Perdi um dos meus melhores AMIGOS
Perdi hoje um dos meus melhores AMIGOS. Márcio Chaer foi meu AMIGO por quase 30 anos. E, diante de uma perda tão brutal, inesperada e absurda, é difícil encontrar palavras capazes de traduzir o tamanho do vazio.
Não quero falar aqui do grande jornalista. Não quero falar do profissional extraordinário, do pioneiro que criou o Consultor Jurídico e praticamente inventou uma nova maneira de fazer a cobertura especializada do Judiciário brasileiro. Outros já falaram, e ainda falarão muito, sobre esse legado.
Chaer foi homenageado pelas mais altas autoridades da República. Ministros do Supremo Tribunal Federal, integrantes dos tribunais superiores, magistrados, advogados e grandes nomes do mundo jurídico reconheceram sua coragem, seu pioneirismo, sua independência e sua defesa do Estado Democrático de Direito.
Tudo isso é verdade.
Mas hoje eu quero falar do AMIGO.
Do AMIGO com letras maiúsculas.
Do AMIGO presente em todos os momentos. Do AMIGO que telefonava, que aparecia, que perguntava, que se preocupava. Do AMIGO sempre disposto a ajudar, sem fazer contas, sem perguntar o que receberia em troca.
Chaer tinha uma característica que talvez explique tanto o jornalista quanto o homem: não suportava a injustiça.
Se soubesse que alguém estava sendo vítima de uma injustiça, imediatamente se mobilizava. Não precisava ser um AMIGO íntimo. Bastava perceber que alguma coisa estava errada. Chaer queria entender, queria ajudar, queria encontrar uma saída.
E, de forma quase inacreditável, foi assim também no último momento de sua vida.
Chaer morreu perseguindo um garoto que havia roubado um celular que nem sequer era dele.
O telefone não era de Chaer. Ainda assim, diante de uma injustiça praticada contra outra pessoa, ele reagiu. Foi atrás. Durante a perseguição, sofreu o infarto que lhe tirou a vida.
Este era Chaer.
Até no instante final, não conseguiu ficar indiferente diante do que considerava errado.
Um AMIGO da vida
Nossa amizade atravessou quase três décadas. Tempo suficiente para que a relação profissional desaparecesse diante de algo infinitamente maior: a vida compartilhada.
Chaer, junto de seus melhores AMIGOS, Liliane e Isaac, esteve presente em todos os aniversários que promovemos em nossa casa. E eu estive presente em todos os aniversários que ele organizou para seu amado filho, Léo. Estivemos juntos nas Copas do Mundo, quando o Brasil vencia, e quando o Brasil perdia. Viajamos juntos, cobrimos grandes eventos em parceria e, numa viagem internacional, quando passei mal em pleno voo, mais do que AMIGO, ele foi meu médico, enfermeiro e cuidador.
Éramos também parceiros de uma confraria de amigos mensais, cujo próximo almoço estava previsto para esta terça-feira, logo após as eleições.
O que Chaer representou para quem o conheceu diz mais do que qualquer currículo. Porque um verdadeiro AMIGO não existe apenas nos grandes acontecimentos. O AMIGO está nos aniversários, nos almoços, nas conversas demoradas, nos telefonemas inesperados, nas preocupações compartilhadas, nas alegrias dos filhos, nos problemas que aparecem pelo caminho e, principalmente, na certeza de que, quando precisarmos, haverá alguém do outro lado.
Chaer era esse AMIGO.
Era alguém que estava lá.
Sempre.
E quem teve a felicidade de ser seu AMIGO sabe exatamente do que estou falando.
Um coração gigantesco
Por trás da personalidade forte, do jornalista combativo, do homem que jamais hesitava diante de uma batalha que considerasse justa, havia um ser humano de coração gigantesco e generoso.
Chaer gostava das pessoas.
Gostava de juntar gente. Gostava dos AMIGOS. Gostava das conversas, dos encontros, das comemorações. E gostava, sobretudo, de ajudar.
Era profundamente leal.
Talvez por isso tenha construído tantos AMIGOS no jornalismo, no Direito e em tantos outros ambientes. Não eram apenas contatos profissionais acumulados ao longo de uma carreira extraordinária. Eram vínculos humanos construídos durante uma vida inteira.
Hoje, centenas de pessoas sentem que perderam um AMIGO.
Eu perdi um dos meus melhores AMIGOS.
E há uma diferença brutal entre saber racionalmente que todos nós morreremos um dia e receber, de repente, a notícia de que alguém que fazia parte da paisagem permanente da nossa vida simplesmente não estará mais aqui.
É difícil aceitar.
Quase 30 anos que não terminam hoje
Olho para esta fotografia de nós dois e penso em tudo o que vivemos nesses quase 30 anos.
É uma parte enorme de uma vida.
As conversas, as festas, as preocupações, as gargalhadas, as histórias, as pessoas que conhecemos, as batalhas que acompanhamos, as mudanças pelas quais o Brasil passou e, sobretudo, a amizade que permaneceu.
Por isso, não quero me despedir hoje do jornalista Márcio Chaer.
O jornalista permanecerá na história. Sua obra está construída. O ConJur existe. Tudo o que ele fez pela imprensa, pelo Direito e pelo Estado Democrático de Direito brasileiro será lembrado.
Quero me despedir do meu AMIGO.
Do homem generoso que esteve ao meu lado durante quase três décadas. Do AMIGO que esteve na minha casa, que acompanhou minha família, que abriu sua casa e sua vida para mim, que celebrou comigo e que eu sabia que estaria presente se amanhã eu precisasse de sua ajuda.
É essa ausência que dói.
E talvez a maneira como ele morreu diga, de forma dolorosamente perfeita, quem ele foi.
Um celular foi roubado. Não era dele. Poderia simplesmente ter seguido seu caminho.
Mas Chaer não era assim.
Foi atrás.
Porque a injustiça contra o outro também o incomodava.
Este era Chaer.
Algumas pessoas passam pelas nossas vidas. Outras se tornam parte delas.
Márcio Chaer se tornou parte da minha.
Foram quase 30 anos de amizade.
Quase 30 anos com um verdadeiro AMIGO.
E isso nem a morte apaga.
Meu querido Chaer, meu AMIGO, você jamais será esquecido.



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