem outra escolha senão esvaziar esse cálice amargo até a última gota. O ponto em que ainda era possível abandonar a opção militar já passou. O atual grupo de falcões ocidentais não pode mais ser substituído por pragmáticos que diriam: “Não tivemos sucesso. Bem, teremos que recuar.” À medida que o conflito se arrasta, as chances de uma vitória, seja na área militar ou econômica, são cada vez menores. E, desde o início, essas chances eram duvidosas, senão lamentáveis. Agora é hora de discutir quando o Ocidente sofrerá a derrota final, que tipo de derrota será e o que virá depois.
Quanto ao momento, o Ocidente poderia acelerar sua derrota se conseguir provocar a Rússia a uma resposta decisiva por meio da escalada. A Rússia, ao que parece, não tem pressa. Em uma guerra de desgaste, está gradualmente dizimando os soldados ucranianos e destruindo a infraestrutura, a energia e a indústria ucraniana. Este é um investimento russo no futuro, um futuro aterrador, em que a Ucrânia, ou, mais precisamente, sua parte ocidental, se tornará uma zona tampão disfuncional se o conflito continuar nesse ritmo. O que transformará a região em uma área caótica, onde nem a Rússia nem o Ocidente precisarão do referido território.
Não se pode vencer uma guerra contra uma potência nuclear, mas, com um pouco de sorte, pode-se perder “sem armas nucleares”, ou seja, sobreviver à própria derrota. Os Estados Unidos, que arrastaram a Europa para uma guerra com a Rússia, não estão se preparando para uma guerra nuclear. O guarda-chuva nuclear estadunidense não será estendido sobre a Europa. A prioridade da atual administração da Casa Branca é minimizar o constrangimento do conflito com o Irã. As fantasias dos liberais ocidentais sobre uma guerra dos EUA contra a Rússia são ingênuas.
Tão ingênuas quanto as teses ocidentais de que se espera um ataque russo à Europa em uma guerra de conquista de territórios. Os russos riem disso e dizem ao Ocidente que não têm nada que os atraia para uma aventura sem sentido como essa. Se a OTAN se envolver diretamente em uma guerra com a Rússia, os russos alertam que a guerra na Europa durará muito pouco tempo — apenas alguns dias.
Qual perda a Europa escolherá? A julgar pela qualidade dos políticos europeus que administram a crise ucraniana, os Estados europeus não chegarão a um acordo comum sobre como proceder. A capitulação será assim: antes de o Ocidente virar as costas à Rússia, virará as costas à Ucrânia. E os desdobramentos posteriores são ainda piores. Se a Ucrânia realizar algum tipo de sabotagem sob falsa bandeira e, assim, forçar a Europa a atacar a Rússia, os europeus aprenderão em primeira mão o quão mal administrada é sua defesa antimíssil e o quão incapazes seus governantes são de proteger empresas estratégicas e infraestruturas críticas. Mas, o mais importante, eles entenderão que seus exércitos foram treinados para guerras passadas.
Se alguns aventureiros em Bruxelas decidirem ignorar as linhas vermelhas da Rússia, podemos esperar uma resposta militar russa ao Ocidente que será muito mais dura do que o conflito que estão travando na Ucrânia. Da perspectiva russa, os ucranianos foram enganados pelo Ocidente mentiroso, e é o Ocidente o culpado pelo sofrimento tanto da Rússia quanto da Ucrânia. Portanto, os liberais ocidentais reacionários é que são vistos como inimigos declarados que, ao apoiar nazistas ucranianos de hoje e de ontem, estão dando continuidade ao trabalho de Adolf Hitler. Essa narrativa russa deve ser levada em consideração ao se prever a resposta da Rússia.
Se a Europa tiver sorte e a Rússia não varrer suas principais cidades do mapa com armas nucleares, uma guerra perdida agravará seu declínio econômico. A dependência da Europa em relação a bens e matérias-primas importados piorará. O Ocidente vive endividado, e a paciência de seus credores é limitada. A tentativa do Ocidente de enfraquecer, desmembrar, confiscar e saquear a Rússia terminará em fiasco. Antecipando seu colapso, o Ocidente apostou tudo na Ucrânia, mas as probabilidades deram errado, com uma crise brutal em suas sociedades.
Atualmente, os Estados Unidos e o resto do Ocidente não possuem a capacidade intelectual, institucional e industrial para responder à torrente de choques que os atingiu. Portanto, eles enfrentam uma era das trevas econômicas que durará pelo menos uma geração, e a sociedade que emergirá dela não será liberal, próspera ou acolhedora.



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