“Muito obrigado Daniel”: mensagens reforçam necessidade de investigar Campos Neto no escândalo do Master
Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelaram que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro, manteve contato direto com o banqueiro e chegou a convidá-lo para uma reunião em sua residência no condomínio Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, no interior de São Paulo. O encontro acabou transferido para uma instalação oficial do BC, por motivos domésticos, mas o diálogo acrescenta um novo elemento às dúvidas sobre a relação entre o ex-presidente da autoridade monetária e o controlador do Banco Master.
Em uma das trocas de mensagens, divulgadas pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, Vorcaro procurou Campos Neto em novembro de 2023 para apresentar “o trabalho que estamos desenvolvendo no banco e nossas perspectivas”. Depois de sucessivos ajustes de agenda, Campos Neto sugeriu que a conversa pudesse ocorrer na Fazenda Boa Vista, onde estaria com a família.
“Se por acaso for na Fazenda Boa Vista na outra semana podemos fazer lá também. Vou estar lá com a família”, escreveu. No dia seguinte, ao confirmar os detalhes do encontro, Campos Neto afirmou: “Sim. Correto. Podemos fazer na minha casa.”
A reunião estava marcada para 22 de dezembro de 2023, mas o então presidente do BC cancelou a realização em sua residência após informar que a casa havia sido dedetizada. Propôs, então, transferir o encontro para o Banco Central, na avenida Paulista.
Meses depois, em março de 2024, os dois voltaram a trocar mensagens. Campos Neto enviou uma imagem a Vorcaro, cujo conteúdo não foi divulgado. O banqueiro respondeu com emojis de aplausos e escreveu: “merecido! Parabéns!”. No dia seguinte, Campos Neto respondeu: “Muito obrigado Daniel. Um grande abraço e sucesso”.
As mensagens, por si só, não comprovam favorecimento, irregularidade ou crime. Presidentes do Banco Central mantêm interlocução com representantes do sistema financeiro, inclusive com instituições supervisionadas pela autarquia.
As conversas entre Campos Neto e Daniel Vorcaro, no entanto, ocorreram enquanto o Banco Master já acumulava questionamentos de agentes do mercado, do Fundo Garantidor de Créditos e do próprio Banco Central. O conteúdo do celular de Vorcaro é parte de uma sequência de fatos que envolve a autorização para sua entrada no sistema bancário, o crescimento acelerado e agressivo do Master e as decisões tomadas pela direção do BC durante a gestão Campos Neto.
Da rejeição à autorização
A relação entre Vorcaro e o Banco Central ganhou relevância ainda em 2019.
Em fevereiro daquele ano, antes de Campos Neto assumir a presidência da instituição, o BC rejeitou a transferência do controle do Banco Máxima para Vorcaro e outros investidores. A decisão apontou insuficiência na comprovação da origem dos recursos e da capacidade econômico-financeira dos compradores. Campos Neto assumiu o BC ainda naquele mês.
Em outubro, oito meses depois da rejeição, a Diretoria Colegiada presidida por ele aprovou a transferência do controle do banco para Vorcaro. O Banco Máxima foi posteriormente rebatizado de Banco Master.
A mudança de posição permanece como um dos pontos centrais a serem esclarecidos: quais documentos, recursos e garantias foram apresentados entre fevereiro e outubro de 2019 para convencer o Banco Central de que as dúvidas anteriores haviam sido superadas? A questão ganhou ainda mais peso após revelações sobre operações financeiras realizadas naquele intervalo e posteriormente investigadas pela Comissão de Valores Mobiliários.
Alertas se acumularam
Como se sabe, depois da autorização, o Master registrou forte crescimento baseado, entre outros instrumentos, na emissão de CDBs com remuneração elevada e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Documentos do próprio Banco Central já divulgados pela imprensa mostraram que a instituição enviou sucessivos ofícios ao Master durante a gestão Campos Neto cobrando ajustes e questionando práticas adotadas pelo banco.
Representantes do FGC e executivos de instituições financeiras também manifestaram preocupação com o crescimento do Master, sua estratégia de captação e a qualidade de alguns ativos mantidos em carteira.
O que precisa ser esclarecido é como a direção do Banco Central avaliou esses sinais e por que as medidas adotadas não impediram o agravamento posterior da situação.
O caso dos precatórios
Outra decisão tomada durante a gestão Campos Neto também passou a ser examinada à luz da crise do Master. Em outubro de 2023, o Banco Central editou regras prudenciais mais rígidas para exposições a precatórios e pré-precatórios. A regulamentação adotou uma data de corte para parte dos ativos.
Como o Master tinha exposição significativa a precatórios, passou a ser relevante saber qual foi o efeito concreto da medida sobre seu balanço, quais simulações foram feitas pelo BC e quanto a instituição teria de aportar caso o tratamento prudencial fosse aplicado de forma diferente.
Não há, até aqui, base suficiente para afirmar que a norma tenha sido criada especificamente para beneficiar o Master. Mas o impacto da decisão sobre o banco precisa ser conhecido.
O relato sobre R$ 32 bilhões
O ponto mais grave envolvendo o final da gestão Campos Neto surgiu no depoimento de Paulo Sérgio Neves de Souza à Polícia Federal. Segundo ele, o BTG Pactual teria concluído, em novembro de 2024, uma due diligence no Banco Master e identificado uma suposta fraude de R$ 32 bilhões.
Paulo Sérgio afirmou que uma apresentação sobre o assunto ocorreu em 3 de dezembro de 2024 com a presença de Roberto Campos Neto. O relato precisa ser confirmado pelos demais participantes e confrontado com documentos.
Mas, se confirmado, levanta uma questão inevitável: que providências o presidente do Banco Central determinou depois de receber uma informação dessa magnitude? Houve pedido formal de documentos ao BTG? Comunicação a outros órgãos? Abertura de procedimentos internos? Adoção de medidas prudenciais? Essas respostas são essenciais para reconstruir a atuação do BC no período.
Relação de intimidade amplia questionamentos
As novas conversas entre Campos Neto e Vorcaro não constituem até onde se sabe prova de participação do ex-presidente do BC nas irregularidades atribuídas ao Master. Mas acrescentam contexto a uma relação que já estava no centro de diversos episódios relevantes.
A dimensão da roubalheira conhecida até aqui no escândalo do banco Master, prejuízos de R$ 60 bilhões para o sistema financeiro, o Brasil precisa conhecer qual foi exatamente o grau de intimidade, de parceria ou de cumplicidade na relação entre Roberto Campos Neto e Daniel Vorcaro e como essa conexão se refletiu — ou não — nas decisões do Banco Central sobre o Banco Master.


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