Polos derretem. Nível do mar sobe mais de 3 centímetros
11 trilhões de toneladas de gelo desapareceram da Groenlândia e da Antártida em pouco mais de quatro décadas. O nível médio dos oceanos já subiu 3,14 centímetros – e essa transformação não termina nos polos: alcança também a extensa costa brasileira. Rio de Janeiro, Santos, Recife, Salvador, Fortaleza, Belém – em comum, além de estarem à beira-mar, essas cidades enfrentam uma mesma ameaça silenciosa: um oceano cujas marés começam a se tornar vez mais altas.
O maior levantamento por satélite já realizado sobre as calotas polares revela uma aceleração das perdas dos gelos polares desde os anos 1990. O fenômeno que acontece a milhares de quilômetros daqui já altera o nível dos mares em escala planetária.
Onze trilhões de toneladas. É difícil imaginar uma massa dessa dimensão. Mas foi exatamente essa a quantidade de gelo perdida pela Groenlândia e pela Antártida entre 1979 e 2023.
O resultado não é uma projeção sobre o futuro. É uma perda já medida por mais de quatro décadas de observações por satélite. E há uma consequência que interessa diretamente ao Brasil: 31,4 milímetros de elevação do nível médio global dos oceanos.
Pode parecer pouco – pouco mais de três centímetros. Mas essa medida representa uma transformação que não fica confinada aos extremos do planeta. Ela alcança todos os oceanos, inclusive o Atlântico que banha o Brasil de norte a sul.
Para um país de faixa litorânea tão extensa quanto a nossa, onde estão cidades, portos, praias, áreas industriais e comunidades, o que acontece nos polos está longe de ser uma questão distante.
O dado mais impressionante não é apenas a quantidade de gelo perdida, mas a velocidade com que essa perda aumentou. A partir dos anos 1990, a curva muda de maneira evidente. Na Groenlândia, a perda anual passou de cerca de 60 bilhões de toneladas na década de 1980 para 264 bilhões nos anos 2010. Na Antártida, o salto foi de aproximadamente 48 bilhões de toneladas anuais para 202 bilhões no mesmo intervalo. Não é apenas menos gelo. É uma perda que acontece em ritmo crescente.
A Groenlândia e o Ártico respondem pela maior parcela da elevação dos mares provocada pela perda das suas grandes calotas. Seu derretimento contribuiu com 18,1 milímetros para a elevação do nível médio global. A Antártida acrescentou outros 13,3 milímetros. E a maior parte da perda não ocorre simplesmente porque o gelo derrete na superfície: 84% está relacionada à aceleração das geleiras, que passaram a transportar mais gelo para o oceano. Os 16% restantes correspondem ao derretimento da superfície das calotas. Trata-se de uma mudança de dinâmica: as grandes massas de gelo estão não apenas derretendo, mas também chegando mais rapidamente ao mar.
O que isso significa para o Brasil? Nosso país tem cerca de 8,5 mil quilômetros de litoral e concentra ao longo da costa uma parcela importante de sua população, infraestrutura, atividade econômica e patrimônio natural. Por isso, uma elevação do nível médio do mar não precisa ser enorme para ter importância.
À medida que o nível de referência dos oceanos sobe, ressacas, marés extremas e eventos costeiros podem partir de um patamar mais alto, aumentando a exposição de áreas baixas. Praias, manguezais, estuários, portos e cidades costeiras ficam diretamente relacionados a essa mudança.
Isso não significa que os 3,14 centímetros medidos pelo estudo tenham provocado, sozinhos, determinado impacto em uma cidade brasileira. O nível do mar varia regionalmente e também é influenciado por outros fatores. Mas o mecanismo é global: gelo perdido nas calotas polares acrescenta água aos oceanos do planeta – inclusive ao Atlântico Sul.
O estudo publicado na revista Scientific Data reuniu 42 conjuntos independentes de observações, provenientes de 27 missões de satélite. A série começa em 1972 na Groenlândia e em 1979 na Antártida. A pesquisa foi realizada pelo IMBIE (Ice Sheet Mass Balance Inter-comparison Exercise), com pesquisadores da Northumbria University e da University of Washington, apoio da ESA e da NASA, e participação do físico italiano Giorgio Spada, da Universidade de Bolonha.
Durante décadas, os satélites observaram uma transformação que agora pode ser quantificada. E os números mostram uma mudança clara: as calotas polares estão perdendo massa em ritmo crescente.
O problema é que o que acontece nos polos não fica nos polos. Groenlândia e Antártida podem parecer mundos remotos, separados da realidade brasileira por milhares de quilômetros. Mas o oceano não reconhece essa distância. O gelo derrete e desaparece nos polos. A água chega aos oceanos. E o nível do mar sobe em todo o mundo, e também diante da costa brasileira. Os 3,14 centímetros já acumulados são a marca mensurável de uma transformação planetária.
Para o Brasil, a questão não está apenas no que já aconteceu. Está no que acontecerá com cada centímetro adicional. Para um país continental como o Brasil, o litoral é uma das nossas principais fronteiras econômicas, ambientais e urbanas.
O mar não precisa avançar quilômetros para produzir impactos. Basta começar de um nível mais alto. E é justamente essa mudança silenciosa que os números do estudo registram.
O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) já aponta que cidades costeiras brasileiras estão expostas a tempestades, erosão e intrusão de água salgada, riscos que podem ser intensificados pela elevação do nível do mar.
E há uma questão particularmente importante: o problema não precisa esperar o mar subir dezenas de centímetros. O aumento gradual do nível médio pode transformar um evento que hoje é raro em algo mais frequente. Uma ressaca que antes chegava até determinado ponto da praia pode, com um nível de base mais alto, avançar mais. Uma maré excepcional pode alcançar áreas urbanas que antes permaneciam secas.
Por isso, para uma cidade como Santos, por exemplo, a questão não é imaginar a cidade simplesmente “submersa”. É pensar em quantas vezes por ano determinadas áreas poderão sofrer alagamentos, erosão ou invasão da água durante marés e ressacas. A elevação do nível do mar não é uma ameaça cinematográfica de um futuro distante; ela aumenta, gradualmente, a vulnerabilidade das cidades que já vivem na fronteira entre a terra e o oceano.
A questão, portanto, já não é apenas o que está acontecendo nos polos. É quanto mais o mar poderá subir – e quanto espaço o Brasil terá para recuar.



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