EUA e Brasil: a força da onda democrática
Embora previsíveis, a derrota de Trump e a vitória dos democratas nas eleições americanas superaram todas as projeções. Aqui, nem o mais otimista dos petistas previu que Lula derrotaria Flávio Bolsonaro com uma frente de quatro milhões de votos. Mais que feitos partidários, tais vitórias foram produzidas por “ondas eleitorais”, fenômeno que os cientistas sociais não explicam bem e que parece ajustar-se à ideia do “espírito do tempo”, que Herder lançou e Hegel aprimorou. (Obrigada, Joaquim, por me lembrar a expressão original: zeitgeist.)
Para estes filósofos alemães, o “espírito do tempo” é amalgamado pelo conjunto de sentimentos, crenças, valores e aspirações de uma sociedade em determinado momento. Parece que ele está solto entre nós e começou sua incursão pelo Brasil, pois na metade de setembro a extrema-direita ainda foi vitoriosa em eleição regional na Alemanha. E mesmo aqui, vale sempre recordar que a direita radical elegeu boa penca de governadores e grandes bancadas no Congresso.
O “espírito do tempo” é uma força que ultrapassa fronteiras nacionais, cria vontades coletivas e parece ganhar força na medida em que se desloca. E, se assim for, a Europa democrática que aplaudiu vigorosamente o resultado brasileiro tem razões para se animar, porque lá a extrema-direita continua de dentes arreganhados.
A insurgência popular pelo voto, nos Estados Unidos, fez mais que tirar de Trump a maioria na Câmara e no Senado. Os democratas venceram em estados onde a disputa sempre é acirrada e tomaram dos republicanos alguns de seus redutos, como o Texas, onde os democratas elegeram o primeiro senador em 38 anos, um certo Talarico, derrotando o trumpista Ken Paxton.
Foram muitas as surpresas, como a da eleição de Annie Andrews para o Senado, na Carolina do Sul, derrotando a republicana Darlinbe Graham. O Kansas elegeu seu primeiro senador democrata desde 1929.
Ainda há votos sendo apurados, mas, pelos últimos dados que vi, Trump perderá a maioria que tinha no Senado, onde agora deverá contar com 44 contra 56 dos democratas, que já conseguiram a maioria de 234 cadeiras na Câmara. Ainda que não haja processo de impeachment, a vida dele agora será muito mais difícil. Ele já baixou a crista ao reconhecer o resultado.
Nas disputas por governos estaduais, a vitória democrata não foi menos luzente.
A baixa popularidade de Trump, a irritação popular com a inflação e o custo de vida e, por decorrência, com as guerras do presidente, a da Ucrânia e a do Irã, são explicações óbvias para a derrota republicana. Óbvias, mas não definitivas.
Algo mais os eleitores quiseram dizer nas urnas. Disseram estar desgostosos com o mundo oferecido por Trump e, por isso, não apenas descarregaram votos no partido de oposição. As mulheres, as minorias e os grupos raciais saíram fortalecidos e ganharam evidência para suas causas.
Até agora, já são 17 os estados que serão governados por mulheres, um recorde. Mais duas ainda podem ser confirmadas. Keisha Lance Bottoms, eleita na Geórgia, será a primeira governadora negra do país. Debra Haaland, do Novo México, será a primeira indígena. E Gina Hinojosa, do Texas, a primeira governadora latina do país. Entre os homens, cinco negros foram eleitos governadores, um marco quantitativo.
Em outra quebra de tabu, Abdul El-Sayed tornou-se o primeiro senador eleito, enquanto Chris Pappas será o primeiro senador assumidamente gay. Byron Donalds, governador eleito da Flórida, é republicano, mas será o primeiro homem negro a ocupar o posto naquele estado sulista.
E ainda temos, como novidade, aqueles sete brasileiros que se elegeram deputados estaduais.
Um resultado tão expressivo, não apenas pelos números, mas também pelo ineditismo e a qualidade da representação, terá impacto também fora dos Estados Unidos. Afetará, com certeza, as relações dos Estados Unidos com a América Latina e com o Brasil, no mínimo reduzindo as tensões.
Se todas estas coisas são obras do espírito do tempo, e se ele está solto, podemos acreditar que outras mudanças estão a caminho.



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