Documentário ‘Naza’ expõe genocídio em Gaza e vence prêmio no Festival de Veneza
247 – O documentário “Naza”, dirigido pelos cineastas israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, conquistou o prêmio especial do júri no Festival de Veneza ao apresentar detalhes sobre como as ações das forças de defesa de Israel para combater o grupo Hamas resultam no genocídio de civis palestinos na Faixa de Gaza. A produção expõe engrenagens do aparato estatal israelense que conduzem a atrocidades de forma rotineira, relata a Folha de São Paulo.
A obra traça um paralelo com os funcionários do Estado alemão na década de 1940 que executavam ordens do governo nazista para exterminar a população judaica na Europa. Distanciados física e emocionalmente das vítimas, esses agentes transformavam a crueldade em algo trivial, conceito articulado pela filósofa Hannah Arendt como a “banalidade do mal”. Oito décadas depois da Segunda Guerra Mundial, o longa sugere a ocorrência de um processo análogo promovido por funcionários israelenses, operado à distância contra a população palestina.
“A força dos escritos de Arendt reside no fato de percebermos que isso pode ser aplicado ao longo dos séculos XX e XXI a muitos sistemas de extermínio, a muitos casos de genocídio ou a crimes de guerra e atrocidades estatais. Indivíduos inseridos em uma sociedade que normaliza o sistema e vivem nele como se fosse a água em que nadam, sem perceber”, afirma Yuval Abraham.
A investigação do filme reúne depoimentos de 24 integrantes e ex-integrantes das forças armadas de Israel. Os relatos indicam que ataques individuais voltados a apenas um integrante do Hamas resultam frequentemente na morte de centenas de inocentes. O termo “naza”, que dá título à obra, é a designação empregada para enquadrar esses casos como “dano colateral”, situação em que a perda de vidas civis é prevista e quantificada previamente pelas operações.
Os depoentes revelam ainda o uso de sistemas de inteligência artificial para detecção de padrões de comportamento e localização de alvos. Cidadãos comuns que apresentam condutas semelhantes aos padrões mapeados acabam identificados por engano e tornam-se alvos de investidas militares que também vitimam parentes e vizinhos.
De acordo com o documentário, a eliminação de civis inocentes ocorre de maneira sistêmica e integra o projeto militar desde o início das ofensivas contra Gaza, em 2023. “Sentimos que, com o filme, fazemos o que é nossa responsabilidade básica, como jornalistas, como seres humanos e como cidadãos do país que está cometendo tais crimes: falar sobre o assunto”, declara Abraham.
Para resguardar as identidades das fontes, as imagens dos rostos e as vozes dos entrevistados foram alteradas por inteligência artificial. Os diretores destacam que o processo de checagem das identidades foi rigoroso e contou com o apoio do jornal britânico The Guardian, que atua como um dos produtores da obra.
“O que cada fonte diz no filme também é confirmado por outras fontes. Portanto, nada do que incluímos no filme foi dito por apenas uma pessoa. Eles descrevem o sistema e até a linguagem que usam é tão específica e detalhada que é impossível inventar tudo isso, quando se trata de quatro, cinco, dez pessoas diferentes. E, claro, também temos o The Guardian para demonstrar que tudo foi verificado”, explica Rachel Szor.
A respeito das motivações que levaram os militares israelenses a conceder os depoimentos apesar dos riscos envolvidos, Abraham observa uma diversidade de comportamentos que vai além da culpa ou do remorso. “Os seres humanos são muito complexos. Havia casos em que a pessoa parecia falar por vergonha ou culpa, mas, com o depoimento, o tom mudava e dá para ver um senso de orgulho pelo que tinham feito”, pontua o cineasta.
Após a exibição do filme em Veneza, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou intenções de cassar a cidadania de israelenses que “difamem as forças de defesa de Israel”. A ameaça afeta diretamente os diretores, que já haviam conquistado o Oscar de melhor documentário há dois anos com o filme “Sem Chão”, obra sobre a destruição de um povoado palestino por tropas israelenses. Na ocasião do Oscar, a casa dos pais de Abraham chegou a ser invadida por um grupo de pessoas, forçando o afastamento temporário de sua mãe.
“É claro que temos um certo receio, não sabemos o que nos espera. Estamos sempre monitorando a situação para ver se, por exemplo, o Exército disse algo, ou quem está falando sobre isso. Por outro lado, sentimos que não fizemos nada de errado”, avalia Abraham.
O codiretor pondera ainda sobre a assimetria entre a situação enfrentada por cidadãos israelenses e palestinos sob o regime do país. “Pelo menos até agora, nenhum de nós apanhou nem nada do tipo. Ao menos até agora. Sabemos que, se fôssemos palestinos, teríamos sido assassinados ou presos. Por isso, entendemos que temos um certo privilégio, e isso também é algo que nos deixa menos preocupados”, conclui.


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