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Ajoelhou, tem que rezar

29.09.2026 4 min read

A assessoria procurava a santinha.

— Qual delas?

— A Nossa Senhora. Pequena, para caber na mão do candidato.

— Temos uma bandeira de Israel.

— Hoje não serve.

Era o fim de uma semana que começara com muito mais coragem. Ou, pelo menos, com aquela variedade de coragem que costuma aparecer quando o adversário é uma imagem.

A santinha conhecia o método. Em 1995, um bispo da Universal a chutou pela televisão. Houve, também, uma monumental estátua sua incendiada á beira da rodovia.  Mais tarde, um deputado apresentou um projeto para lhe retirar o título de Padroeira do Brasil. Nenhum dos dois era Flávio Bolsonaro. Convém deixar isso claro, porque a política brasileira já trabalha com parentesco demais. O que une os episódios é outra coisa: a pretensão de dizer ao povo brasileiro o que ele pode venerar.

Os terreiros conhecem essa pretensão sem precisar assistir à reprise. Para muita mãe de santo, ela não chega sob a forma de projeto de lei. Chega insultando o orixá, quebrando objetos sagrados, ameaçando gente. O agressor chama aquilo de guerra espiritual, expressão que lhe permite declarar guerra a uma senhora idosa e voltar para casa se achando um soldado de Deus. E tudo se faz em nome de Deus: dos adeptos do evangelismo neo pentecostal, da doutrina da prosperidade, onde Mamon reina.

Deus, aliás, devia pedir uma prestação de contas. Seu nome aparece em todas as campanhas; o de Mamon, que cuida da arrecadação, quase nunca vai para o cartaz.

Então surgiu nas redes a história de que Flávio Bolsonaro pretendia acabar com o Dia da Padroeira. A GloboNews falou da circulação da história, não de uma proposta feita por ele. Flávio negou que tivesse tal intenção. O problema é que uma coisa pode ser falsa e ainda assim soar plausível para quem guarda na memória o chute, a imagem em chamas à beira da rodovia e o projeto de lei – já engavetado e os ataques cotidianos às religiões de matriz afro.

Chamaram então André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico”, para resolver o problema da Padroeira. Mendonça mandou tirar as postagens do ar – essa imagem surge na minha cabeça como que as três outras imagens fundidas: a do pator chutando, a incendiada e a do projeto de lei. Caiu, entre outras, uma postagem do comediante Antonio Tabet sobre a “família miliciana”, embora nela não aparecesse o nome de Flávio. A defesa reconheceu o candidato numa expressão da qual, ao mesmo tempo, precisava dizer que ele não fazia parte. Era uma situação difícil até para um tribunal explicar de joelhos.

 Por algumas horas, pareceu que o candidato havia encontrado a solução: se a santa era popular demais para ser removida, removiam-se as pessoas que falavam dela. O plano durou até Flávio Dino devolver a palavra ao povo, que, ao contrário de uma publicação, não tem botão de excluir. A decisão alcançou outras postagens excluídas pelo mesmo fundamento. Kassio Nunes Marques levou sua queixa a Fachin: que o time dele estava perdendo o jogo. Dino levou a questão ao plenário.

Só que a conversa continuou. Cada postagem retirada parecia deixar duas no lugar. Flávio apontou para a CNBB; a CNBB respondeu que não participara da divulgação de informação falsa e que uma acusação contra ela exigia provas. 

A certa altura, alguém na campanha deve ter feito a conta. De um lado, milhões de brasileiros ligados à Padroeira. Do outro, um candidato tentando explicar por que foi à Justiça para impedir que falassem de uma coisa que ele jurava não querer fazer. A conta não fechava. Nem com dízimo.

Foi quando apareceu a santinha da primeira cena e colocaram na mão de Flávio para segurá-la – sentindo-a pesada pediu os braços de Tarcísio para dar uma força. Flávio, que acusara a CNBB, passou a agradecer à CNBB. Declarou seu respeito por Nossa Senhora e ergueu uma imagem dela durante uma caminhada. Seus aliados descobriram uma devoção súbita pela convivência religiosa. O joelho político, articulação sensível às pesquisas e ao barulho das ruas, começou a dobrar.

A santinha não precisou dizer nada. Já tinha visto um homem chutá-la na televisão, outro incendiá-la, outro tentar destituí-la no Congresso e outro de toga amalgamando tudo em um ato só. Enquanto isso, os terreiros continuavam à espera de que a reverência recém-descoberta valesse também para seus santos, seus orixás e suas mães.

No fim, os valentões não foram derrotados por um milagre. Viram o tamanho da procissão e se acovardaram. A imagem que julgavam fácil de atacar estava nas mãos do povo brasileiro; de repente, era preciso segurá-la com cuidado, sorrir para a fotografia e garantir que sempre a tinham respeitado.

Ajoelharam. Agora têm que rezar.

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