Houthis exigem fim do bloqueio ao Iêmen e prometem reagir a ataques sauditas com “olho por olho”
247 – O ministro interino das Relações Exteriores da administração houthi no Iêmen, Abdulwahid Abu Ras, afirmou que o movimento continuará atacando aeroportos, instalações petrolíferas e posições militares da Arábia Saudita enquanto o governo saudita mantiver suas operações militares e restrições ao território iemenita. O dirigente condicionou o fim das hostilidades à suspensão do bloqueio imposto ao país e à retirada das forças sauditas.
Em entrevista exclusiva à RT, concedida ao editor-chefe da RT India, Ashok Bagriya, Abu Ras declarou que os houthis adotaram uma estratégia de retaliação proporcional às ações militares sauditas. O ministro também manifestou disposição para negociar diretamente com Riade, mas advertiu que a continuidade das operações militares provocará novas respostas do movimento.
“Cerco por cerco, aeroporto por aeroporto, porto por porto e escalada por escalada”, afirmou Abu Ras, ao descrever a política de resposta militar dos houthis, baseada no princípio de “olho por olho”.
As declarações ocorrem após uma nova escalada de confrontos entre os houthis e a coalizão liderada pela Arábia Saudita. Ataques reivindicados pelo movimento contra o Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, deixaram pelo menos 14 mortos e mais de 300 feridos durante o último fim de semana, segundo as informações divulgadas pela RT.
Na terça-feira (13), a coalizão saudita realizou um ataque contra um depósito de combustível nas proximidades de Sanaa, capital iemenita. A operação ocorreu em meio à intensificação dos confrontos e à retomada de ataques contra infraestruturas consideradas estratégicas pelos dois lados.
Houthis exigem fim do bloqueio e retirada das forças sauditas
Abu Ras afirmou que a suspensão das restrições impostas aos aeroportos e portos iemenitas constitui uma condição fundamental para qualquer entendimento destinado a encerrar o conflito.
“Nossas linhas vermelhas são que o bloqueio ao Iêmen, aos nossos aeroportos e aos nossos portos não deve continuar”, declarou.
Além da suspensão do bloqueio, o ministro exigiu que o país tenha acesso aos seus recursos de petróleo e gás. Segundo a posição apresentada pelo dirigente, a normalização das atividades econômicas e do transporte é indispensável para a construção de um acordo com a Arábia Saudita.
A administração houthi também reivindica a retirada das forças sauditas do território iemenita, considerando essa medida necessária para interromper as operações militares.
Apesar das ameaças de novos ataques, Abu Ras afirmou que seu governo continua disposto a negociar diretamente com Riade. O ministro acusou a Arábia Saudita de não cumprir compromissos humanitários anteriormente estabelecidos e defendeu a implementação dos entendimentos já alcançados.
“Convidamos o regime saudita a sentar-se à mesa de negociações para implementar o que foi acordado”, declarou.
O representante houthi também defendeu que instalações destinadas ao atendimento humanitário sejam preservadas dos confrontos militares.
Escalada interrompe período de relativa estabilidade
A retomada dos confrontos começou em julho, quando ataques contra o aeroporto de Sanaa foram seguidos por lançamentos de mísseis houthis em direção ao território saudita.
Os episódios romperam um período de relativa estabilidade que havia prevalecido desde o cessar-fogo mediado pelas Nações Unidas em 2022.
Embora a trégua não tenha resultado em um acordo político definitivo, ela contribuiu para reduzir a intensidade das operações militares entre as partes durante os anos seguintes.
A nova escalada levou o enviado especial da ONU para o Iêmen, Hans Grundberg, a advertir, na semana passada, que o país havia retornado a uma situação de guerra em grande escala.
A avaliação evidencia o risco de agravamento de um conflito prolongado, marcado pela disputa territorial, pela atuação de diferentes forças militares e por uma grave crise humanitária.
As recentes operações contra aeroportos, depósitos de combustível e outras estruturas estratégicas também aumentam as dificuldades para uma solução negociada, diante das exigências apresentadas pelos houthis e da continuidade das ações militares sauditas.
Governo houthi descarta cobrança de taxas no estreito de Bab el-Mandeb
Outro ponto abordado por Abu Ras foi a situação do estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima estratégica que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e integra uma das principais rotas comerciais entre a Ásia e a Europa.
Segundo a RT, os houthis passaram a controlar a passagem após recentes avanços militares ao longo da costa iemenita.
O ministro descartou, entretanto, a possibilidade de a administração de Sanaa estabelecer pedágios ou taxas sobre embarcações comerciais que utilizam a rota.
“Isso está fora de questão… Sanaa está empenhada em manter a rota de navegação e o tráfego comercial em Bab el-Mandeb completamente normais em todos os sentidos”, afirmou.
A declaração procura afastar a possibilidade de novas restrições comerciais na passagem marítima, cuja importância estratégica aumentou diante das tensões militares no Oriente Médio.
Bab el-Mandeb constitui um ponto essencial para o transporte internacional de mercadorias e petróleo. Interrupções no tráfego pela região podem afetar cadeias de abastecimento, elevar custos logísticos e provocar desvios de rotas comerciais.
A posição apresentada por Abu Ras, contudo, não elimina os riscos associados à continuidade das operações militares nas proximidades da passagem.
Ministro rejeita vinculação da guerra ao conflito entre Estados Unidos e Irã
Abu Ras também procurou desvincular os confrontos no Iêmen da disputa entre os Estados Unidos e o Irã, país apontado como principal apoiador regional dos houthis.
Segundo o ministro, as decisões militares e políticas do movimento respondem às condições internas do Iêmen e não devem ser interpretadas como parte de uma estratégia determinada por Teerã.
“A posição do Iêmen é uma posição declarada a respeito de sua causa interna, sua causa nacional… que nada tem a ver com qualquer agenda externa”, afirmou.
O dirigente sustentou que eventuais negociações entre Washington e Teerã não alteram automaticamente as reivindicações apresentadas pela administração houthi.
“Se os irmãos da República Islâmica do Irã chegarem a uma solução com o lado americano ou não, isso é uma questão completamente à parte”, declarou.
A posição expressa pelo ministro busca apresentar a campanha militar dos houthis contra a Arábia Saudita como uma disputa relacionada à soberania, ao bloqueio e ao controle dos recursos iemenitas, independentemente dos desdobramentos diplomáticos entre Estados Unidos e Irã.
Houthis acusam Reino Unido de favorecer ações sauditas na ONU
Durante a entrevista, Abu Ras também criticou a atuação do Reino Unido no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O ministro acusou Londres de adotar posições hostis à administração houthi e de oferecer respaldo diplomático às operações conduzidas pela Arábia Saudita no Iêmen.
Segundo ele, a postura britânica contribui para legitimar internacionalmente as ações sauditas e dificulta os esforços destinados à redução das hostilidades.
“Tais intervenções complicam ainda mais o conflito e arrastam a região para um conflito potencialmente maior, o que pode levar a repercussões e consequências que afetam a todos”, advertiu.
As declarações reforçam a posição da administração houthi de que um acordo para encerrar os confrontos depende não apenas de negociações militares com Riade, mas também de mudanças nas condições impostas ao Iêmen.
Ao mesmo tempo em que ameaça manter ataques retaliatórios contra alvos sauditas, o movimento afirma que uma solução diplomática continua possível, desde que suas exigências sobre bloqueio, presença militar estrangeira e acesso aos recursos nacionais sejam atendidas.


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