A virada que a Nova República nunca tinha visto: Lula sai do segundo lugar, derrota Flávio Bolsonaro e conquista o quarto mandato
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República neste domingo (25) ao vencer o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026, numa virada que nenhum candidato havia conseguido desde a redemocratização. A confirmação matemática chegou às 21h08, quando o sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizava 97,69% das seções apuradas, com Lula somando 62.641.973 votos, ou 51,74% dos válidos, contra 58.436.437 votos de Flávio, ou 48,26%. Com 98,27% das urnas totalizadas, o petista consolidou 51,75% e abriu uma vantagem de aproximadamente 4,3 milhões de votos, algo em torno de 3,5 pontos percentuais.
O que torna o resultado histórico é o ponto de partida. No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro havia terminado na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos, e chegou ao segundo turno embalado pelo apoio de candidatos derrotados e por pesquisas que o colocavam à frente. Até hoje, quem liderava a primeira votação confirmava a vitória na segunda, e foi esse padrão que caiu nesta noite. Lula, que governou de 2003 a 2010 e retornou ao Planalto em 2023, assume agora o quarto mandato presidencial, que se estenderá de 2027 a 2030, tornando-se o primeiro a vencer depois de ver o adversário abrir vantagem na etapa inicial.
A vitória garante a continuidade do projeto progressista, mas entrega um país que as urnas mostram dividido quase ao meio, e é nesse cenário que especialistas apontam os desafios mais imediatos do novo governo. O primeiro é a governabilidade, já que o Executivo enfrentará uma oposição forte no Congresso Nacional e em governos estaduais importantes ligados à extrema-direita, o que exigirá articulação permanente com os blocos de centro. O segundo é a reconstrução institucional, com a manutenção das políticas sociais e ambientais e o fortalecimento dos pesos e contrapesos do Estado e do Judiciário. O terceiro é a própria polarização, pois uma margem tão estreita indica que a tensão social segue alta e que a pacificação, para ser real, precisará andar junto com o combate firme aos atos antidemocráticos.
Há ainda uma camada do problema que a apuração eleitoral não mede. Por mais de duas décadas, a antropóloga e cientista social Adriana Dias (1970–2023), doutora pela Unicamp e a maior referência brasileira no estudo do neofascismo e do neonazismo, mapeou a rede subterrânea que se formou sob a normalização do discurso extremista. Seus levantamentos registraram 334 células neonazistas em 2019 e um crescimento de 270,6% até maio de 2021, chegando a mais de 530 núcleos no início de 2022, com até 10 mil pessoas ativas, concentrados sobretudo em São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul e com avanço recente sobre o Centro-Oeste e o Sudeste.
Adriana mostrou também que a porta de entrada desse processo costuma ser a misoginia, com jovens que começam em fóruns de incels e comunidades masculinistas e vão sendo conduzidos, etapa por etapa, ao racismo, ao antissemitismo, à homofobia, à transfobia e à xenofobia contra nordestinos, num recrutamento que abandonou os fóruns abertos e migrou para canais fechados como Telegram e Discord e para ambientes de jogos virtuais, onde adolescentes são cooptados aos poucos. Para a pesquisadora, a presença dessas ideias na política institucional fez os grupos perderem o medo da punição, e a saída passava por um acerto de contas com a memória histórica do país, o que ela resumia assim: “Não tivemos vergonha suficiente da nossa história como a Alemanha tem da dela. São momentos que precisam ser repassados historicamente, as pessoas fazem de conta que essas histórias não aconteceram.” Lembremos, o que condenou os Bolsonaros, não foram suas falcatruas, foram suas sombras, e tudo que tentavam esconder sob suas hipocrisias.



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