A juventude não quer andar para trás
Existe um motivo para a mobilização da juventude em defesa da reeleição do presidente Lula (PT) ter sido tão intensa neste segundo turno. Muito se fala sobre o espírito revolucionário, a esperança de mudar o planeta que existe em cada jovem e a necessidade de “cuidar da vida, cuidar do mundo”, como canta Milton Nascimento em “Coração de Estudante”. Tudo isso, é claro, está presente nas mobilizações democráticas que tomaram o Brasil nas últimas semanas. Mas, na minha visão, a razão para esse engajamento é, de certa forma, mais pragmática.
O jovem com consciência política e social, independentemente de ser de esquerda, direita ou centro, sabe que Flávio Bolsonaro representa o atraso. Juventude é sinônimo de esperança, e a esperança só existe quando há perspectivas de futuro. A juventude quer um Brasil com emprego, desenvolvimento industrial, justiça social e soberania. O projeto de país apresentado pelo candidato do Partido Liberal (PL), porém, segue na contramão de tudo isso.
A coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, já classificou o modelo de Javier Milei como um “exemplo” a ser seguido. A Argentina, sob esse modelo, enfrenta uma perspectiva de recessão, enquanto a pobreza cresce, as atividades industriais e comerciais perdem força e a população fica cada vez mais desamparada. No Brasil, a proposta do chamado “tesouraço” de Flávio Bolsonaro pode provocar uma retração de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e ameaçar mais de 2 milhões de empregos, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
A ameaça à democracia também representa um perigo para a juventude. Em livro publicado em 2017, Flávio Bolsonaro elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e negou que tenha ocorrido um golpe em 1964. Durante a ditadura militar, muitos jovens perderam a vida, foram perseguidos, torturados e privados de direitos fundamentais. As violências cometidas naquele período provocam indignação em qualquer pessoa que preserve um mínimo de humanidade. Na visão de mundo bolsonarista, porém, o sofrimento e o sacrifício de quem lutou contra a ditadura parecem ser tratados como mero “mimimi”.
O ponto central deste texto é que o Brasil não suporta mais retrocessos. Uma parcela significativa do terceiro mandato do presidente Lula foi dedicada à reconstrução do país depois da destruição provocada pelo governo Jair Bolsonaro. Mesmo diante desse desafio, o Brasil avançou em diferentes áreas. A juventude brasileira merece um horizonte de desenvolvimento, oportunidades e democracia, não a ameaça de ter de reconstruir novamente aquilo que já conquistou.
Para alcançar esse futuro, a luta será sempre necessária. A juventude quer mobilizar sua energia para construir um país mais desenvolvido, ampliar direitos, gerar empregos, fortalecer a indústria, combater as desigualdades e garantir que o Brasil tenha autonomia para decidir seus próprios caminhos. Quer discutir inovação, ciência, educação, cultura e oportunidades para as próximas gerações.
Não voltar a um cenário em que seja necessário sair às ruas para defender o óbvio, como a democracia, a liberdade, os direitos humanos e o respeito à vida. Seria inadmissível desperdiçar anos de luta tentando recuperar direitos ameaçados ou reconstruir instituições atacadas.
A juventude quer avançar, e não passar a vida inteira impedindo que o país ande para trás!
“Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor”
“Coração de Estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso.



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