Teologia do domínio ganha força no Brasil e impulsiona projeto político de setores evangélicos
247 – A proximidade com o período eleitoral e a crescente articulação de setores da igreja evangélica com o poder público reacenderam o debate sobre a chamada teologia do domínio. Com a proliferação de conteúdos sobre o tema em redes sociais e aplicativos de mensagens, especialistas explicam que o conceito abrange um conjunto de correntes teológicas cujos adeptos acreditam possuir um mandato divino para assumir o controle de todas as instâncias de poder e esferas da vida pública, indo além da simples presença social para exercer o efetivo domínio sobre a sociedade, informa a Folha de São Paulo.
No cenário brasileiro, essa dinâmica se tornou manifesta com maior intensidade a partir de 2018, impulsionada pela eleição de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Guiado pelo slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o governo bolsonarista indicou um ministro “terrivelmente evangélico” para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) – André Mendonça – e promoveu diretrizes conservadoras supostamente focadas na proteção da moral cristã e no modelo “tradicional” de família.
Segundo a pesquisadora Magali Cunha, do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a movimentação cristã voltada ao domínio das estruturas sociais teve início no começo do século XX, nos Estados Unidos. Cunha aponta que uma das correntes fundacionais da teologia do domínio emergiu entre cristãos calvinistas, baseada na premissa de João Calvino de que Deus detém o controle sobre todas as coisas. O chamado fundamentalismo religioso surgiu nesse contexto para resguardar a fé cristã frente às ameaças percebidas na modernidade e no avanço da revolução industrial.
Dessa tentativa de proteção dogmática deriva a noção de “batalha espiritual”, compreendida como o combate entre o bem e o mal. O sociólogo e colunista Rodrigo Toniol pondera que, sob essa ótica, diversos territórios, instituições, cidades e dimensões sociais estariam sob domínio maligno, exigindo uma reconquista em nome de Deus. “Portanto, ‘dominar’, aí, significa antes de tudo fazer prevalecer o bem sobre o mal”, afirma Toniol.
A partir do pós-Segunda Guerra Mundial, formulou-se uma nova vertente para atender às demandas políticas emergentes. Diferente da mera preservação da fé, a tese dominionista passou a pregar a ocupação direta de todas as áreas sociais, fundamentando-se na interpretação do livro de Gênesis sobre a autoridade concedida ao homem sobre a criação: “Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gênesis 1:28).
O teólogo, antropólogo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Igor Shimura, ressalta que a lógica da teologia do domínio encontra respaldo no Velho Testamento da Bíblia, onde constam narrativas de guerras em nome de Deus. De acordo com Shimura, denominações pentecostais e neopentecostais, a exemplo da Igreja Universal e da Assembleia de Deus, recorrem mais fortemente às escrituras do Velho Testamento, diferentemente das igrejas reformadas, como as presbiterianas, que priorizam o Novo Testamento.
Essa orientação teológica ajuda a compreender a maior inserção dos grupos pentecostais na cena política e na defesa do dominionismo. No entanto, Magali Cunha faz uma ressalva e considera um erro associar o fenômeno exclusivamente aos pentecostais.
Paralelamente, a teologia dos sete montes (ou sete montanhas) reforça o projeto dominionista ao definir sete áreas estratégicas que os cristãos teriam a ordem divina de dominar: família, religião (a própria igreja), educação, política, mídia, artes e economia. Na avaliação de Shimura, essa vertente representa o empenho em reestruturar a sociedade a partir de dogmas bíblicos, ultrapassando os limites do convívio democrático.
“Influenciar, vai influenciar, lógico. Mas, quanto? Qual o limite da influência? Se você não tem um norte de qual que é o limite, você vai indo e daqui a pouco vira predatória”, disse Shimura.
O professor da UFPR destaca ainda que a presença e a atuação social integram a missão evangélica, mas não devem se confundir com imposição. “Onde estão os crentes? Estão em todos os lugares, certo? Agora, nós não precisamos dominar todos os lugares. É isso que é o ponto”, disse.
Críticas ao modelo de imposição também são reiteradas por lideranças religiosas. O pastor e teólogo Sergio Moreira, autor da obra “A Teologia do Domínio”, afirma que tentar estabelecer uma hegemonia evangélica sobre a terra constitui um equívoco doutrinário, citando a passagem do evangelho de Lucas que conceitua o reino de Deus como uma dimensão espiritual interior.
“O reino de Deus é espiritual. A igreja, que representa o corpo de Cristo na terra, é a manifestação do reino de Deus. Nós devemos ensinar os valores de Jesus, não impor. Impor é um grande erro. Nenhuma fé deve ser imposta”, diz Moreira.
Embora afirme não ter dúvidas sobre a atuação progressiva da teologia do domínio no Brasil para atender a interesses de lideranças religiosas, Shimura faz uma distinção sobre a adesão do público fiel às ambições de poder. “O evangélico médio não quer dominar nada. Ele quer viver a vida dele com Jesus. Agora, quem tem interesse político, sim, aplica a teologia do domínio porque quanto mais cargo, mais poder”, afirma.
Ao analisar o impacto do movimento sobre as instituições públicas, Magali Cunha adverte para os riscos decorrentes da violação do secularismo do Estado, garantia fundamental para a liberdade religiosa de todas as crenças e de não crentes.
“Quando um grupo religioso tem um projeto de poder e nesse projeto ele quer legislar e criar políticas públicas com base em uma única perspectiva religiosa, a gente tem um problema, porque mesmo entre os grupos religiosos há diferentes perspectivas. Isso compromete o Estado democrático de Direito”, afirma Cunha.



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