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Um ano após a chacina no Complexo do Alemão, pesquisador Daniel Silva traz a esperança para o centro do debate acadêmico e político

28.10.2026 5 min read

Um ano após a chacina nos complexos do Alemão e da Penha, a memória das vítimas e as formas de resistência territorial voltam ao centro do debate acadêmico e político. A convite da professora Matheux Shwartzmann, o pesquisador e professor Daniel Silva ministrou uma aula especial no âmbito dos estudos em semiótica da Unesp. Sob o título Recursos Semióticos e Produção da Esperança: um diálogo com o ativismo periférico do Rio de Janeiro, a conferência colocou em questão o espetáculo da violência e destacou a capacidade das próprias comunidades de produzir conhecimento, exercer agência política e construir possibilidades de futuro.

A imagem, o luto e a agência dos moradores

Daniel Silva iniciou sua análise pela reconstituição dos acontecimentos na Pedreira, área de mata situada no território dos complexos. Diante do abandono de dezenas de corpos em locais sem cobertura de câmeras corporais policiais, moradores e ativistas assumiram a tarefa de resgatá-los e levá-los à Praça do Terço, onde foram enfileirados.

A cena não expressou apenas o luto e a dor das famílias. Revelou também uma sofisticada compreensão dos recursos midiáticos e semióticos mobilizados na disputa pela memória pública. Ao transformar a praça em espaço de despedida e denúncia, os moradores expuseram a dimensão da violência e intervieram na narrativa dos acontecimentos. Em vez de permanecerem como personagens de uma tragédia contada por terceiros, assumiram o protagonismo da denúncia e da produção de sentidos sobre a ação do Estado.

Pesquisas em disputa: quem tem o direito de produzir conhecimento?

A conferência também abordou as disputas em torno dos dados utilizados para avaliar a violência policial. Daniel Silva contrapôs pesquisas de opinião realizadas por telefone, como levantamentos da Quaest, a uma pesquisa construída a partir das experiências e das demandas de moradores de territórios periféricos. A crítica não se restringiu aos resultados: incidiu também sobre as perguntas formuladas, os contextos de aplicação e as condições em que a população é ouvida.

A pesquisa desenvolvida por coletivos e organizações territoriais, entre eles o Instituto Cimento e o Papo Correto, em articulação com pesquisadores vinculados à UFRJ e à UERJ e com apoio parlamentar, ouviu cerca de 4 mil moradores da Rocinha, da Maré, do Alemão e da Penha. A metodologia incorporou rodas de conversa e formas de escuta construídas nos próprios territórios.

Os resultados apresentados indicaram forte rejeição às operações policiais e ao modelo de segurança baseado na militarização. Entre os dados destacados estavam índices de 56% a 73% de rejeição às operações nos territórios pesquisados; 95% de percepção de que essas ações não melhoram a vida dos moradores; 92% de rejeição ao modelo violento; e 91% de pessoas que presenciaram ou sofreram abusos policiais. O levantamento também registrou índices entre 90% e 95% de rejeição a ilegalidades, medo da atuação policial entre 78% dos entrevistados e percepção de racismo nas operações entre 61%.

Esses números precisam ser compreendidos à luz das diferenças entre as metodologias, os universos pesquisados e a formulação das perguntas. Ainda assim, a pesquisa territorial introduz uma questão incontornável: não é possível discutir segurança pública sem reconhecer a experiência de quem vive cotidianamente os efeitos das operações. A repercussão internacional do tema, incluindo reportagem de Tom Phillips no The Guardian, contribuiu para ampliar a circulação dessas denúncias e das vozes dos moradores.

A esperança radical e o papo reto

Para pensar como comunidades reinventam a existência diante do trauma, Daniel Silva recorreu ao filósofo Jonathan Lear e ao conceito de esperança radical, desenvolvido a partir da experiência histórica da nação Crow. Diante da destruição de referências fundamentais de seu modo de vida, provocada pela colonização e pelo desaparecimento dos búfalos, o líder Plenty Coups encontrou formas de orientar seu povo para um futuro que já não poderia ser simplesmente a continuidade do passado.

A afirmação de que, depois daquele período, “nada aconteceu” pode ser compreendida nesse contexto não como ausência literal de acontecimentos, mas como expressão de uma ruptura histórica: as categorias disponíveis já não eram suficientes para narrar o mundo que emergia. A esperança radical aparece, então, como a possibilidade de imaginar formas de vida que ainda não dispõem de garantias nem de modelos previamente estabelecidos.

Em diálogo com autores como Joel Robbins, a conferência propôs deslocar o olhar acadêmico de uma atenção exclusiva ao sofrimento e à dominação para o reconhecimento da agência das comunidades. Isso não significa minimizar a violência, mas compreender que os sujeitos submetidos a ela também produzem linguagem, conhecimento, alianças e estratégias de transformação.

Nesse horizonte, o registro da esperança e a prática política do papo reto ganham força como recursos semióticos e formas de organização coletiva. Falar diretamente, produzir narrativas próprias e construir espaços de escuta são ações que disputam a interpretação da realidade e abrem caminhos para transformar o luto em mobilização política.

A contribuição central da aula de Daniel Silva está em mostrar que a esperança não precisa ser entendida como sentimento abstrato, promessa de superação ou otimismo diante da tragédia. Ela pode ser produzida nas práticas concretas de quem resgata os mortos, questiona estatísticas, confronta versões oficiais e cria condições para imaginar outros futuros.

Um ano depois da chacina, essa perspectiva recoloca uma pergunta fundamental para a universidade e para a política: quem pode produzir conhecimento sobre a violência e, sobretudo, quem tem o direito de imaginar o que virá depois dela? Quando as comunidades periféricas ocupam esse lugar, deixam de ser apenas objeto de pesquisa e passam a afirmar sua condição de produtoras de teoria, memória e futuro.

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