Ganhadora do Nobel da Paz liderou comissão da ONU que denunciou Israel por genocídio em Gaza
247 – O Prêmio Nobel da Paz 2026 foi concedido nesta sexta-feira (9) à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, que presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito contratada pela ONU e determinou que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza durante os anos de guerra contra o grupo Hamas.
A escolha da sul-africana provocou reação imediata e críticas do governo de Israel. Em comunicado oficial, o Ministério das Relações Exteriores israelense afirmou que a concessão da premiação a Pillay legitima “o ódio e o preconceito anti-Israel”. “Se houvesse um prêmio para mentiras, ódio e libelos sanguíneos, Navi Pillay não seria apenas uma concorrente. Ela seria uma das principais favoritas”, declarou o ministério. O órgão israelense acrescentou ainda: “Conceder o Prêmio Nobel da Paz a Pillay não é um reconhecimento da justiça. É a grotesca instrumentalização de um prêmio para legitimar o ódio e o preconceito anti-Israel”.
O anúncio oficial foi realizado pelo Comitê Norueguês do Nobel, em Oslo. O presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes, afirmou que a jurista foi laureada “por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional”. Durante sua carreira de cinco décadas como advogada e juíza, Pillay garantiu que Nelson Mandela tivesse acesso a um advogado quando estava preso durante o Apartheid, tornou-se a primeira mulher não branca na Suprema Corte da África do Sul, julgou o genocídio em Ruanda, chefiou a área de direitos humanos da ONU e presidiu o comitê da ONU sobre a Palestina e Israel.
“O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão”, destacou Frydnes durante o anúncio da vencedora.
Em suas declarações, Frydnes sinalizou uma postura crítica em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao afirmar que a premiação foi “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional”. Quando questionado diretamente por uma jornalista sobre se a escolha era um recado para o mundo, o presidente do comitê confirmou o teor da decisão: “esta é uma mensagem de que o direito internacional e suas instituições são fundamentais para um mundo mais pacífico. Portanto, esperamos que este prêmio também fortaleça as instituições e as pessoas, não apenas Navi Pillay, mas especialmente ela. Esta é uma mensagem para aqueles que não respeitam este tribunal. Com certeza. É uma mensagem para aqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional, o sistema internacional baseado no Estado de Direito e suas instituições. Sem dúvida nenhuma”.
Após tomar conhecimento da premiação, Pillay fez um breve discurso em que brincou de forma irônica sobre dividir o Nobel da Paz com Donald Trump. A laureada declarou-se surpresa com a escolha e defendeu os direitos humanos. Pillay é a 21ª mulher a receber o Nobel da Paz entre um total de 144 vencedores. Além da medalha, receberá 12 milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6 milhões). A jurista só soube da conquista após o anúncio público, levando Frydnes a brincar na cerimônia pedindo para que ela “atendesse o telefone”.
A concessão do prêmio foi celebrada por diversas autoridades internacionais. A presidente do Tribunal Penal Internacional (TPI), Tomoko Akane, parabenizou Pillay, enquanto a procuradora-geral adjunta do TPI, Nazhat Shameem Khan, definiu a premiação como “uma homenagem aos direitos humanos”. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, afirmou que a honraria representa “uma vitória coletiva dos direitos humanos e da justiça”. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também felicitou a jurista.
A carreira de Navanethem Pillay começou nos tribunais sul-africanos durante o regime segregacionista do Apartheid, vigorado entre as décadas de 1940 e 1990. O Congresso Nacional Africano (CNA) a descreve como uma ativista anti-apartheid cuja trajetória se confunde com a história da libertação sul-africana. Após assegurar assistência jurídica a Nelson Mandela no cárcere, foi nomeada por ele para a Suprema Corte sul-africana.
A partir de 1995, Pillay expandiu sua atuaçao internacional, tornando-se juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) e da Corte Internacional de Justiça (CIJ), além de presidir o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, responsável por julgar os envolvidos no genocídio de 1994 naquele país. Entre 2008 e 2014, exerceu o cargo de Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. Recentemente, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o território palestino ocupado, Jerusalém Oriental e Israel.
O processo de escolha envolveu 287 candidatos nesta edição, sendo 208 pessoas e 79 organizações. Os nomes dos postulantes são mantidos sob sigilo de 50 anos em um cofre no Instituto Nobel da Noruega. A seleção é conduzida de forma independente por cinco pessoas nomeadas pelo Parlamento da Noruega, sem vínculo com o governo norueguês.
A escolha de Pillay ocorre em um contexto em que Donald Trump novamente não foi contemplado, apesar de suas recorrentes pretensões. Nesta semana, o presidente norte-americano voltou a defender sua candidatura declarando que “impediu a destruição total do mundo”. Em 2025, o governo norte-americano realizou campanha institucional para sua premiação sob a alegação de encerramento de conflitos. Em janeiro deste ano, Trump enviou carta ao governo da Noruega responsabilizando o país pela não obtenção do prêmio e afirmando “não se sentir mais obrigado a pensar apenas na paz”.



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