Crônicas e Narrativas de Pancrácio Fidélis
1
Eu, Pancrácio Fidélis, declaro em praça pública
Diante de atônitos cidadãos
Desnorteados com os mais recentes acontecimentos
Que nosso novo lema de agora em diante é: quem ama não mata!
Nem é um lema muito novo
Mas é forte
E gritado a plenos pulmões
Pelas famílias das vítimas de feminicídio
Convenceu a todos
E deixou boquiabertos
Os comerciários dessa nossa cidade
Que virou um grande bazar
Como que se o bazar
Do avô desse humilde escrevinhador
Se desintegrasse em milhares de lojinhas
Com todas as mercadorias
Com tudo o que se sonhasse
Um sonhar pequeno
Observados pelos milionários
Em imagens geradas
Da torre mais alta
No mais alto morro da cidade.
Imagens que gritam toda a incoerência
De um povo que torce pelo lado errado.
Pancrácio Fidélis
Foi quem nesse dia
Comandou a marcha pelas ruas
Vazias de povo, mas cheias de gente
Nesse carnaval meio maluco
Como me contou no meio da folia
Que passara uma noite sem dormir pra reservar mesa
pra passar quatro noites acordado
Nos dias seguintes aos festejos do momo
Todos só falavam de uma coisa
Perdi meu relógio, minha carteira, meu anel de ouro
Só não perdi mesmo o meu couro
Isso sem falar dos que quebraram o queixo
Fiquei com um olho roxo
Me esqueci com quem briguei
E até me excedi porque chorei
Diante da catástrofe que ele não esperava
Da cidade que ficou inchada
E perdeu o glamour daqueles tempos
Pra virar de vez uma terra arrasada
Onde ninguém entende o rumo
Dos acontecimentos do futuro
Porque essa terra se esqueceu
De Pancrácio e dos seus humores
De um tempo muito mais antigo
Que era feliz sem ser soturno
Para chegar no descalabro
De um bando desembestado de hunos moribundos
Horrorosos horripilantes confusos
Homens imaturos em plena efervescência de machos
No cio caótico de hienas exaustas
Lutando pelo último osso
De bestas feras até o pescoço
Horrendo horripilante do transtorno
Epilético e epistêmico
Do esculacho em pleno carnaval
Arrancou a arma e deu três tiros
Um na cabeça dela
Dois em si mesmo
Que mascaram e necessitaram de um novo tiro
Que o retirou covardemente do suplício
De um júri de homens estrupícios
De uma justiça anômala e furibunda
Nem dando uma chance para o seu desabrochamento
Que não aconteceu naquele dia
Nem na folia nem no momento trágico
Da bala que zuniu e penetrou no âmago
De uma cidade pobre e maltrapilha
Que fez Pancrácio entoar aquele desabafo
Nenhuma mulher a mais sendo estrupada
E chacinada na fúria desses homens loucos
Que atiraram aquele balaço em nossa cara
Que resta estraçalhada pela realidade que as mata.
E as matando acaba conosco . . . !
2
Choveu e os pingos dessa chuva
Me acalmaram
Na enxurrada afoita de uma longa caminhada
Sem sentido e sem direção
Nessa empreitada
De saciar a sede
Na natureza
Que há de refazer toda a tristeza
Que construímos com a destruição do mundo
Choveu e o barulho da chuva
Me acalmou
Me trouxe uma ilusão
Que talvez me salve
De ser mais um ser sem volta
Sem ter na verdade
Sentido esse cheiro bom de uma tempestade
Choveu e o vento ajudou
A trazer serenidade
Porque balançou o sol
E a eternidade
Se fez nesse brilho de luz
Num pingo de água
Reflexo do arrebol
Que raiou em mim.


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