A eleição sitiada: quando vencer não basta
A votação escolhe o presidente. Pode não encerrar o conflito. A eleição de 2026 chega às urnas com o candidato do PL atacando as instituições que vão fiscalizar e proclamar o resultado, enquanto Washington já transformou decisões brasileiras em motivo para sanções, tarifas e financiamento político no exterior.
O alvo não é a urna, é a legitimidade
No começo da tarde deste sábado, a menos de vinte e quatro horas da abertura das urnas, Flávio Bolsonaro terminou uma motocarreata no interior de São Paulo e atacou o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal e o Congresso. Disse que ministros do STF dão “canetadas” para ajudar Lula, chamou a Corte de “delegacia de polícia”, acusou uma parte da PF de perseguir adversários e afirmou que o Congresso está capturado. Depois falou em pacificação. Perguntado se aceitaria uma derrota neste domingo, não respondeu. Em agosto, numa entrevista à BandNews, havia dito que aceitaria o resultado. Na véspera da votação, não reiterou o compromisso.
A cena não nasceu de uma improvisação de campanha. Flávio disputa a Presidência como herdeiro de um campo político que já colocou o sistema eleitoral no centro de uma tentativa de ruptura. Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE em 2023 depois de usar a Presidência e a estrutura pública para reunir embaixadores no Palácio da Alvorada e atacar sem provas as urnas eletrônicas. Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo o condenou, por quatro votos a um, a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O STF o apontou como líder da organização criminosa julgada no núcleo central da trama.
Em 2022, o ataque mirava diretamente a confiabilidade da urna. Em 2026, o centro de gravidade se deslocou. O discurso de Flávio atinge quem julga, investiga, retira conteúdo do ar, organiza a eleição e proclama o vencedor. O equipamento continua importante, mas a disputa sobre a autoridade do árbitro ganhou uma centralidade nova. Uma eleição pode ser tecnicamente íntegra e ainda assim entrar numa batalha política sobre quem tem legitimidade para dizer que o resultado vale.
O cancelamento do último debate da Globo mostrou a velocidade dessa mudança. Lula havia informado que não compareceria. A emissora pretendia manter no estúdio um púlpito vazio com o nome do presidente e permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu as duas regras. A participação em debate é facultativa. Estela entendeu que as consequências previstas para a ausência tinham aparência de mecanismo para pressionar o candidato a comparecer e que perguntas sem possibilidade de resposta simultânea poderiam criar desequilíbrio entre os participantes.
A decisão podia ser contestada e recorrida. Foi criticada por juristas e pela própria Globo. Isso é diferente de tratá-la como ilegalidade demonstrada ou como prova de censura. Estela havia trabalhado no governo Lula antes de chegar ao TSE e foi indicada pelo presidente, informação relevante para o escrutínio de sua trajetória. Nada disso elimina a fundamentação jurídica da decisão. Até agora, o episódio registra uma interpretação judicial sobre as regras de um debate, não uma prova de fraude eleitoral.
Na mesma noite, Gilmar Mendes determinou que Renan Santos participasse do encontro. Flávio desistiu. As decisões e os anúncios ocorreram num intervalo curto e as fontes divergem sobre a ordem exata, o que impede afirmar que ele abandonou o debate para evitar Renan. A explicação escolhida pelo candidato foi outra. Flávio disse que saía por causa da “censura imposta” pelo TSE. A Globo cancelou o programa e atribuiu a decisão à insegurança jurídica produzida pelas ordens judiciais de última hora. Um conflito sobre regras de televisão passou a circular como conflito sobre a legitimidade de quem regula a eleição.
Poucos dias antes, a campanha de Flávio havia recorrido à mesma Justiça para retirar publicações sobre Nossa Senhora Aparecida. A história foi tratada muitas vezes como se fosse uma invenção sem qualquer base real. Era falsa a afirmação de que Flávio Bolsonaro havia apresentado, apoiava ou pretendia executar um projeto para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O projeto, porém, existiu. O PL 2.623, apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, propunha substituir “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O texto foi arquivado em 2008. Galli se tornou depois assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro.
O ambiente político-religioso que alimentou a associação também existia. Flávio e Michelle Bolsonaro se aproximaram da Comunidade das Nações, fundada pelo bispo JB Carvalho, que já havia defendido a retirada do título nacional de Nossa Senhora Aparecida. Flávio anunciou ainda que, se eleito, faria uma oração entregando o Brasil a Jesus Cristo, gesto que sua campanha descreveu como simbólico. Nada disso faz dele autor do projeto de 2007 nem prova que defenda a mudança. Mostra que a atribuição falsa nasceu sobre um terreno político e religioso real.
Foi nesse caso que André Mendonça ordenou uma remoção ampla de publicações. As decisões iniciais atingiram também postagens de natureza crítica, satírica ou ambígua. O próprio Mendonça reconsiderou parte das ordens, e o plenário do TSE restringiu o alcance para manter fora do ar as publicações que atribuíam diretamente a Flávio uma intenção inexistente. A postagem do humorista Antonio Tabet foi liberada. A mesma campanha que havia pedido ao tribunal uma intervenção extensa sobre conteúdo nas redes passou, diante da Globo, a apresentar decisões judiciais contrárias a seus interesses como censura.
A eleição é administrada por uma Corte cujo presidente e vice chegaram ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro. Kassio Nunes Marques foi a primeira escolha do então presidente, em 2020. Seu nome ganhou força com participação de Flávio Bolsonaro e de Ciro Nogueira, uma das figuras centrais do Centrão. Foi uma nomeação produzida pela política real, articulada entre o Planalto e forças parlamentares que sustentavam o governo. Seis anos depois, Nunes Marques preside o tribunal que julga a eleição em que Flávio tenta levar o bolsonarismo de volta ao Planalto.
Em 2026, Nunes Marques suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel a pedido do PL. Em outro processo, rejeitou inicialmente a retirada de um vídeo em que Flávio associava Lula ao PCC e ao Comando Vermelho. O plenário depois derrubou essa posição por cinco votos a dois. Também suspendeu propaganda da campanha de Lula que ligava Flávio às rachadinhas, ao caso Master e à compra de imóveis com dinheiro vivo. Pesquisa, propaganda e conteúdo digital passaram, em poucos meses, por decisões individuais do presidente do TSE numa eleição apertada e disputada pelo filho do presidente que o levou ao Supremo.
André Mendonça tem uma ligação ainda mais direta com o governo Bolsonaro. Entrou na administração em 2019 como advogado-geral da União, assumiu o Ministério da Justiça depois da saída de Sergio Moro, voltou à AGU e chegou ao STF após Bolsonaro prometer uma vaga a um ministro “terrivelmente evangélico”. Pastor presbiteriano, recebeu apoio organizado da Associação Nacional de Juristas Evangélicos, a Anajure, rede jurídica conservadora que há anos atua na interface entre religião, legislação e políticas públicas.
No Ministério da Justiça, uma secretaria subordinada a Mendonça produziu o relatório que ficou conhecido como dossiê dos antifascistas, com informações sobre 579 servidores da área de segurança e três professores identificados como integrantes de movimento antifascista. Mendonça reconheceu a existência do relatório, embora rejeitasse a palavra “dossiê” e defendesse que se tratava de atividade regular de inteligência. Em 2022, o plenário do STF declarou inconstitucionais atos de produção e compartilhamento desse tipo de informação e afirmou que a inteligência de Estado não pode ser usada para perseguir opositores nem mapear pessoas por suas posições políticas quando exercem direitos dentro da legalidade.
A formação de Mendonça também passou pelos Estados Unidos. Em 2015, ficou oito meses na Stetson University, na Flórida, pesquisando corrupção, Estado de Direito, recuperação de ativos e enriquecimento ilícito. Anos depois, o jurista que transitou por esse ambiente passou a ocupar o segundo posto da Justiça Eleitoral brasileira. A trajetória não permite presumir o resultado de cada voto. Em 2026, o próprio Mendonça abriu o inquérito que incluiu Flávio Bolsonaro no caso do financiamento do filme Dark Horse e tomou decisões que contrariaram interesses do candidato. Permanecem, contudo, a origem política, as redes de formação e o poder institucional concentrado no cargo que ocupa.
Luiz Fux vem de outra história. Foi indicado ao Supremo por Dilma Rousseff. Nas mensagens da Vaza Jato, Deltan Dallagnol relatou aos colegas uma conversa em que Fux teria dito que a força-tarefa podia contar com ele. Sergio Moro respondeu “In Fux we trust”. Fux negou que a conversa relatada por Dallagnol tivesse ocorrido. Em setembro de 2025, no julgamento do núcleo central da tentativa de golpe, foi o único integrante da Primeira Turma a votar pela absolvição de Jair Bolsonaro e de outros cinco réus das acusações da Procuradoria-Geral da República. A maioria, por quatro votos a um, condenou Bolsonaro pelos cinco crimes.
Fux entendeu que Bolsonaro havia apenas cogitado medidas de exceção e que não existiam atos executórios suficientes para a condenação. Também rejeitou a ligação entre o ex-presidente e os atos de 8 de Janeiro nos termos apresentados pela acusação. O voto não transforma Fux em aliado de Bolsonaro. Produziu, porém, uma divergência judicial de enorme valor político para a narrativa de que o processo contra o ex-presidente era abusivo. A contestação passou a poder citar um voto do próprio Supremo.
O debate da Globo revelou outro caminho de circulação. ABERT, ANER e ANJ reagiram às decisões judiciais e falaram em interferência e agressão à liberdade de imprensa. No dia seguinte, a Associação Internacional de Radiodifusão, a AIR, levou a crítica para fora do país e manifestou preocupação com a autonomia editorial e a segurança jurídica.
A AIR é uma organização internacional, mas não uma missão independente de observação eleitoral. Representa empresas privadas de radiodifusão nas Américas. Seu presidente, Paulo Tonet Camargo, é vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo. No conselho diretor brasileiro estão dois representantes da Globo, dois da Band e dois da ABERT. A entidade brasileira que reagiu ao episódio integra a mesma estrutura empresarial continental que internacionalizou a crítica horas depois. A “preocupação internacional” percorreu canais institucionais permanentes do próprio setor interessado.
Do outro lado desses canais existe um governo americano disposto a usar instrumentos de Estado. Marco Rubio chegou ao Departamento de Estado depois de construir sua carreira como uma das vozes mais duras de Washington contra Cuba e Venezuela e como defensor de uma política hemisférica marcada pela disputa com a China. Sua primeira viagem ao exterior como secretário de Estado de Donald Trump foi à América Latina e ao Caribe.
Em julho de 2025, os Estados Unidos revogaram vistos de Alexandre de Moraes e de familiares. Dias depois, o Departamento do Tesouro colocou o ministro sob sanções da Lei Global Magnitsky, acusando-o de detenções arbitrárias, censura e perseguições politizadas. No mesmo dia, Trump declarou por ordem executiva que políticas e ações do governo brasileiro constituíam uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos. A Casa Branca relacionou publicamente a medida ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro e a empresas americanas. Uma tarifa adicional de 40 por cento elevou a cobrança total a 50 por cento sobre os produtos atingidos.
A maior potência do hemisfério passou a usar restrições de visto, sanções financeiras e pressão comercial em resposta a decisões tomadas dentro do sistema político e judicial brasileiro. Depois, o Tesouro ampliou as sanções para a mulher de Moraes e para uma empresa ligada à família do ministro. A leitura de Washington sobre o funcionamento das instituições brasileiras deixou de produzir apenas declarações e passou a produzir custo material.
Às vésperas desta eleição surgiu outra camada. O Guardian revelou documentos segundo os quais o governo Trump direcionou mais de 175 milhões de dólares do principal fundo de direitos humanos do Departamento de Estado para 43 programas alinhados sobretudo a causas conservadoras e de direita. Um deles, de 1 milhão de dólares, recebeu o nome “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”. O programa foi desenhado para financiar organizações da sociedade civil contrárias ao que o próprio projeto americano chama de excesso judicial e censura do Supremo. Segundo o jornal, Marco Rubio assinou memorandos para superar bloqueios no Congresso a parte dessas verbas. A Advocacia-Geral da União pediu investigação no Brasil.
Há ainda uma rede privada em torno da campanha. A Folha de S.Paulo ouviu pessoas próximas a Flávio e relatou que empresários ligados à Rockbridge Network, grupo conservador cofundado por J. D. Vance, produziram relatórios e participaram de conversas sobre tecnologia, estratégia e aproximação com grandes atores de capital. Documentos obtidos pelo jornal falavam em criar um canal informal com os Estados Unidos mais poderoso que a diplomacia oficial. A campanha e os empresários negaram financiamento estrangeiro e participação formal. O material não prova comando de Washington sobre a candidatura. Prova a existência de contatos, interesses e canais políticos privados que aproximam a campanha de uma rede influente da direita americana.
Dois dias antes da votação, os Estados Unidos suspenderam os serviços consulares no Brasil alegando preocupações de segurança não detalhadas. A Polícia Federal cumpriu buscas ligadas a possíveis ameaças contra instalações diplomáticas, mas naquele momento não havia encontrado prova concreta do plano inicialmente investigado nem ligação dos alvos com organizações criminosas. Washington não relacionou a suspensão à eleição. Não há base pública para tratá-la como manobra eleitoral. A medida ocorreu, porém, no meio de uma crise bilateral já marcada por tarifas, sanções, acusações contra o Judiciário e denúncias de interferência externa.
O chamado voto envergonhado pode ganhar outra função depois da apuração. Diferença entre pesquisa e urna não prova fraude, manipulação ou um contingente oculto de eleitores que mentiu aos institutos. Pesquisa estima intenção de voto. A urna registra votos. Se houver distância importante entre as duas, ela poderá ser usada politicamente por quem já chega à eleição questionando a neutralidade do STF, da Polícia Federal, do Congresso e da Justiça Eleitoral.
Primeiro e segundo turno produzem relógios diferentes. Uma decisão neste domingo concentra tudo em poucas horas. Se ninguém alcançar a maioria absoluta dos votos válidos, haverá três semanas para novas decisões judiciais, campanhas digitais, conflitos institucionais e pressões externas. O segundo turno não elimina a disputa sobre legitimidade. Dá mais tempo para que ela seja alimentada.
O Brasil chega às urnas depois de uma tentativa de golpe julgada e condenada pelo Supremo, com o filho do líder daquela trama disputando a Presidência e atacando, na véspera da eleição, instituições responsáveis por investigar, julgar e reconhecer o resultado. Em agosto, Flávio dizia que aceitaria a decisão das urnas. Neste sábado, perguntado novamente, não respondeu. Ao redor da disputa já existem associações empresariais capazes de internacionalizar conflitos internos, redes privadas americanas interessadas na candidatura e um governo estrangeiro que empregou tarifas, vistos, sanções e dinheiro público na batalha política em torno do Judiciário brasileiro.
A Justiça Eleitoral vai somar votos. Nenhuma embaixada, plataforma, associação empresarial, emissora ou governo estrangeiro tem autoridade constitucional para escolher ou proclamar o presidente do Brasil. Esses atores podem pressionar, financiar, enquadrar acontecimentos e disputar a aceitação política de um resultado produzido por instituições brasileiras.
Se a diferença nas urnas for pequena, não será necessário provar fraude na máquina para abrir uma nova frente de conflito. A matéria-prima já está disponível antes da contagem. O alvo pode ser o juiz, a investigação, a imprensa, a regra do debate, a pesquisa, a Polícia Federal ou a relação com Washington.
A urna dará a resposta numérica. A disputa seguinte será sobre quem aceita que ela seja suficiente.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>



1,4 milhão na frente: esse Rio de amor que se perdeu
Deus na campanha
Ele virá com as chuvas de cajus