A estrela de volta às fachadas comerciais
O resultado das urnas no último domingo deveria encerrar a disputa e abrir espaço para a convivência democrática. Deveria. Contudo, para o bolsonarismo, a derrota virou pretexto para o estímulo a uma caça às bruxas. Militantes, alguns com mandatos parlamentares, passaram a estimular a denúncia de comércios cujos donos teriam votado em Lula, pregando que ninguém compre seus produtos ou contrate seus serviços. Na mesma toada, incentivam empresários bolsonaristas a demitir funcionários que tenham digitado 13 na urna no último domingo.
Demitir alguém por sua posição política é dispensa discriminatória, proibida pela Lei 9.029, de 1995, e uma afronta à Constituição, que garante a liberdade de consciência e o voto secreto. Quem incentiva essa prática empurra o trabalhador para o desemprego e o empresário para o banco dos réus da Justiça do Trabalho. Dispensa discriminatória é crime.
Em Santa Catarina, um deputado estadual do PL – um grande imbecil e falso moralista, diga-se de passagem – foi além: publicou em suas redes um desafio a estabelecimentos cujos donos sejam progressistas a se identificarem. A postagem traz uma imagem de um comércio com uma bandeira do PT aplicada em sua fachada. A escolha do símbolo não é inocente. E a história mostra onde esse caminho leva.
Em 1º de abril de 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, o Partido Nazista organizou um boicote nacional às lojas de judeus. Homens da SA – os camisas pardas – postavam-se diante das portas, pintavam estrelas amarelas de Davi nas vitrines e erguiam cartazes ordenando aos alemães que não comprassem de judeus. Seis dias depois, uma lei afastou judeus do serviço público. Vieram então as demissões no setor privado, a exclusão das profissões liberais, as Leis de Nuremberg, em 1935, e a Noite dos Cristais, em 1938, quando sinagogas e lojas foram destruídas. Em 1941, a estrela amarela tornou-se obrigatória nas roupas. O passo seguinte foram os trens em direção aos campos de concentração e extermínio.
O Holocausto não começou nas câmaras de gás. Começou na porta de uma loja, com a marcação de quem deveria ser evitado; com o patrão que demitia para não se indispor com o regime; com o vizinho que deixava de comprar por medo ou por convicção. Começou quando a sociedade aceitou que um grupo de cidadãos podia ser identificado, isolado e asfixiado economicamente.
Não se trata de dizer que o Brasil de hoje é a Alemanha de 1933. Trata-se de reconhecer o método: transformar o adversário em inimigo, o inimigo em alvo, e o alvo em alguém que pode ser punido no bolso, no emprego e, depois, sabe-se lá onde. Por isso a reação precisa vir agora, e com firmeza.
As instituições têm instrumentos para isso. O Ministério Público do Trabalho, a Justiça do Trabalho e os sindicatos devem acolher cada denúncia de demissão. A Assembleia Legislativa e os Ministérios Públicos estaduais e federal precisam examinar a conduta de parlamentares que usam o mandato para estimular a perseguição, o ódio. E a sociedade não pode se calar.
A democracia se defende nas urnas, mas também na calçada, diante de cada comércio. A estrela já foi pregada uma vez nas fachadas. Sabemos como terminou.



Flávio Bolsonaro não é Guaidó
COVARDE!
Lula derrota a extrema-direita, Trump e o capital
Observações sobre o caso Flávio Bolsonaro