O País dos otários ou dos sem-noção
Eu sou da geração que viveu na ditadura militar (1964-1985) durante a infância, a adolescência e grande parte dos meus 20 anos, vividos na década de 1980. Ao fim da ditadura militar, nós, brasileiras e brasileiros, tivemos que engolir a fórceps, em 1985, uma “eleição” indireta, além de padecermos com a morte do oposicionista Tancredo Neves e a ascensão de seu vice, José Sarney, ao poder central da República.
O político maranhense era uma influente liderança civil e de direita em âmbito nacional. Tratava-se de um aliado dos generais da ditadura, cujo partido, o PDS, que tinha origem na UDN e na Arena, era a base de sustentação dos milicos, que tomaram de assalto a Presidência da República por longos e dolorosos 21 anos.
Não se discutia política de forma livre no Brasil por medo e precaução, porque era essa a atmosfera pesada de um país que temia sua própria sombra e que tinha suas mais importantes e principais lideranças democráticas, progressistas e nacionalistas fora do Brasil, porque estavam exiladas, ameaçadas, presas, demitidas, torturadas, perseguidas e mortas, de acordo com a história de cada pessoa.
Eu era um cidadão brasileiro jovem, mas percebia as dificuldades no que diz respeito a se manifestar de maneira livre e plural, seja por palavras faladas ou escritas, assim como, em termos econômicos, os sucessivos mandatários militares determinavam, juntamente com suas equipes de civis a serviço da grande burguesia brasileira, como concentrar brutalmente renda e riqueza e, com efeito, privilegiar e beneficiar o empresariado nacional e internacional, sendo que muitos de seus integrantes financiaram a tortura, alguns com direito de ficar na “plateia” dos porões ou simplesmente como cúmplices efetivos das ações de repressão militar e policial.
A bem da verdade, o Brasil teve poucos homens e mulheres no poder que pensaram no desenvolvimento da economia e na defesa da soberania do país. Os que tentaram colocar a cabeça para fora sofreram retaliações sórdidas e agruras que marcaram suas próprias vidas e mortes. Este país é independente apenas pró-forma, mas a realidade é que temos uma casa-grande inimiga da nação e que deseja eternamente apenas controlar a economia, ter muito dinheiro no bolso ou no cofre e usufruir da mão de obra barata e com pouca escolaridade, além de fazer do Estado um instrumento de seus interesses, e não dos interesses da população.
Para isso, as classes privilegiadas e abastadas deste país rico de povo pobre batem com força, pegam pesado e apresentam seus candidatos, que farão o papel sujo enquanto estiverem no poder a serviço da casa-grande secularmente escravocrata, que odeia direitos e, por isso, baba de ódio quando se trata de tentar aniquilar a Constituição, a CLT, o INSS (Previdência) e todos e quaisquer códigos ou leis que protejam e deem garantias aos trabalhadores, aos aposentados, às minorias e às pessoas pobres.
O negócio dessa gente se resume a atender às ordens de Washington (EUA) para, dessa forma, se associar ao status quo global e, com isso, ter vantagens econômicas e financeiras, além de garantir que o regime político e ideológico dominante imponha a mais-valia e efetive a extinção de direitos, de maneira a favorecer ainda mais os ricos e os muito ricos.
As consideradas classes hegemônicas deste país têm, incrivelmente, o apoio dos otários das classes baixa e média, que são os propagadores e defensores de ideias e ações das “elites” econômicas nos diferentes espaços da sociedade, que transformam pessoas assalariadas e autônomas em indivíduos alienados sobre suas próprias classes e respectivas realidades, pois são vítimas de si mesmas. Trata-se do suicídio cognitivo, que leva à falta de consciência de classe. Surreal.
Para isso, os grupos de direita e de extrema direita que estão com Flávio Bolsonaro, por exemplo, distorcem a realidade e, mesmo sendo o núcleo desse sistema de exploração humana, eles se dizem contra o sistema que, na verdade, controlam por meio dos poderes político, econômico e midiático.
A verdade é que parcela importante das pessoas pobres e da classe média, além de trabalhadores, assalariados e aposentados, dentre inúmeras realidades quanto às condições de vida de dezenas de milhões de brasileiros, não reconhece suas posições reais na economia e na sociedade e passa a defender as ideias e os valores dos políticos que beneficiam os donos do dinheiro, em vez de se alinhar às suas próprias camadas sociais.
Em resumo: muitas pessoas não têm discernimento sobre sua posição social e seus papéis na produção de riquezas. Vendem sua força de trabalho a fim de receber salário e, por causa disso, são chamadas de trabalhadoras. Porém, mesmo sabendo que são os patrões que têm terras, empresas e fábricas, tais empregados, além dos pequenos e microempreendedores, tomam para si os valores e princípios daqueles que exploram seu trabalho.
Por sua vez e com efeito, essas pessoas incoerentes em relação às suas realidades se tornam propagandistas do grande capitalista, que financia políticos que trabalham para que ele tenha seus interesses concretizados nos fóruns públicos da nação, a exemplo do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Enfim, são o pobre e o remediado (classe média) dando tiros nos próprios pés.
O Brasil, ao que parece, está prestes a se autoimolar, ou seja, veremos o martírio dos idiotas, que não compreendem a si mesmos no que se refere à classe à qual pertencem. Se há algum desavisado metido a “modernoso”, que fique sabendo que a luta de classes é intrínseca e inerente ao ser humano e que os preconceitos são embalados nos berços da humanidade milenarmente.
Não é brincadeira nem uma pegadinha o que vai acontecer de mal ao Brasil se Flávio Bolsonaro vencer as eleições. O povo brasileiro vai comer na palma da mão de quem o despreza e o odeia profundamente. Até quem votou nesse irresponsável e inconsequente, acusado e denunciado por ter cometido inúmeros crimes, além de ser pego com a boca na botija ao ser gravado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro bandido, vai comer fogo e ver com quantos paus se faz uma canoa quando não se tem consciência política nem de classe social.
A verdade é que poderá novamente acontecer o desmonte e o desmanche do Brasil em todos os segmentos e setores estatais, no campo econômico e na sociedade civil. Os brasileiros ficarão desprotegidos porque perderão suas garantias e direitos se o filho de um político golpista e de essência fascista se tornar presidente da República. Flávio Bolsonaro é o filho de um ex-presidente que se encontra preso justamente por conspirar contra o Brasil, o presidente Lula e seus milhões de eleitores. A família Bolsonaro é, antes de tudo, traidora do Brasil e subalterna aos EUA como um sabujo.
Eleger Flávio Bolsonaro é como dar carne com as mãos diretamente a hienas selvagens e depois perceber tardiamente que ficou, inclusive, sem os braços. Ele já anunciou o que fará e, pelo que se vê e se observa, não fará nada que possa beneficiar o povo brasileiro e lutar por um Brasil soberano.
Esse sujeito sem experiência e irresponsável foi criado a pão de ló, a mamar em um eterno frenesi com sua família nas tetas do Estado, que eles, hipocritamente, detestam, porque sempre favoreceram os interesses da iniciativa privada, a fazer do Estado um instrumento para enriquecer ainda mais os ricos.
O Brasil se mostra como a terra dos otários e dos sem-noção se deixar um sujeito despreparado e desqualificado como Flávio Bolsonaro colocar o país de joelhos. Sem dúvida, ficaremos a reboque dos Estados Unidos e a servir a seus interesses com as riquezas do país e o trabalho do povo brasileiro. Flávio é a síntese do barbarismo, do desrespeito, da violência e do entreguismo em forma de colonização do Brasil. Flávio é a corrupção da brasilidade, da autonomia, a alienação da identidade nacional e da soberania do nosso povo. Votar em Flávio Bolsonaro é votar na própria derrota e na submissão da civilização brasileira. É isso aí.


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