Bilhões em ações judiciais do setor sucroalcooleiro expõem a rede de influência de Vorcaro no Judiciário
247 – Investimentos de pelo menos R$ 14,3 bilhões em ações judiciais atreladas ao setor sucroalcooleiro estão no centro da rede de influência construída pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, junto a integrantes dos tribunais superiores, segundo reportagem da Folha de São Paulo. O montante refere-se a 16 processos nos quais a instituição financeira adquiriu direitos creditórios — conhecidos no mercado como pré-precatórios — de usinas de açúcar e álcool que cobram indenizações bilionárias da União devido à fixação de preços promovida pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) nas décadas de 1980 e 1990.
O detalhamento dessas operações consta em um relatório elaborado pelo escritório Galdino Advogados em 2024 e entregue ao Banco Central (BC) para embasar a fiscalização sobre o Master. A aquisição dos ativos tinha como objetivo obter lucros expressivos caso teses jurídicas favoráveis às usinas fossem validadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), transformando as disputas em precatórios definitivos. Os direitos eram comprados com grande deságio, na faixa de 20% do valor estimado da causa, enquanto o pagamento final caberia integralmente à União.
A dimensão financeira do contencioso é astronômica. A Advocacia-Geral da União (AGU) estima a existência de cerca de 178 processos sobre a intervenção estatal no setor de cana-de-açúcar. Segundo o Conselho da Justiça Federal, os títulos já expedidos no segmento somam R$ 47,8 bilhões. Na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2025, o impacto fiscal potencial das ações atinge R$ 79,6 bilhões.
As investigações sobre o caso revelaram trocas de mensagens no celular de Vorcaro que expõem ligações com magistrados e parentes de membros do Judiciário, levando investigadores a apelidá-lo de “concierge do Judiciário”. Em um dos diálogos com o diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, é debatido o pagamento mensal de R$ 500 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do STF Kassio Nunes Marques. Kevin acumulou patrimônio de R$ 28 milhões em pouco mais de dois anos de advocacia.
Procurado, o ministro Kassio Nunes Marques afirmou em nota que “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro, nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro”. Declarou ainda que “o ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele. São irresponsáveis quaisquer tentativas de relacionar a atuação do Ministro com os serviços prestados pelo filho ou quaisquer terceiros”. Sobre mensagens em que interlocutores de Vorcaro comemoravam uma de suas decisões, Kassio esclareceu tratar-se de um caso específico e pontual, sem alcance geral ou efeito vinculante para o mercado sucroalcooleiro.
A teia de relações do banco alcançava outros gabinetes em Brasília. O Banco Master manteve um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O ministro não se manifestou quando questionado via assessoria. No STJ, mensagens indicam conversas entre Vorcaro e o ministro Benedito Gonçalves, que afirmou estar “sempre à disposição” do ex-banqueiro. O magistrado também não respondeu aos contatos da reportagem.
Além das decisões judiciais, o parecer contratado ao escritório Galdino Advogados serviu a propósitos regulatórios. Solicitado pelo Banco Central diante de inconsistências no balanço do Master, o estudo avaliou a probabilidade de êxito e os prazos de recebimento dos ativos, sem aferir se os preços anotados nos livros contábeis eram justos. O uso de pré-precatórios, ativos de difícil precificação, permitia inflar artificialmente o patrimônio da instituição, garantindo a continuidade de suas captações no mercado, inclusive junto a fundos de previdência estaduais e municipais.
Em nota, o escritório Galdino Advogados destacou que “não realizou a precificação dos casos, apenas reporta as avaliações constantes dos autos”, com base nas perícias anexadas às ações judiciais. Informou ainda que, dos 16 casos de usinas analisados a pedido do contratante, oito não possuíam estimativa de valor por falta de perícia concluída. A defesa de Vorcaro justificou a ausência de resposta ao pedido de informações devido ao excesso de demandas.
Conforme apurado pela fiscalização, Vorcaro utilizou esses títulos para tentar estancar a crise do Master. Entre outubro e novembro de 2025, o banco vendeu R$ 2,9 bilhões em direitos creditórios para entidades ligadas ao seu próprio ecossistema, como fundos de investimento controlados e a empresa de pagamentos EntrePay. Em uma das transações, um ativo vinculado à usina São João B. Lyzandro foi transferido ao fundo GSR por R$ 962 milhões e, em menos de 24 horas, repassado ao fundo Krispy com uma reavaliação de R$ 1,1 bilhão — uma valorização imediata superior a R$ 100 milhões que exemplifica como a subjetividade dos cálculos era usada para alterar balanços.
O aprofundamento das apurações revelou que o montante total de precatórios e pré-precatórios vinculados ao Master alcançava R$ 21 bilhões, valor substancialmente superior aos R$ 8 bilhões declarados na contabilidade oficial, estando R$ 13 bilhões ocultos em fundos de investimento opacos. Paralelamente, no STF, o ministro Gilmar Mendes solicitou a transferência do julgamento sobre as indenizações do setor sucroalcooleiro para o plenário presencial da corte, expondo as divergências internas no tribunal sobre as teses que favorecem os detentores desses papéis.


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