“Ameaças de Trump contra América Latina realçam urgência do Sul Global”
O professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO), Fabrício Pereira da Silva, é um dos coordenadores da Rede Intelectual Sul-Sul (Risur) que reúne acadêmicos e vários setores da sociedade civil dos países do Sul Global. Na entrevista ao Brasil 247, um dia depois dos discursos dos presidentes Lula e Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, ele disse que as ameaças do norte-americano enfatizam a urgência da aproximação, em todos os âmbitos, dos países do Sul Global.
Ameaças
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou, durante seu discurso na ONU, que seu país usará “poderio militar incomparável” na América Latina, “se necessário”, para garantir segurança contra os cartéis de drogas. As declarações foram fortemente criticadas nos bastidores do governo brasileiro. Neste ambiente hostil, Fabrício Pereira da Silva disse que não é de hoje que o Sul Global precisa intensificar o conhecimento mútuo dos seus países nos âmbitos político, econômico, social, acadêmico, dos movimentos sociais, entre estudantes e outros. Este maior conhecimento, entende, abrirá portas para mais alianças, para parcerias, com objetivo de evidenciar a força do Sul Global.
Encontro no Rio de Janeiro
Com essa meta de realizar pontes, a Rede de Intelectuais Sul-Sul fará, nos dias 24, 25 e 26 de novembro, na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, um amplo seminário com as várias temáticas do Sul Global. Serão palestrantes de 54 países, sendo 120 de maneira presencial. A agenda, contou, prevê que o próximo encontro será em Puebla, no México, em 2027, e provavelmente em Tânger, no Marrocos, em 2028.
BRICS ampliado
O professor acredita que os debates ampliam conexões além das fronteiras e podem ser a base para o crescimento também, por exemplo, do BRICS. “O Sul Global reúne a maior população e o maior território do planeta, e o contexto atual mostra a urgência de estarmos mais articulados. Precisamos nos conhecer mais, viajar mais por nossas regiões, viajar pela América Latina, trocar ideias, criar alianças. É urgente que se conheça o Sul Global, que se mostre sua fortaleza”, diz o professor. O Sul Global reúne países da América Latina e do Caribe, da África e da Ásia, incluindo a China e a Índia, que têm as maiores populações do planeta. Para o especialista, o BRICS ampliado pode continuar crescendo neste mapa diverso que compõe o Sul Global. O bloco geopolítico foi fundado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Em 2024, incorporou novos integrantes, com a chegada do Egito, da Etiópia, do Irã, da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes. No ano seguinte, foi anunciada a presença da Indonésia no grupo.
Sul Global “precisa consumir e aprender no próprio Sul Global”
Coordenador do livro “A ideia do Sul” (Ariadna Ediciones), publicado em português, em espanhol e em inglês, que reúne especialistas de vários países do Sul Global, o professor da UNIRIO defendeu, durante a entrevista, que as universidades incluam mais autores da América Latina. “A pesquisa científica do Norte tem muito mais espaço no mundo. É muito mais valorizada, tem muito mais respeitabilidade, circulação, citações. Geralmente, o Norte produz ciência, teoria, inovação. E o Sul as reproduz. A produção do Sul (Global) muitas vezes não é considerada mesmo uma produção científica”, disse. Para ele, é preciso trabalhar para mudar essa realidade que, opina, confirma a desigualdade até no terreno do conhecimento. “Nós não nos citamos, nós não nos conhecemos. Cada um fica voltado para algum país do Norte. Ou seja, o Norte hoje em dia são os Estados Unidos, a Inglaterra, França e, eventualmente, a Alemanha. É preciso valorizar o Sul Global”, disse.
“Herança colonial” x “libertação”
“A gente tem uma desigualdade profunda no mundo, e não é uma desigualdade que se traduz só em termos econômicos, em termos de infraestrutura”, avaliou. “É uma herança colonial que se reproduz depois do fim dos colonialismos formais em todas as regiões que hoje integram o Sul. A gente tem que pensar sempre não só como independência econômica. A gente tem um desafio do conhecimento mútuo também. Cultura, saberes. E isso é libertação.”
“Tentativas de recolonização”
Quando lembrado dos discursos radicalmente diferentes dos presidentes Lula, que defendeu a soberania dos países, e de Trump, que falou em ingerências, como o possível uso da força militar dos Estados Unidos na América Latina, ele disse que há uma “tentativa de recolonização” por parte dos norte-americanos.
“Essa situação leva a um sentimento de urgência, de perceber que o mundo atravessa uma policrise em diferentes dimensões, em diferentes áreas e uma disputa por hegemonia. E para a América Latina e Caribe, especificamente, enquanto parte do Sul, é uma situação que tem uma urgência ainda maior. Principalmente nesse momento por conta destas tentativas de recolonização em relação à América Latina e Caribe por parte dos Estados Unidos”, disse nosso entrevistado.
Encontros além do acadêmico
Para tentar contribuir para reverter esta onda, entende, os encontros, os conversatórios do Sul Global são essenciais e não devem se limitar ao mundo acadêmico. Por isso, o seminário em novembro, no Rio, disse, contará também com a presença de ativistas, tradutores e outros representantes da sociedade civil.
“Cada país do Sul, no mundo acadêmico, na ciência, conhece a produção do Norte, conhece o que acontece na política estadunidense, na política francesa, e não sabe o que acontece no Sul, e o Sul comporta 90% da população mundial, 90% do território global, incluindo a China”, disse. Hora de olhar para o Sul Global e, assim, ampliar horizontes, perspectivas no nosso mundo.



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