PGR suspeita que áudio de Vorcaro sobre Lula foi gravado ilegalmente para uso nas eleições
247 – Procuradores familiarizados com as investigações do Banco Master suspeitam que um áudio atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, no qual ele faz acusações envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tenha sido gravado ilegalmente na prisão para utilização durante a campanha eleitoral de 2026. A desconfiança envolve tanto a origem do registro quanto sua divulgação no período eleitoral, segundo informações publicadas nesta sexta-feira (9) pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
A gravação, divulgada pela revista Veja, apresenta declarações atribuídas a Vorcaro sobre um suposto esquema de pagamento de propinas que teria destinado R$ 30 milhões à produção de um documentário sobre Lula, dirigido pelo cineasta norte-americano Oliver Stone. De acordo com a coluna, integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) consideram que o áudio pode ter sido produzido de maneira irregular, uma vez que as normas de segurança da unidade prisional onde o ex-banqueiro está detido proíbem visitantes de entrar com celulares ou equipamentos de gravação.
A suspeita também é compartilhada por parte dos advogados de Vorcaro. Entre os 23 profissionais que integram sua defesa, alguns avaliam que o registro pode ter sido feito ilegalmente em um momento anterior e divulgado apenas agora, com a intenção de interferir na disputa presidencial.
Os investigadores e advogados consultados pela coluna também contestam a informação de que as acusações presentes na gravação tenham integrado as propostas de colaboração premiada apresentadas pelo ex-banqueiro. Segundo esses relatos, Vorcaro não formalizou as alegações sobre o financiamento do documentário em suas tentativas de negociar uma delação.
PGR e defesa questionam origem da gravação
As circunstâncias em que o áudio teria sido produzido são um dos principais pontos de dúvida. Entre as hipóteses consideradas por integrantes da defesa está a possibilidade de que agentes públicos, advogados ou visitantes tenham realizado a gravação sem autorização.
Vorcaro está preso na Papudinha, em Brasília, onde as regras de segurança impedem o ingresso de visitantes com equipamentos destinados à captação de áudio. A eventual produção clandestina do registro nesse ambiente poderia configurar uma irregularidade.
Os procedimentos adotados em outras etapas da prisão, entretanto, eram diferentes. Quando o ex-banqueiro estava sob custódia da Polícia Federal, seus advogados tinham autorização para utilizar computadores e gravadores durante encontros relacionados às negociações de colaboração premiada.
Na Papudinha, também existe a possibilidade de conversas por vídeo que poderiam ser gravadas. Essas circunstâncias ampliam as dúvidas sobre quando, onde e por quem o material foi produzido.
Até o momento, as informações disponíveis não permitem estabelecer com segurança a autoria da gravação, sua data ou as condições em que foi realizada.
Acusações sobre documentário não foram formalizadas em delação
O conteúdo divulgado pela Veja atribui a Vorcaro a afirmação de que teria negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento de propinas para obter acesso a fundos de pensão de servidores federais.
Segundo essa versão, parte dos recursos, no valor de R$ 30 milhões, teria sido destinada ao financiamento do documentário Lula, dirigido por Oliver Stone.
A equipe do cineasta rejeita qualquer participação financeira do ex-banqueiro no projeto. Seus representantes afirmam que nunca solicitaram ou receberam dinheiro de Vorcaro e que tampouco tiveram conhecimento de uma suposta solicitação de recursos.
A campanha de Lula também nega as alegações e levantou a possibilidade de adulteração do áudio. A Polícia Federal já foi acionada para investigar a origem do material.
A apuração da Folha aponta que Vorcaro chegou a mencionar, em conversas com advogados, supostas contribuições financeiras para produções cinematográficas sobre Lula, Jair Bolsonaro e Michel Temer.
Esses relatos, entretanto, não teriam sido acompanhados de provas nem de explicações detalhadas sobre como os pagamentos teriam ocorrido. Por essa razão, segundo os advogados consultados, as informações não foram incorporadas às propostas de delação encaminhadas à PGR e à Polícia Federal.
Polícia Federal nega recebimento de depoimentos ou documentos
A Polícia Federal negou que Vorcaro tenha prestado depoimento ou apresentado documentos sobre um suposto financiamento do filme de Oliver Stone durante suas tentativas de colaboração premiada.
A PGR também informou que não houve depoimento oral do ex-banqueiro no procedimento. Em nota, o órgão declarou que “não houve depoimento oral de Vorcaro justamente por conta da rejeição da proposta”, referindo-se à tentativa de acordo de colaboração premiada.
A Procuradoria acrescentou que “respeita o sigilo que se impõe, por lei ao procedimento de colaboração premiada havido”.
As manifestações contrariam a interpretação de que as acusações divulgadas na gravação já teriam sido formalmente apresentadas aos investigadores como parte de uma colaboração.
Vorcaro também mencionou produções sobre Bolsonaro e Temer
As conversas relatadas por integrantes da defesa não teriam se limitado ao documentário sobre Lula. O ex-banqueiro também teria mencionado contribuições para filmes relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao ex-presidente Michel Temer.
Um dos projetos citados é Dark Horse, produção dedicada à trajetória de Bolsonaro. Somente depois que informações sobre o financiamento desse documentário se tornaram públicas, Vorcaro apresentou esclarecimentos à PGR.
Segundo a apuração, essas explicações não incluíram acusações contra Flávio Bolsonaro (PL).
A ausência de documentos comprobatórios e de relatos formalizados nas propostas de delação é considerada um elemento relevante pelos procuradores e advogados que questionam o conteúdo divulgado.
A investigação solicitada pela campanha de Lula à Polícia Federal deverá esclarecer a procedência do áudio e as circunstâncias de sua produção, enquanto permanecem sem comprovação as alegações atribuídas a Vorcaro sobre o financiamento do documentário.



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