Houthis atacam sede do governo do Iêmen e matam dois seguranças do premiê
247 – O primeiro-ministro do Iêmen, Shayea al-Zandani, escapou sem ferimentos de um ataque com mísseis realizado pelos houthis contra o palácio de Maashiq, na cidade de Áden, nesta quinta-feira (15). A ação deixou dois integrantes de sua equipe de segurança mortos e atingiu o complexo utilizado como sede do governo iemenita reconhecido internacionalmente.
As informações são do The New York Times, com base em declarações de autoridades iemenitas e sauditas. O ataque ocorre em meio à intensificação dos confrontos entre os houthis e as forças apoiadas pela Arábia Saudita, que tenta recuperar territórios estratégicos no litoral do mar Vermelho.
Em comunicado, Al-Zandani confirmou que o palácio de Maashiq foi atingido por mísseis. Não há confirmação de que o primeiro-ministro estivesse no complexo no momento do bombardeio. O ministro da Informação do Iêmen, Moammar al-Eryani, informou pelas redes sociais que dois integrantes da segurança do chefe de governo morreram.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram uma grande coluna de fumaça nas proximidades do palácio presidencial. A fumaça podia ser observada a mais de 1,6 quilômetro de distância, mas os registros não permitem estabelecer a dimensão dos danos provocados nas instalações.
O porta-voz militar dos houthis, Yahya Saree, reivindicou a operação e apresentou uma versão diferente sobre o objetivo do ataque. Segundo ele, os mísseis foram direcionados ao “quartel-general de operações militares do inimigo saudita em Áden”.
A declaração indica que o grupo considera a presença militar saudita na cidade um alvo de suas operações, em um momento de crescente envolvimento de Riad nos combates em território iemenita.
Arábia Saudita intensifica operações militares no Iêmen
Nas últimas semanas, aviões de guerra sauditas passaram a oferecer apoio aéreo às forças vinculadas ao governo iemenita em operações contra os houthis. A campanha busca recuperar posições estratégicas, especialmente nas regiões próximas ao mar Vermelho, uma das principais rotas comerciais marítimas do mundo.
A intervenção saudita ocorre em um cenário de agravamento das tensões regionais, marcado também pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã, país apontado como principal apoiador externo dos houthis.
Áden tornou-se sede do governo iemenita reconhecido internacionalmente em 2015, depois que os houthis assumiram o controle de Sanaa, a capital do país. Apesar disso, a administração vinculada ao Conselho de Liderança Presidencial, formado por oito integrantes, tem operado durante anos a partir de Riad, capital saudita.
A disputa pelo controle territorial do Iêmen permanece diretamente relacionada à intervenção militar estrangeira e à fragmentação das instituições políticas do país.
Houthis acusam sauditas de agressão e bloqueio contra o povo iemenita
O agravamento dos confrontos também provocou uma troca de acusações entre representantes sauditas e integrantes do movimento houthi.
Rayed Krimly, vice-ministro responsável pela diplomacia pública no Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita, responsabilizou o Irã pela intensificação dos ataques. Segundo ele, Teerã continua a “armar, treinar e apoiar os houthis”.
O diplomata declarou ainda que o governo saudita havia convidado representantes do movimento para negociações em Omã, mas que a proposta teria sido rejeitada.
A versão foi contestada por Dhaifullah al-Shami, representante político dos houthis, que negou a recusa e atribuiu a continuidade do conflito à atuação saudita em território iemenita.
“Se a Arábia Saudita quiser sair da situação difícil em que se encontra, deve pôr fim ao bloqueio e à agressão contra o povo iemenita”, declarou Al-Shami.
O posicionamento reforça a exigência dos houthis pelo encerramento das operações militares e das restrições impostas ao território iemenita como condição para uma redução das hostilidades.
Ataques atingem aeroportos e instalações petrolíferas sauditas
A escalada militar ultrapassou as fronteiras do Iêmen e passou a atingir diretamente instalações estratégicas da Arábia Saudita.
No sábado (10), os houthis realizaram o ataque mais letal registrado até então contra o território saudita nesta fase do conflito. Um míssil de cruzeiro atingiu o principal aeroporto de Riad, provocando a morte de pelo menos 13 pessoas.
O episódio evidenciou a capacidade do movimento de atingir infraestruturas importantes do reino, incluindo aeroportos, instalações petrolíferas e outras estruturas econômicas.
Em entrevista coletiva nesta quinta-feira, o major-general Turki al-Maliki, porta-voz da coalizão militar liderada pela Arábia Saudita, apresentou números sobre os ataques atribuídos aos houthis desde julho.
Segundo o militar, o grupo disparou mais de mil mísseis balísticos e mais de 1.100 drones contra o território saudita. As operações teriam provocado 19 mortes e deixado quase 400 feridos.
Al-Maliki também afirmou que os houthis desenvolveram uma capacidade militar incomum entre grupos armados não estatais, passando a utilizar mísseis balísticos, drones explosivos e embarcações carregadas de explosivos.
De acordo com o porta-voz, esses equipamentos foram obtidos “com a ajuda de atores regionais”. A expressão é frequentemente utilizada por autoridades sauditas em referências indiretas ao Irã.
As acusações fazem parte da disputa política e militar entre Riad e Teerã, cujos interesses estratégicos se confrontam no Iêmen e em outras áreas do Oriente Médio.
Bombardeios sauditas também deixam mortos no Iêmen
Enquanto a Arábia Saudita denuncia os ataques contra seu território, os houthis acusam as forças sauditas de atingir instalações civis e estruturas econômicas iemenitas.
Na semana passada, veículos de comunicação vinculados ao movimento afirmaram que a aviação saudita bombardeou um aeroporto em Sanaa, cidade sob controle dos houthis.
Na terça-feira (13), ataques sauditas atingiram uma instalação petrolífera em Hodeida, importante cidade portuária controlada pelo grupo na costa do mar Vermelho.
Segundo um porta-voz do Ministério da Saúde administrado pelos houthis, pelo menos duas pessoas morreram nessa operação.
O porto de Hodeida tem importância estratégica para o abastecimento do território iemenita e para as operações comerciais no mar Vermelho, região que concentra parte relevante do tráfego marítimo internacional.
A sucessão de ataques contra instalações militares, aeroportos e estruturas energéticas demonstra a ampliação geográfica do confronto, com repercussões tanto no Iêmen quanto na Arábia Saudita.
O bombardeio ao palácio de Maashiq representa mais um episódio dessa escalada, em um contexto no qual as operações militares sauditas e a resposta dos houthis dificultam a retomada de negociações para encerrar a guerra.



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