Ataques de precisão do Irã atingem pontos vitais da infraestrutura do Golfo e derrotam planos de guerra dos EUA
247 – O Irã e organizações aliadas atingiram equipamentos essenciais da infraestrutura do Golfo em uma campanha que interrompeu exportações de petróleo e gás, paralisou instalações industriais e afetou sistemas de eletricidade e abastecimento de água. Uma investigação da Reuters identificou pelo menos 135 ataques com drones e mísseis contra 84 locais desde o início da agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano, em 28 de fevereiro.
O levantamento da agência aponta que a escolha de componentes estratégicos ampliou os efeitos dos bombardeios: danos a estruturas relativamente pequenas provocaram a suspensão de operações em complexos inteiros. Entre os alvos estavam sistemas de distribuição de petróleo, equipamentos de liquefação de gás, estações de bombeamento e instalações elétricas. Também foram atingidas rotas de exportação utilizadas para contornar o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz.
Os ataques alcançaram instalações na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, no Iraque, no Catar, no Kuwait, em Omã e no Bahrein. Algumas unidades precisarão de um ano ou mais para recuperar integralmente suas operações, segundo informações de empresas e avaliações reunidas pela Reuters.
A investigação ouviu 36 pessoas familiarizadas com os episódios e cruzou imagens de satélite, vídeos, fotografias, dados de radar e comunicados oficiais. A agência também submeteu suas conclusões a profissionais dos setores atingidos e especialistas em segurança.
Ryan Stevens, ex-coordenador de ataques aéreos de operações especiais do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, avaliou que a campanha demonstrou “precisão, conhecimento especializado em alvos e paciência”.
Porto fora de Ormuz sofreu pelo menos 19 ataques
Um dos principais exemplos é Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos. Situado fora do Estreito de Ormuz, o porto ganhou importância como alternativa para o escoamento de petróleo durante a guerra, mas foi atingido pelo menos 19 vezes, segundo a Reuters.
Os ataques comprometeram dois conjuntos de tubulações responsáveis por conectar terminais de armazenamento aos pontos de carregamento de navios. Um desses sistemas reúne 62 linhas destinadas à transferência de petróleo bruto e derivados.
Após as ofensivas de meados de março, o carregamento de petróleo em Fujairah caiu para 440 mil barris por dia na semana iniciada em 16 de março. O volume ficou abaixo da metade da média diária registrada em 2025, conforme dados da empresa de análise Kpler.
Ramanan Krishnamoorti, professor de engenharia de petróleo da Universidade de Houston, questionou a explicação de que os danos teriam sido provocados apenas por destroços de interceptações. Ao descrever a importância do equipamento atingido, afirmou: “Isso é uma ferida no cérebro e no coração”.
O porto chegou a recuperar suas exportações, mas novos ataques voltaram a comprometer as operações. Em 4 de maio, um drone atingiu tubulações ligadas a um dos sistemas já danificados em março. As exportações de derivados praticamente cessaram durante um mês: apenas um navio deixou o local entre o ataque e 1º de junho, segundo a Kpler.
A recuperação desse segmento ocorreu apenas em setembro. Naquele mês, Fujairah registrou uma média recorde de 2,62 milhões de barris por dia no conjunto de suas exportações.
Danos no Catar exigem reparos de até cinco anos
No Catar, os ataques ao complexo de Ras Laffan atingiram equipamentos que resfriam o gás natural até transformá-lo em líquido para transporte marítimo. Duas estruturas que abrigavam esses sistemas foram destruídas.
Em entrevista à Reuters em março, o presidente da QatarEnergy, Saad al-Kaabi, estimou que os reparos completos levariam de três a cinco anos. As ofensivas contra Ras Laffan ameaçaram instalações associadas a quase 20% do fluxo mundial de gás natural liquefeito.
Outros complexos com recuperação prolongada incluem a refinaria Pearl, que transforma gás em combustíveis líquidos no Catar, o complexo de gás de Habshan e a fundição de alumínio Al Taweelah, ambos nos Emirados Árabes Unidos.
Na unidade de alumínio, os ataques atingiram uma linha de produção e a central elétrica. A interrupção no fornecimento de energia paralisou todas as 1.262 cubas de redução, utilizadas na fabricação do metal.
A primeira cuba voltou a funcionar dois meses depois. Até o fim de agosto, apenas um quarto havia sido reativado, segundo a Emirates Global Aluminium. A empresa prevê o retorno da produção normal em 2027.
Usina nuclear precisou de geradores de emergência
A usina nuclear de Barakah, nos Emirados Árabes Unidos, também sofreu um ataque. Em 17 de maio, um drone atingiu uma instalação elétrica e obrigou um dos quatro reatores a recorrer a geradores a diesel, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Imagens analisadas pela Reuters mostraram danos no telhado de um edifício que abriga controles das linhas elétricas, a aproximadamente 130 metros de um dos reatores.
Durante visita aos Emirados, em 2 de junho, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, destacou o conhecimento necessário para executar a ação: “Isso significa que quem estava ou está por trás disso sabia exatamente o que estava fazendo”.
A operadora Emirates Nuclear Energy Corporation informou que os sistemas de segurança responderam conforme o previsto. Segundo a empresa, não houve feridos, liberação de material radioativo ou risco para a população e o meio ambiente.
Três autoridades ouvidas pela Reuters, uma iraniana e duas do Golfo, disseram que Teerã tinha informações sobre a planta da usina e a localização da subestação atingida. Os Emirados atribuíram o lançamento do drone a facções armadas no Iraque.
Kuwait teve instalações de água e energia atingidas
No Kuwait, a ofensiva alcançou refinarias, terminais, o aeroporto e unidades que combinam geração de eletricidade com dessalinização. A Reuters identificou ataques contra pelo menos quatro das oito instalações desse tipo entre 2 de março e 20 de julho.
O país obtém aproximadamente 90% de sua água potável por meio da dessalinização. A dependência torna as instalações especialmente importantes para o abastecimento da população.
A unidade de Al Subiya, responsável por cerca de 20% da água potável kuwaitiana, sofreu danos classificados como extensos por um especialista consultado pela agência após um ataque em 18 de julho.
Michael Christopher Low, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio da Universidade de Utah, afirmou que o Kuwait não dispõe de recursos hídricos naturais suficientes para substituir essas instalações. “Se uma parte suficiente da capacidade fosse atacada, estaríamos falando de ficar sem água em dias ou semanas”, disse.
O impacto também alcançou as exportações de energia. Em abril, o Kuwait não exportou petróleo bruto, algo que não ocorria desde 1991, segundo a empresa de monitoramento de petroleiros TankerTrackers.
Oleoduto saudita perdeu capacidade de contornar o bloqueio
Na Arábia Saudita, ataques ligados ao Irã danificaram cinco das nove maiores refinarias e três importantes centros de processamento de petróleo, de acordo com a investigação.
O oleoduto Leste-Oeste, que transporta petróleo até Yanbu, no Mar Vermelho, tornou-se uma rota fundamental para evitar Ormuz. Em 10 de setembro, um ataque atingiu três estações de bombeamento, destruiu uma delas e interrompeu o fluxo.
A ofensiva ameaçou uma rota capaz de transportar o equivalente a até 4% da oferta mundial de petróleo. O governo saudita atribuiu a ação a milícias do Iraque armadas e apoiadas pelo Irã.
A refinaria de Jazan, próxima à fronteira com o Iêmen, foi atingida pelo menos quatro vezes entre 25 de julho e 7 de setembro. Os danos alcançaram tanques de armazenamento e um complexo que produz gás utilizado para fornecer energia à refinaria. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, o processamento caiu a zero após os ataques.
Governos contestam alcance dos danos
A dimensão das perdas contrasta com comunicados oficiais que atribuíram prejuízos à queda de destroços de drones e mísseis interceptados. A Reuters identificou pelo menos 34 manifestações desse tipo.
Os 14 especialistas e profissionais que examinaram o material reunido pela agência consideraram altamente improvável que os danos a equipamentos essenciais em dezenas de instalações tivessem sido causados principalmente pela queda aleatória de fragmentos.
A investigação ressalva que, sem acesso presencial aos locais, nem sempre foi possível determinar a eficácia das defesas aéreas ou a extensão completa da destruição.
Em resposta, o porta-voz do Comando Central dos Estados Unidos, Tim Hawkins, afirmou que as forças americanas continuam apoiando parceiros regionais e que a interceptação de milhares de drones e mísseis salvou vidas. A missão iraniana junto às Nações Unidas em Genebra não respondeu aos questionamentos detalhados da Reuters.
Os Emirados defenderam esforços para reduzir as tensões. O Bahrein afirmou que as restrições à divulgação de imagens dos ataques buscam proteger a população, preservar investigações e impedir que o material seja utilizado no planejamento de novas ofensivas.
A exposição da infraestrutura energética já havia sido identificada décadas antes. Uma avaliação da CIA elaborada em 1983 e tornada pública em 2019 advertia que mesmo poucos ataques contra alvos bem escolhidos poderiam provocar danos consideráveis às instalações petrolíferas do Golfo.



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