A verdade bateu à porta de Flávio Bolsonaro
A mentira pode até ganhar uma eleição com narrativas falsas, mas dificilmente vence o tempo. A cada nova revelação, aquilo que se tentou esconder acaba aparecendo. É o que ocorre agora com o escândalo do Banco Master e as investigações que alcançaram o senador Flávio Bolsonaro.
Durante meses, Flávio Bolsonaro tentou esconder sua relação com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, e tratou o financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, como assunto encerrado. A abertura dos autos do inquérito, porém, trouxe novas informações para o conhecimento público e colocou o senador no centro de uma investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A situação é politicamente devastadora. Não porque uma investigação equivalha a uma condenação, mas porque o investigado que pretende disputar a Presidência da República passou a ter de explicar, perante o país, fatos que estão sendo formalmente investigados pelas instituições da República.
Quanto mais transparência houver nas investigações sobre o Banco Master, melhor para o Brasil. A sociedade tem o direito de conhecer os fatos, saber a origem e o destino dos recursos, compreender as relações entre os envolvidos para que possa ir à urna consciente a fim de escolher seus candidatos.
A determinação do ministro Edson Fachin para que fossem retiradas restrições de sigilo impostas anteriormente pelo ministro André Mendonça ampliou o acesso às informações e reduziu a possibilidade de uma divulgação seletiva dos elementos da investigação. A publicidade dos autos, dentro dos limites legais, é um antídoto contra versões escolhidas a dedo.
A velha máxima continua válida: a mentira tem pernas curtas. Quando a documentação oficial começa a aparecer, versões políticas são confrontadas com fatos, registros e depoimentos. E, no caso de Flávio Bolsonaro, a distância entre o discurso público e aquilo que emerge das investigações tornou-se uma questão incontornável.
Há ainda outra revelação que merece esclarecimento. O ICL Notícias informou que uma empresa ligada à família Bolsonaro e uma empresa atribuída ao chamado “Careca do INSS”, apontado nas investigações como operador financeiro de um esquema de fraudes contra aposentados e pensionistas, estariam registradas no mesmo endereço em Brasília. A informação, por si só, não prova qualquer vínculo ilícito entre as empresas. Mas, diante da gravidade do caso, é legítimo perguntar: por que estão no mesmo local? Existe alguma relação empresarial? Quem são os responsáveis? Cabe às autoridades investigar e aos envolvidos explicar.
O Brasil não pode aceitar que investigações sobre corrupção e movimentações financeiras sejam transformadas em guerra de versões. Instituições de fiscalização e controle, autônomas, como a Polícia Federal e outras, devem investigar todos, sem exceção, e os investigados devem ter assegurados o devido processo legal..
É igualmente inaceitável que alguém sob investigação por suspeitas tão graves pretenda chegar à Presidência da República sem oferecer ao eleitorado explicações convincentes. A candidatura é legítima dentro das regras eleitorais; a cobrança por transparência também é.
O Brasil é uma das maiores economias do mundo e uma democracia institucionalmente sólida. Já atravessou crises muito mais profundas e saiu delas preservando a Constituição e o Estado Democrático de Direito. Também saberá sair desta.
Para isso, é preciso observar um princípio constitucional: ninguém está acima da lei; nenhuma investigação escondida por conveniência política e nenhuma narrativa capaz de substituir os fatos.
Quanto mais luz sobre o Banco Master, melhor. A verdade precisa da transparência, para garantir a democracia.



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